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‘Bacurau’ e ‘Parasita’ se encontram na luta de classes e no espírito de resistência

por: Yuri Ferreira

O ano de 2019 foi importantíssimo para o cinema. Muitos críticos disseram que há tempos não se via uma safra dessa qualidade. O aclamado ‘Coringa’, o belo ‘Adoráveis Mulheres’ e o impactante e agoniante ‘História de Casamento’ foram alguns dos longas espetaculares que ficaram de escanteio em algumas premiações, mas são fortes em suas qualidades. No entanto, quem roubou a cena no cenário brasileiro foram outros filmes: ‘Bacurau’, de Kléber Mendonça Filho, e ‘Parasita’, de Bong Joon Ho, o fenômeno ganhador do ‘Oscar’.

Ambos os filmes tratam de um problema que o sociólogo e economista alemão Karl Marx já tratava no século 18: a disparidade econômica entre duas classes sociais. Enquanto ‘Bacurau’ aborda isso em um cenário brasileiro, mais precisamente no sertão nordestino, ‘Parasita’ se encontra na metrópole sul-coreana. Mas apesar da distância geográfica, cientistas sociais, filósofos e críticos de cinema enxergaram que, no fundo, as duas narrativas estão bastante próximas.

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Contextos diferentes, histórias similares

Em ambos os filmes observamos pessoas pobres com dificuldades para sobreviver. Nos primeiros atos, somos apresentados as dificuldades do ambiente. Em ‘Parasita’, a falta de wi-fi e de emprego da família. Em ‘Bacurau’, a falta d’água, comida e remédios – solucionada pelo prefeito. As dificuldades de viver unem os filmes. No contexto mais amplo de ‘Bacurau’ ou no mais particular da família de Ki-taek.

Em Bacurau, a resistência aparece de maneira esperançosa para os oprimidos

“Esses filmes podem falar sobre a luta de classes, mas não no geral, mas como ela é do nosso tempo: vivemos em tempos em que pobres são descartáveis, seja ele o camponês morador do interior do Nordeste em Bacurau ou o trabalhador precarizado de Parasita. Se a gente acreditava numa força de organização dos trabalhadores, em que eles eram importantes, aqui a gente tem um novo tipo de capitalismo que descartabiliza as pessoas”, afirma ao Hypeness Jonnefer Barbosa, professor da Pós-Graduação de Filosofia da PUC-SP.

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São filmes que falam sobre coisas atuais: em Bacurau, por exemplo, se vê a luta dos trabalhadores em tempos de extermínio. Em Parasita, a gente vê essa questão de uma rede de trabalhadores – como se vê no Brasil – uma pessoa é demitida e ela contrata uma empresa que terceiriza esses serviços.

Ambos os longas acabam tratando de processos similares do capitalismo moderno. De um lado, o genocídio de populações esquecidas, como os jovens negros no Brasil ou os imigrantes na fronteira dos EUA. De outro, a precarização do capitalismo, com menos carteiras assinadas e mais pequenos empresários na luta por poder dobrar uma caixa de pizza ou ser uma governanta de uma família de ricos (tudo isso a alto custo).

Parasita exibe a precarização do trabalho e a pobreza nos centros urbanos

Em ‘Parasita’, a família se apropria de novas maneiras para conquistar o terreno do luxo. Em ‘Bacurau’, a luta por subsistência – alerta de spoilers – vem através da conquista armada. A revolta contra a cultura de extermínio no safari humano aparece aludindo a histórias de resistência de Lampião. Em ‘Parasita’, a resistência não é sublime:

“O mundo de Parasita é somente cruel. O conflito é acima de tudo por sobrevivência e para manter o pouco que foi possível arrancar dos abastados. Não existe um final romântico como em Bacurau, onde todos se unem para derrotar os invasores, mas apenas uma brutal violência que termina por escancarar toda a submissão do pobre para com o rico transformada em ódio”, afirma ao Hypeness Felipe Santino, cientista social formado pela Universidade Estadual de Londrina.

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A luta da vida, na tela

Estamos em um ponto muito curioso de nossa história econômica e política. A campanha do representante mais à esquerda do partido democrata dos Estados Unidos, Bernie Sanders, escancara uma clara divisão e insatisfação por parte de diversos setores da sociedade com a acumulação de riqueza. A concentração de renda tem sido cada vez mais absurda no capitalismo global: os bilionários do mundo ostentam mais riqueza que 4,6 bilhões de pessoas. Para colocar em outras palavras: 0,028% da população mundial tem mais dinheiro que 60% dos seres humanos juntos. ‘Bacurau’ e ‘Parasita’ (e até o ‘Coringa’), tratam justamente dessa divergência.

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O trabalho precarizado familiar é um reflexo das novas dinâmicas de emprego no mundo pós-moderno

“Em Parasita, você fala de um dos centros do capitalismo mundial, a Coreia do Sul. Apesar das diferenças de narrativa e tema, ambos falam sobre esse processo de expropriações radicais: da vida e do trabalho, onde não há contrapartida. De outro, a riqueza infame. Em um futuro distópico, pessoas ricas podem comprar pessoas para matar pessoas ou riquezas como a da família de Parasita. E os filmes abordam que esse processo é insustentável. Esse processo de acumulação de riqueza absoluta é insustentável”, afirma Jonnefer.

Na Coreia do Sul, apesar de um baixo coeficiente Gini – medida para medir a desigualdade da riqueza – essas divergências vão se estruturando de maneiras diferentes. A diferença entre os mais ricos e a população de classe média vem aumentando de maneira incessante, por mais que mais pobres tenham enriquecido pouco. A falta de divisão de renda pode acabar levando a um racha do capitalismo global que, dentro de pouco tempo, pode sofrer uma recessão.

A luta sanguinária e tarantinesca de Bacurau não se reflete na vida real, mas faz sonhar

O professor de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo, José Soares Magalhães, aponta para esse caminho na política.

“Ambos os filmes trazem as questões de classes como discussão forte. A concentração de renda chegou a um nível impossível de ser ignorada. Até alguns muito ricos estão enxergando a necessidade de alguma distribuição. O candidato Michael Bloomberg (bilionário candidato à presidência dos EUA pelo partido democrata) acaba de propor que, se eleito, levará algum tipo de reforma tributária para taxar “os ricos como eu”, disse”.

No entanto, por enquanto, as mudanças se mantém no campo do discurso e na arte. É isso que preocupa Jonnefer Barbosa. “Vivemos em um tempo em que a revolta não está nas ruas, mas ela é degustada esteticamente como um sonho nos filmes. A questão é como a gente acorda desse sonho e desperta para essa revolta acontecer nas ruas.”, conclui.

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Fotos: Reprodução/Twitter


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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