Arte

 Como o Festival de Berlim suspendeu um prêmio por passado de fundador associado ao Nazismo

por: Vitor Paiva

Entre 1951 e 1976 o Festival Internacional de Cinema de Berlim, também conhecido como Berlinale, foi dirigido por Alfred Bauer, um dos fundadores do festival. Após sua morte em 1986 o Berlinale passou a oferecer uma premiação para “filmes de longa-metragem que abram novas perspectivas no campo da arte cinematográfica” com seu nome. Uma descoberta recente, revelada pelo jornal alemão Die Zeit, fez com que o festival anunciasse que deixaria de oferecer o Prêmio Alfred Bauer: a reportagem confirmou que Bauer, antes de fundar o festival, trabalhava em um posto de alto escalão com Joseph Goebbels, chefe de propaganda do regime nazista e braço direito de Hitler.

Alfred Bauer em 1971, junto da atriz estadunidense Shirley MacLaine

Segundo documentos revelados pelo jornal, o fundador do Berlinale, além de trabalhar em uma repartição cinematográfica estabelecida por Goebbels, era um “ávido membro” da SA, ala paramilitar nazista, onde exerceu uma função importante na vigilância de atores, produtores e artistas ligados ao cinema. Com o fim do conflito Bauer esforçou-se para apagar os rastros de seu passado nazista, e seis anos após a queda do regime nazista, foi nomeado diretor do Festival de Berlim. Seu trabalho no Berlinale ajudou a elevar a importância do festival a um dos mais reconhecidos do mundo.

Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian, diretores atuais do Festival

A reação entre os atuais diretores do festival foi rápida, comunicando que não tinham conhecimento do passado de Bauer, e que o prêmio com seu nome estava imediatamente suspenso. “Saudamos o estudo e sua publicação no Die Zeit, e aproveitaremos essa oportunidade para iniciar uma pesquisa aprofundada sobre a história do festival, com o apoio de especialistas externos”, diz a nota oficial do festival. Para Monika Grütters, ministra alemã da Cultura, a forma como o festival lidou com o ocorrido foi exemplar: ”Se essas conclusões, que são novas para nós, forem substanciais, é óbvio que o nome de Alfred Bauer não será mais usado em conexão com a Berlinale.”, afirmou.

Bauer com a atriz italiana Sophia Lauren

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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