Debate

Alunas na Índia tiram a roupa para mostrar aos professores que não estão menstruadas

por: Karol Gomes

Estudantes universitárias do instituto para meninas Sahajanand Girls (SSGI) e que moram em um albergue no estado de Gujarat, no oeste da Índia, registraram queixa afirmando que foram obrigadas a se despir e mostrar suas roupas íntimas. As professoras queriam provas de que elas não estavam menstruadas.

No total, 68 jovens foram tiradas de suas salas de aula e levadas ao banheiro na instituição, onde tiveram que, uma a uma, tirar suas calcinhas para inspeção – elas descreveram o episódio como “uma experiência muito dolorosa” que as deixou “traumatizadas” e expostas a “tortura mental”. O caso aconteceu na cidade de Bhuj, na última terça-feira.

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A discriminação contra mulheres por causa da menstruação é comum na Índia, onde o ciclo menstrual é um tabu e as mulheres menstruadas são consideradas “impuras”. O instituto é liderado pelo Swaminarayan, um grupo religioso hindu poderoso e conservador.

As vítimas afirmaram em suas denúncias que um funcionário do albergue fez uma queixa ao diretor da universidade, na segunda-feira, afirmando que algumas estudantes estavam quebrando regras que mulheres menstruadas deveriam seguir – entre elas, a proibição de entrar em templos ou na cozinha e não são autorizadas a tocar outros estudantes durante o período menstrual. Durante as refeições, elas devem se sentar longe dos demais. Também precisam limpar a própria louça e, quando na sala de aula, precisam se sentar na última fila.

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Uma das estudantes disse à BBC que o albergue mantém um registro no qual as residentes devem incluir seus nomes sempre que ficarem menstruadas, para que possam ser identificadas. Elas acreditam que o funcionário reclamou ao diretor pois, nos últimos dois meses, nenhuma estudante registrou seu nome – algo que não surpreende, dadas as restrições a que são submetidas quando o fazem.

O administrador da universidade, Pravin Pindoria, disse que o incidente foi “infeliz” e que uma investigação foi aberta e que punições serão impostas a qualquer um que tenha agido incorretamente. Já Darshana Dholakia, uma autoridade Swaminarayan, culpou as estudantes, afirmando que as alunas desrespeitaram as regras e disse que algumas delas inclusive pediram desculpas.

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Na sexta-feira, a Comissão Estadual de Mulheres de Gujarat ordenou uma investigação sobre o “exercício vergonhoso” e pediu às estudantes para “seguirem em frente e falarem sem medo sobre suas queixas”. A polícia registrou uma denúncia.

Como o documentário vencedor do Oscar, Absorvendo o Tabu, mostrou, a discriminação contra a menstruação ainda se encontra profundamente enraizada na sociedade indiana, se manifestando abertamente principalmente no interior rural do país. Mulheres menstruadas são frequentemente excluídas de eventos sociais e religiosos, têm entrada negada em templos e santuários e são mantidas fora das cozinhas.

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Mas, cada vez mais, as mulheres que vivem em áreas urbanas e têm acesso a educação têm desafiado essas idéias antiquadas. Nos últimos anos, uma série de iniciativas na tentativa mostrar a menstruação exatamente como ela é – uma função biológica natural.

 

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Fotos: Reprodução / BBC Gujarati


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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