Matéria Especial Hypeness

Tony Tornado é o embaixador do orgulho negro brasileiro, dom

por: Kauê Vieira

Existem pessoas que nascem com privilégios impressionantes. Não, não são coisas materiais. Pelo contrário, a dádiva da longevidade é algo que o dinheiro não compra – pelo menos diretamente. O caso de Tony Tornado é um desses. 

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A história desse artista talentoso nascido em Mirante do Paranapanema, no interior de São Paulo, há 90 anos é de cair o queixo. Aliás, a boca teima em ficar aberta pelo fato de um homem negro – nós país do extermínio de pessoas de pele preta – tenha acumulado uma história tão longeva e rica. 

Tony Tornado foi uma referência estética negra

Antônio Viana Gomes, seu nome de batismo, é filho de mãe guianense e pai brasileiro. A vida nunca foi fácil para Tony, nome adotado pela admiração aos movimentos de negros norte-americanos. Aos 11 anos, fugiu de casa rumo ao Rio de Janeiro e lá viveu nas ruas, vendeu amendoim e engraxou sapatos. 

“Moleque de rua legal. Sem parente. E foi combinado assim: ‘Mamãe, vou para o Rio, isso aqui é pequeno para mim’. Desde criança, quando pintava circo na cidade, eu já queria subir no palco. Todo o mundo me tinha como maluco na cidade, por causa dessas coisa artística, entende?”, disse em entrevista à Trip. 

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A arte sempre esteve em seus caminhos e no início da década de 1960 atendia pelo nome de Tony Checker. Foi neste período que começou o namoro com a música produzida pelos afro-americanos. No programa ‘Hoje é Dia de Rock’, Tornada imitava ninguém menos que Chubby Checker e Little Richard. 

Com Tim Maia em Nova York 

Os anos 1960 foram realmente frutíferos para Tony. Ele, sem mais nem menos, embarcou para os Estados Unidos. Nova York era a menina dos olhos. Ilegal, precisava enganar o departamento de imigração yankee e por isso fingia ser funcionário de um lava-rápido Big Apple. Tornado, na verdade, atuava como traficante de drogas e caixas de sapato no Harlem. 

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“Morei no centro do Harlem [o bairro negro nova-iorquino]. E, lá, ou você canta ou trafica. Como é que eu ia cantar num lugar onde você ouve Ray Charles e James Brown o tempo todo?”, recordou ainda em conversa com a Trip. 

Embora a trajetória pelas ruas de uma Nova York em plena época de luta pelos direitos civis dos negros contra a segregação. Em tempo, Malcolm X havia sido assassinado na mesma New York pouco mais de um ano antes da chegada de Tony Tornado. 

Voltando…nas ruas da cidade norte-americana, Tony se bateu com outro ‘vida loka’. Tim Maia, também admirador do funk e soul dos EUA decidiu ir para a América do Norte, onde, inclusive, foi preso. 

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“O Sebastião (nome de batismo de Tim) era mais ilegal do que eu. Eu era ilegal mas era mais ou menos comportado, tinha 20 mulheres na rua. Cafetão era uma profissão boa, não era uma profissão qualquer, eu tinha minha Cadillac branca por dentro e por fora, roupas bonitas… O Sebastião, não, eu fui tirar ele na delegacia, ele tinha roubado não sei o quê. Alguém falou “ô, Comfort (apelido de Tony no Harlem), tem um brasileiro pegado lá”. Eu fui, e era o Tim. Paguei a fiança, ficamos muito amigos e continuamos a nossa amizade no Brasil. Eu fui no dia do último show dele…”, explicou em entrevista ao jornal O Globo. 

O retorno ao Brasil aconteceu dois anos depois. Tony Tornado regressou ao Rio de Janeiro muito mais experiente. Ele trouxe na bagagem as influências negras dos EUA, sejam elas musicais ou estéticas. O artista se considera o precursor do movimento ‘Black is Beautiful’, pensado para a valorizar a estética de pessoas negras na luta não só contra o racismo, mas, sobretudo, pela afirmação de pessoas da pele preta. 

Aqui pra nós, é bonito ler e ouvir Tony falando com segurança sobre sua importância para a estética dos negros aqui do Brasil. Diga-se, bem antes da criação do termo empoderamento. 

“Sei que fui uma referência de beleza negra. Sempre tive vaidade. Sou e sempre serei black is beautiful”, disse em bate-papo com o G1. 

