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Blocos comandados por mulheres invertem lógica machista e racista do Carnaval da Bahia

por: Kauê Vieira

A presença de mulheres (leia mulheres negras) no Carnaval de Salvador sempre foi cercada de estereótipo. A hiperssexualização e a precarização caminham de mãos dadas em meio ao burburinho e luxo de camarotes e trios-elétricos na orla da primeira capital do Brasil. 

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“A mulher negra continua sendo periferia no carnaval de Salvador. São as catadoras de latinhas, o pessoal do subemprego, etc”, declarou ao Jornal da Cidade Olívia Santana, primeira mulher negra eleita deputada estadual na Bahia. 

Você reparou no detalhe? A Bahia, talvez o estado mais negro do Brasil, apenas em 2018 elegeu sua primeira deputada estadual negra. O fato, mais que celebrado, deve servir de reflexão e impulso para mudança. 

Todavia, o simbolismo de Olívia Santana comprova como mulheres, principalmente pretas, são tratadas na folia da Bahia. Não é de hoje que o Carnaval de Salvador se afasta de suas raízes. A discriminação está por todos os lados. 

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Basta pegar uma fotografia do circuito Barra-Ondina para ver o mar de pessoas (quase todas brancas) correndo atrás do trio protegidas por cordas (puxadas por corpos pretos) e até mesmo cordões da polícia militar. 

O racismo e o machismo se encontram na perversidade. Mesmo no caso de mulheres brancas e negras, o tratamento é diferente.  O que seria do Carnaval sem a genialidade de Margareth Menezes? Nada. Então, porque a cantora baiana não tem metade da exposição de suas colegas caucasianas?

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O Hypeness que ecoar os ventos da mudança que já são sentidos. Por isso, selecionamos alguns blocos do Carnaval de Salvador criados e protagonizados por mulheres. Mesmo que as pautas (graças ao trabalho de movimentos negros e feministas) tenham avançado, ainda é preciso reforçar que a mulher ocupa o espaço que quiser dentro do Carnaval. 

1- Filhas de Gandhy 

O Gandhy é um dos nomes mais importantes e históricos do Carnaval de Salvador. Quem não tem na cabeça a imagem das ruas do centro antigo da capital baiana tomada por um mar branco? 

O problema é que o bloco fundado em meados de 1949 por um grupo de estivadores portuários da Soterópolis permitia apenas a filiação de homens – até os dias de hoje é assim. 

Da exigência, bastante ultrapassada para os dias de hoje, nasce o Afoxé Filhas de Gandhy. A Sociedade Recreativa Cultural foi fundada por mulheres 30 anos depois do Gandhy masculino, em 1979. 

Os ideais sempre foram os de manter a promover a ascensão política e social de mulheres pela cultura e ancestralidade. As coisas, porém, não são fáceis. Em 2019, quando completou 40 anos de vida, o Afoxé Filhas de Gandhy enfrentou problemas para colocar o bloco na rua. 

Quem disse que mulher não pode sair no Gandhy?

Glicéria Vasconcellos, fundadora e presidente do bloco afro, declarou ao Correio 24 horas que chegou a entrar em editais em busca de patrocínio. Sem sucesso. 

“Contratei até uma pessoa para cuidar disso, mas não fomos contempladas. Isso me deixa muito triste, porque as Filhas de Gandhy são uns dos poucos blocos femininos que ainda resistem”, destacou. 

O Filhas de Gandhy se destaca mesmo pelo olhar social. O bloco afro criou o projeto ‘Arte das Yabás’, que em três edições, faz uso da economia criativa para fomentar a liberdade financeira das mulheres com a produção de instrumentos e adereços. 

2- Banda Didá

O conjunto de mulheres negras possui a levada regueira características de muitos blocos afro de Salvador. A Banda Didá nasceu há 25 anos, fundada por Neguinho do Samba. No currículo estão sucesso como uma apresentação ao lado de Carlinhos Brown na festa de encerramento da ‘Copa do Mundo’ de 2014. 

Com o som imponente, as cores vibrantes e o movimento de cabelos crespos e tranças, a Didá segue em marcha pela igualdade. Não só no Carnaval, mas na sociedade como um todo. 

São 80 integrantes ao todo. Ao UOL, Vivam Caroline – diretora de projetos e relações públicas da Didá – destaca o ímpeto pela emancipação feminina (de fato) e de como arte e política se entrelaçam. 

“Recebemos crianças, mulheres, não apenas para ensinar música, arte, mas para desenvolver esse aspecto social, político, esse aspecto crítico do pensamento. Saber por que nós estamos tocando e por que é tão importante tocarmos”, diz ela. 

As mulheres e meninas da Banda Didá podem ser vistas ensaiando nas ruas e vielas do Pelourinho ou participando da abertura de grandes eventos na capital baiana. Aliás, a Didá afro lançou uma campanha para festejar os 25 anos de história. 

A ideia é filmar um documentário sobre estas quase três décadas de estrada da primeira banda de percussão samba reggae. Você pode ajudar aqui

“O documentário levará para todas as telas a emoção de uma trajetória que é símbolo de inovação, inclusão, resistência negra e empoderamento feminino”, dizem elas na descrição da campanha. 

3- As Poderosas 

Embora seja o bloco mais novo entre os citados nesta reportagem, As Poderosas vão às ruas para falar de um tema urgente e com casos recorrentes no Carnaval: o feminicídio. Segundo a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), Salvador teve seis casos de estupro, incluindo de uma adolescente, e duas tentativas de feminicídio durante o Carnaval 2019. 

Por isso As Poderosas estão nas ruas. Para protestar diante de números inaceitáveis de sucessivos casos de violência contra a mulher. O bloco foi formado na comunidade do Alto das Pombas, que fica no bairro de classe média alta de Ondina. 

Ao UOL, Gilmara Silva Alves, de 27 anos, uma das nove diretoras do bloco, assinalou que tudo começou com uma partida de futebol. “No dia 25 de dezembro tem um jogo de futebol em que só é permitido homens”, iniciou. 

E seguiu, “tivemos a ideia de fazer uma festa só de mulheres e mostrar que juntas podemos tudo. Nos ocorreu de abraçar uma causa e resolvemos protestar contra o aumento dos feminicídios na Bahia”, encerra uma das diretoras de As Poderosas.  

O bloco também está na luta contra a homofobia. No Carnaval de 2020, destacam, a ideia é homenagear Maria Bonita, símbolo do cangaço brasileiro. Homens que apoiam a causa também são bem-vindos ao desfile. 

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Fotos: foto 1: Reprodução/Facebook/foto 2: Reprodução/Instagram/foto 3: Mila Cordeiro/Reprodução/Instagram/foto 4: Reprodução/Facebook/foto 5: Reprodução/Facebook/foto 6: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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