Diversidade

A história de Mary Beatrice, mulher negra que inventou o absorvente

Karol Gomes - 06/02/2020 às 14:42 | Atualizada em 04/02/2022 às 21:51

Durante sua longa pesquisa para a série de livros ‘Forgotten Women‘ (ou ‘Mulheres Esquecidas’), a escritora Zing Tsjeng descobriu muitas inexatidões históricas sobre invenções que mudaram a sociedade – segundo ela, a maioria foi atribuída a homens, principalmente brancos. 

“Houveram milhares de mulheres inventoras, cientistas e tecnológicas. Mas elas nunca receberam o reconhecimento que mereciam”, declarou a autora em um artigo para a Vice. Cada livro conta com 48 perfis ilustrados de mulheres da história – o número foi escolhido para refletir o total de vencedoras do sexo feminino do Prêmio Nobel em 116 anos de existência. Entre elas, Mary Beatrice Davidson Kenner, mulher negra que inventou o absorvente.

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Quem inventou o absorvente?

A inventora Mary Beatrice Kenner.

A invenção do absorvente menstrual é creditada à americana Mary Beatrice Davidson Kenner. Nascida em 1912, ela cresceu em Charlotte, Carolina do Norte, e veio de uma família de inventores. Seu avô materno criou o sinal de luzes tricolor para guiar trens e sua irmã, Mildred Davidson Austin Smith, patenteou o jogo de tabuleiro da família para comercializá-lo. 

Já o seu pai, Sidney Nathaniel Davidson, era pastor e, em 1914, criou um prensador de roupas para fazê-las caber em malas – mas recusou a oferta de uma empresa de Nova York que desejava comprar a ideia por $20 mil. Ele produziu apenas um prensador, vendido por $14, e voltou para a carreira de pastor. 

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Essa experiência do pai não intimidou Mary Beatrice, que seguiu o mesmo caminho das invenções. Ela acordava de madrugada com a mente cheia de ideias e ocupava seu tempo desenhando modelos e os construindo. Em uma ocasião, quando viu água escorrendo de um guarda-chuva, amarrou na ponta de todos os que tinha em casa uma esponja criada por ela. A invenção sugava o líquido que caía e mantinha o chão da casa de seus pais seco.

Anúncio do guardanapo, ou cinto, sanitário. “Este cinto é cuidadosamente feito para servir perfeitamente no corpo e dará excelente satisfação”, em livre tradução do inglês.

Com esse perfil pragmático e “faça-você-mesmo”, Mary Beatrice conseguiu uma vaga na prestigiada Universidade de Howard assim que se formou no ensino médio, em 1931. Mas precisou largar os estudos um ano depois por causa de problemas financeiros. Entre trabalhos como babá e em órgãos públicos, ela continuava anotando ideias para invenções que desenvolveria ao voltar a estudar. 

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Em 1957, Mary Beatrice tinha dinheiro suficiente guardado para sua primeira patente: algo que logo descobriu ser importante para assinar suas invenções e não ser apagada da história como muitas mulheres já haviam sido. 

Ela tinha criado um cinto para o que chamavam de guardanapos sanitários, bem antes dos absorventes descartáveis. Sua invenção reduzia muitos as chances da menstruação vazar e logo foi aderido pelas mulheres.

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Embalagem dos guardanapos sanitários.

Se inicialmente o que impedia a inventora de registrar patentes era a falta de dinheiro, ironicamente, no futuro, a patente de seu produto custaria centenas de dólares. Mas havia outro problema no caminho: o racismoEm entrevistas concedidas para Zing, Mary Beatrice contou que, mais de uma vez, empresas entravam em contato para comprar suas ideias, mas desistiam quando a reunião presencial acontecia e descobriam que ela era negra.  

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Mesmo subestimada e sem nunca ter conseguido voltar para a faculdade, ela continuou inventando durante toda a sua vida adulta e registrou mais de cinco patentes – mais do que qualquer outra mulher americana e negra na história. Mary nunca ficou rica ou famosa por suas invenções, mas ninguém pode negar que são dela – como o absorvente externo, que melhorou a experiência dos guardanapos utilizados popularmente até o fim dos anos 60. 

Novamente fazendo questão de deixar sua história registrada, ela conseguiu contar tudo a Zing antes de falecer, em 2006. 

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Fotos 1 e 3: Getty Images

Foto 2: Helen LaRuse


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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