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Ana Maria Primavesi: morre, aos 99 anos, a pioneira da agroecologia

por: Vitor Paiva

Conhecer, respeitar e desvendar os mistérios da terra foi a missão da vida da engenheira agrônoma e professora Ana Maria Primavesi – e a terra aqui se apresenta assim, em letra minúscula, aquilo em que pisamos e de onde nascem as árvores, sempre ao alcance da mão: seu trabalho era com o solo, o chão, o que nos sustenta em todos os sentidos. Primavesi faleceu no último dia 05 aos 99 anos, como um dos mais importantes e pioneiros nomes da agroecologia no Brasil e no mundo, responsável por avanços fundamentais no trato ecológico do solo – que para ela era mais do que um estudo ou um ofício, mas sim uma verdadeira luta pela vida: luta e vida, Primavesi e ecologia, uma sinônimo da outra.

“Sem a natureza não existimos mais, ela é a base da nossa vida. Lutar pela terra, lutar pelas plantas, lutar pela agricultura, porque se não vivermos dentro da agricultora, vamos acabar. Não tem vida que continue sem terra, sem agricultura”, disse, na segunda edição da Feira Nacional da Reforma Agrária, em 2017. Nascida Annemarie Baronesa Conrad na Áustria em 1920, Primavesi chegou a ser presa em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra, e nos anos 1950 veio para o Brasil não só para fugir de uma Europa devastada, mas também para encontrar o verde e, nele, sua carreira acadêmica, sua militância, seu propósito.

Primavesi aos 25 anos, ainda na Áustria

“O homem é o que a terra, ou o solo, faz dele”, dizia. Como uma das poucas mulheres na faculdade de agronomia em que se formou, resistir ao nazismo e ao preconceito se deu pela força de seu talento em compreender a vida microscópica contida nos solos, e com isso a imensidão da vida como um todo.

Em um laboratório da UFSM, nos anos 1960

No Brasil, passou a dar aulas na Universidade Federal de Santa Maria, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande Sul, e ao longo de seus mais de 60 anos de carreira e diversos livros publicados, seu conhecimento no manejo ecológico do solo desenvolveu e aprofundou técnicas como a rotação de culturas para ajudar no controle de pragas, e o uso de uma barreira vegetal chamada Quebra-vento, para proteger os plantas dos efeitos do vento. Rapidamente seu trabalho tornou-se paradigma e norte para pesquisas e principalmente para a mão na massa de agricultores em geral – em especial o livro “Manejo ecológico do solo”, de 1979, bibliografia intocável e fundamental em qualquer faculdade de agronomia, em especial para quem estuda agricultura orgânica. Ao entender o solo como um organismo vivo, ela revolucionou a agricultura na ecológica na América Latina e no mundo.

“Não existe solo rico ou pobre; existe solo vivo ou morto”, escreveu a fundadora da Associação da Agricultura Orgânica (AOO). Primavesi colecionou prêmios como o One World Award, da Federação Internacional dos Movimentos da Agricultura Orgânica (IFOAM), além de diversos título de Doctor honoris causa em universidades do Brasil e do mundo. Como parece ser uma triste tradição que assombra o Brasil, por aqui perseguimos justo aqueles que dão a medida de nossa grandeza, e com Ana Maria Primavesi não foi diferente: a agrônoma teve de enfrentar muita resistência por defender a natureza da praga do capital e dos negócios devastando a natureza. “Teve muita resistência. Ela foi muito atacada. Agora, o que acontece? A evidência é o que a natureza está mostrando, porque a gente não pode ser contra a natureza, nós dependemos dela. Temos que trabalhar em comunhão com a natureza”, disse Carin Primavesi Silveira, filha de Ana Maria.

Recebendo o prêmio One World Award

Primavesi ensinou que a natureza sempre sabe mais – e que por isso é tão importante que trabalhemos em favor da terra. “É bela a agricultura e a amamos mais ainda quanto mais vamos conhecendo a natureza”, escreveu. “Acabamos com a ideia de que a terra é apenas a fábrica de alimentos. A terra não é fábrica e não produz ilimitadamente. Amemos nossa terra e procuremos saber o que ela é capaz de produzir quando a tratamos carinhosamente. Tudo corre melhor quando feito com amor!”. Sua morte foi anunciada em seu site com um título que faz jus aos seus 99 anos de vida e aos quase 80 anos dedicados ao conhecimento, ao campo, à ecologia e ao solo: “Um jatobá que tomba, centenário”.

“Nosso jatobá sagrado, cuja seiva alimentou saberes e por sob a copa nos abrigamos no acolhimento de compreendermos de onde viemos e para onde vamos, tomba, quase centenário. Ele abre uma clareira imensa que proporcionará ao sol debruçar-se sobre uma nova etapa, a da perpetuação da vida. E dos saberes que ela disseminou”, diz a nota, que segue: “Antes de tombar, nosso jatobá sagrado lançou tantas sementes, mas tantas, que agora o mundo está repleto de mudas vigorosas, prontas a enfrentar as barreiras que a impediriam de crescer. Essas mudas somos todos nós, cada um que a amou em vida, cada um a seu modo. Nossa gratidão pelo legado único que nos deixa essa árvore frondosa, cuja luta pelo amor à natureza prevaleceu. A luta passa a ser nossa daqui em diante, uma luta pela vida do solo, por uma agricultura respeitosa, por uma educação que se volte mais ao campo e suas múltiplas relações”.

A Fazenda Ecológia em Itaí, que construiu no interior de São Paulo, onde viveu por 32 anos

Ana Maria Primavesi tornou-se parte da terra merecendo todas as mais grandiosas homenagens como referência na única luta realmente incontestável: pela natureza. Todos nós, no entanto, podemos homenagea-la hoje e sempre, com as mãos enfiadas no solo, cuidando da terra como Primavesi ensinou. “Peguemos nossa pá, perguntemos a nossa terra o que lhe está faltando e tratemo-la depois convenientemente dentro dos limites que a natureza nos impõe, e a antiga exuberância voltará aos nossos campos e a prosperidade aos nossos lares”.

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© fotos: arquivo pessoal/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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