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Tony nunca teve receio de reconhecer sua vaidade. No século 21 pode parecer algo banal, mas não se engane. Além do machismo, ele precisava lutar contra algo que afeta, até os dias de hoje, a existência de homens negros: a hiperssexualização. O conceito nasce da diminuição de um homem negro ao seu corpo – prática comum no período da escravidão portuguesa. É como se o indivíduo tivesse apenas a capacidade braçal, excluindo assim sua capacidade de raciocinar, entre outras coisas. 

“Eu fui o primeiro metrossexual negro do Brasil. Sempre fiz as unhas e o cabelo. Passo base nas unhas dos pés e das mãos. Minhas unhas estão sempre perfeitas, dom . A minha sorte é que sou meio imberbe, não tenho muita barba. Isso facilita minha vida, dom ”, afirmou ao G1 Tornado, que disse usar o termo ‘dom’ desde os tempos em que viveu no México. 

Movimento Black Rio 

A década de 1970 nasce com a ressaca da decepção provocada pelos jovens que sonhavam com um mundo livre de armas e guerras. A realidade era dura, a cocaína chegava com força e a poesia de Lennon e McCartney substituída pelo rangido das guitarras de Jimi Page e Eric Clapton. 

Para os negros, no entanto, a luta continuava. No Brasil, o Movimento Black Rio teve contribuição fundamental. Invariavelmente a gente precisa dizer que nossos passos vêm de longe. 

Tony foi algemado após homenagear os Panteras Negras

A efervescência cultural teve início no subúrbio do Rio de Janeiro em meados da década de 1970. O Movimento Black Rio veio na esteira da explosão do soul, ritmo imortalizado por James Brown, apelido de Tony Tornado nas ruas de Nova York em função de sua habilidade com a dança. 

Salões dos bairros suburbanos da capital fluminense foram tomados pelas cores da roupas e os black powers, que se moviam no compasso da música. Canção esta que não vinha apenas dos Estados Unidos. A Banda Black Rio, por exemplo, surgiu no período, tal como sucessos de nomes como Tim Maia, Cassiano e o próprio Tornado, que lançava ‘BR-3’, vencedora do ‘Festival Internacional da Canção’. A canção foi executada ao lado do Trio Ternura. A composição é de Tibério Gaspar e Antônio Adolfo. 

Como mostra o artigo publicado por Andressa Vasconcelos no Medium, o Movimento Black Rio foi perseguido pela ditadura militar. Os milicos estavam de olho no crescimento do orgulho da raça, conforme mostra este trecho publicado pelo jornal O Globo baseado em trabalho da Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-RJ). 

“Um revolucionário americano estaria no Brasil recrutando militantes para implementar no país um regime de segregação racial”.

Seria Tony Tornado este tal revolucionário? Motivos não faltam para acreditar. Ele mesmo se recorda de um momento excitante. Durante o mesmo ‘Festival Internacional da Canção’, ele assistia a interpretação de ‘Black is Beautiful’ por Elis Regina quando não resistiu e subiu ao palco. Tony cerrou os punhos, ergueu os braços e fez o sinal black power. Estava se inspirando nos Panteras Negras.

Movimento Black Rio pela afirmação negra

Foi o bastante para ser algemado e preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). O fato aconteceu no Maracanãzinho, Rio de Janeiro.  “Quando ela disse que ‘eu quero um homem de cor’, eu falei: ‘sou eu. Só pode ser eu’. Empolguei-me”, recorda ao jornal de Brasília. 

E complementa, “vou levantar o punho como haviam levantado os atletas nas Olimpíadas. As pessoas acharam estranho: por que ele não sambou e tal?”. 

Referência estética, cultural e também de orgulho negro, Tony Tornado entra para a história como um dos maiores nomes das artes e da sociedade brasileira como um todo. Quer dizer, entra não, afinal o negão segue cantando, atuando e sendo sincero. Tudo isso com 90 anos e, pasmem, com o pai vivão e vivendo acompanhando os passos do filho. 

A história de Tony Tornado nunca teve o reconhecimento devido no país do apagamento e embranquecimento. Mesmo assim, este homem do interior de São Paulo segue como referência para geração após geração. Que assim seja. 

PS: Respeito é bom e o Tony e nós gostamos. Vida longa! 

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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