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Belo Horizonte prova que está sim entre os melhores destinos do Carnaval

por: Gabriela Rassy

A vontade de passar Carnaval em Belo Horizonte já tinha batido nos dois últimos anos. Um pouco pelo fato de, como paulistana, já ter cansado das multidões do Carnaval da minha cidade – apesar do movimento frequente de cariocas sabidos de uma boa festa migrando para São Paulo -, um pouco por já ter ido tantas vezes ao Rio que já era hora de variar.

Outro ponto que me convencia era o de os próprios belo-horizontinos, que vamos lá, são difíceis de elogiar o que vem da própria cidade, não medirem esforços para mostrar o quão maravilhoso é passar esse período todo por ali. Para essa galera exigente falar que é bom, é que é bom mesmo! Pois bem, me debandei para BH para viver duas intensas semanas dedicadas a conhecer de pertinho como os mineiros da capital celebram o Carnaval.

Em meio a uma semana inteira de ensaios de blocos, alguns já ocupavam as ruas e casas da cidade com seus tambores. O SENSACIONAL, já batendo sua 8ª edição, convidou as fanfarras Babadan Banda de Rua, Sagrada Profana, Magnólia, Unidos do Samba Queixinho e G.R.E.S. Cidade Jardim para apresentações lindíssimas entre os shows.

Bloquin de Rua

Num domingo um tanto exausta pós festival, reuni energias para acompanhar o desfile do bloco Como Te Lhamas?, dedicado aos sucessos latino americanos, cumbias y otras cositas más. Com bateria e carro de som com banda, o grupo formado por pessoas de diversos países da América Latina arrastou uma colorida multidão pelo bairro Pompeia, na região leste da cidade.

Os adesivos de pequenas Lhamas cor de laranja colados no rosto de cada um, as crianças que participavam do percurso, o clima de pura alegria e tranquilidade reinaram por ali. O repertório foi da cumbia clássica Cariñito até Baiana System, tudo com o tema do ano: Bienvenidos a Macondo – em alusão ao vilarejo fictício, palco da história de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez.

Saí do Lhamas em direção a Lagoinha, bairro berço do samba e da cultura raiz de Belo Horizonte, onde a a Babadan Banda de Rua se concentrava. O bloco surgiu em 2018 como projeto da incubadora AFRORMIGUEIRO. A formação contempla cerca de 30 músicos, grande parte vinda das tradicionais Bandas Civis do interior do Estado de Minas Gerais. O repertório vem recheado por releituras de grandes composições mineiras e brasileiras, tudo com arranjos autorais, dando ênfase nos ritmos afro, como Congo, Serra Abaixo, toques do Candomblé e funk.


O figurino e o corpo de baile afro abraçavam a fanfarra que caminhou pelas estreitas ruas deste que foi um dos primeiros bairros de BH. Ali, onde o povo operário que ajudou a construir a cidade foi morar, estão a maior parte das casas de Candomblé, Umbanda e de Ternos de Congado. Entre o percurso, o bloco passou e recebeu o carinho da Tenda Umbandista Caboclo Naruê (Mãe Naná), do Centro Espírita Pai Manoel de Aruanda (Pai Joviano) e da Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente (Pai Ricardo).

Reenergizados e devidamente abençoados, o bloco seguiu seu caminho até a noite cair. Uma experiência absolutamente linda e sensível com o tratamento da cultura afrobrasileira. Vale conhecer a banda, que se apresenta de tempos em tempos, também fora do Carnaval.

Ainda deu tempo de, no outro final de semana, fazer o percurso do clássico bloco Mamá na Vaca, no bairro Santo Antonio. Saindo da Praça do Cairo e terminando na vaquinha, quase na Avenida do Contorno, o tradicional cortejo arrastou uma multidão fantasiada que entoava as marchinhas tocadas pelos metais e bateria do Mamá.

Depois de semanas de chuva, o sol raiou firme pelo para o desfile. Era um tal tira foto pra cá, faz vídeo pra lá, pula, brinca, canta que só parei para pensar no final o quanto me senti segura, mesmo num bloco grande. Essa aliás, foi a sensação em todos os blocos, em pequenas caminhadas a noite na rua, na saída de qualquer lugar. Muito diferente dos outros – ainda que ótimos – Carnavais por aí, confesso.

Quem não deu, Damaris

A 9ª edição do Concurso de Marchinhas do Mestre Jonas fez a festa para escolher a marchinha oficial do Carnaval de Belo Horizonte. Entre ótimas 10 concorrentes, 5 foram escolhidas para a finalíssima. Entre elas, a maravilhosa “Quem não deu, Damares” ficou de longe em primeiro lugar, saudada com os gritos e aplausos da torcida.

Veja que felicidade,
se a virgindade pudesse voltar
As piriquitas caladas
Passarinhos sem voar

Namoro tradicional
Só papai e mamãe, matrimonial
No tinder pentecostal
Ninguém mata a cobra, ninguém mostra o pau

Quem não deu, Damares
Quem Damares não deu
Se Damares não fode
Todo mundo se fodeu

O segundo lugar ficou com “Mimosas Borboletas”, com letra da cantora e professora de canto Celinha Braga, e cantada por suas alunas Flora Guerra, Brenda Andrade e Jhessica Vilas, que compõe outros blocos da cidade.

A ótima “Parente Bolsominion” fechou a premiação com o terceiro lugar. O refrão trazia os versos “Todo mundo tem (eu não), pode admitir, babaca com laço sanguíneo, todo mundo tem parente Bolsominion”, em uma performance com um integrante da família lançando frases como “a culpa é do PT”. No final, um beijo inesperado deixava o parente desajustado. Genial!

As fantasias eram outro destaque da festa. De uma vedete riquíssima a uma farmácia ambulante, passando por freiras com arminha de piroca e um Presidente Lula circulavam pelo salão enquanto cada grupo apresentava as canções concorrentes.

Drinks do Carnaval – e da vida em BH

Os dias em Beagá foram regados a novas experiências com drinks. Além dos clássicos sacolés alcoólicos que refrescam os foliões pelas outras cidades, a capital mineira mostra a criatividade na hora de tomar um trago. Pudera, vindo da cidade com o maior número de butecos por habitante!

Numa votação informal dentro da minha própria reflexão (aloka), escolhi o Catuçaí como drink do Carnaval. Nada ameniza o doce da selvagem como um açaí batido numa textura de raspadinha incrível. O Catuçaí do Nandão foi o favorita da galera.

O segundo lugar fica com o Gin Gibre, uma mistura de Gin, limão, açúcar e gengibre com 9% de teor alcoólico refrescante e maravilhosa. Boa para tomar no bloco que não empapuça e nem dá aquela vontade louca de fazer um xixi por metro caminhado, é só colocar mais gelo que ela continua valendo.

O Xeque Mate, que já andei tomando em São Paulo e no Rio, é uma criação mineira que mistura rum artesanal, chá mate, guaraná e suco de limão nas versões em lata, gaseificada e com 9% de teor alcoólico. Em bares da cidade dá para encontrar na chopeira ou na garrafa de vidro – esta última mais fortinha, com 15% de teor alcoólico.

Depois de tudo isso, fica a pergunta: vale a pena escolher Belo Horizonte como destino no Carnaval – ou mesmo as semanas pré? Eu já estou na busca por passagens. Se a gente achava que Minas era acolhedora dos estômagos, agora tenho certeza que é da folia também. BH, quebrou tudo! Até breve.

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Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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