Matéria Especial Hypeness

Como os mascarados romperam com a lógica burguesa e transformaram o Carnaval de Pernambuco

por: Aline Feitosa

Carnaval sempre foi coisa criada e conduzida pelo povo. A elite, nem adianta discutir, nunca fez gosto pelo ‘entrudo’, que no século XIX era a brincadeira dos escravos e gente da rua, com mela-mela, batuques e muita capoeira. No Recife, a partir da década de 1840, a burguesia da cidade, para fugir das badernas, mas ao mesmo tempo para poder se liberar do moralismo e fazer suas farrinhas carnais, se emparedavam no Teatro de Santa Isabel, incentivando um novo modelo de Carnaval.

Escolhem a Europa como cânone das nações civilizadas, com luxo, banquetes e máscaras importadas de Paris e Veneza. A ideia de brincar mascarado a festa que antecipa a quaresma, naquele período em que pecar é moralmente permitido, pode até ter vindo por navios e ornamentos milionários. Mas estamos falando de Brasil, meu bem. Mas especificamente de Nordeste, onde irreverência é a palavra mais escrita nos jornais locais nesta época do ano. E na Veneza brasileira, recifenses da periferia logo também se encapuzaram com estopas, couros e qualquer outro material que lhes escondessem a identidade ou disfarçassem suas expressões mais íntimas. Se os ricos da cidade achavam que se livrariam do povo na rua, com bailes privados e cacetetes policiais, parecem só terem incentivado a criatividade popular e a vontade de aproveitar quatro dias de fevereiro para expurgar todas as mazelas.

E foi assim: de lá para cá, Recife se tornou, junto à sua irmã Olinda, o lugar mais liberto às festividades momescas e, as máscaras, que por aqui chegaram em plumas e paetês, ganharam as formas que o povo podia dar, com o material achado ou que o bolso pudesse comprar. Os mascarados se espalharam por todo o estado de Pernambuco como principais ícones de personagens, blocos e suas brincadeiras carnavalescas. Os Clubes de Máscaras e Alegorias surgiram aos montes, a exemplo do Galo da Madrugada. E criar sua própria máscara, junto à fantasia, se tornou um movimento natural para o folião que gosta de andar por aí sem ser reconhecido. 

De papel marchê, quase sempre, se fazem as criaturas divertidas dos Papangus de Bezerros. Talvez os mais famosos do Estado, esses mascarados saem às ruas todo domingo de Carnaval, na cidade agrestina, para fazer sua gréia. Por aqui, em Olinda ou em qualquer outro canto, colocou uma máscara, de caveira, patinho ou até mesmo de uma personalidade política, vai ser chamado de papangu! Diante dessa história toda, que colore e move parte da folia pernambucana, o Hypeness fez uma seleção dos principais mascados, suas origens e brincadeiras na folia mais diversa do Brasil. Vê só.

Ursos e La Ursas

Imaginem que o primeiro registro de uma pessoa fantasiada de Urso no Carnaval do Recife foi em 1817. A narrativa de um viajante estrangeiro, o comerciante francês L.F. Tollare, chamava atenção para uma “brincadeira que reunia homens, mulheres e ‘representantes’ de animais, como o urso, e um caçador com uma espingarda, em um dos pátios da cidade”.

O relato, curiosamente, apresenta características muito próximas dos Urso que costumamos ver atualmente nas ruas, durante a folia.  O ‘bicho‘ mais popular que há por aqui durante os dias de Momo, também leva seu nomes em estandartes de centenas de agremiações, sendo parte dos desfiles oficiais do Carnaval do Recife. ‘Peludo’, com máscaras variadas, feitas normalmente de papel marchê, os Ursos dançam preso ao Caçador por uma corda ou corrente e, em alguns momentos do desfile, fogem e simulam ataques ao público. Nas comunidades e bairros periféricos, a brincadeira é a mais popular, principalmente entre as crianças, que, batucando em latas, saem em algazarra com sua La Ursa amarrada com uma corda no pescoço a cantar: “a La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro”.

Papangus de Bezerros

Conta-se em Bezerros, cidade perto de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, que os papangus têm mais de 100 anos. Lula Vassoureiro, o mais conhecido ‘fazedor de máscaras’ do Estado, 70 anos, começou a produzir suas máscaras aos cinco anos. Conta que cobria o rosto com coité (como chamam cuia) e pintava a casca com o sumo da azeitona preta (jamelão), açafrão e folha de fava. Palhas de bananeira enfeitavam a roupa e, nas mãos, os pagangus seguravam um maracá de coco seco com pedra dentro, pra fazer barulho, e que hoje foram substituídas pelas castanholas.

Papa-angu é exatamente o que diz o nome. Foliões mascarados, que costumam usar até luvas para não serem reconhecidos nem por parentes, amanhecem nas casas da vizinhança para curar a ressaca do Sábado de Zé Pereira. Na mesa, reza a tradição,  um bom angu quente e uma xícara de café. Assim, ficavam prontos para recomeçar a bebedeira.

Caiporas de Pesqueira

Não existe criatura mais curiosa no Carnaval de Pernambuco como os Caiporas. Cabeçudos, aparecem até ter inspirado Stephen Hillenburg na criação do simpático Bob Esponja. Sé que o clima não é de praia. Sempre de terno, calças compridas, os foliões Caiporas usam como máscara um saco de estopa pintado, que vai até a cintura.

Quando se pergunta em Pesqueira, terra dos índios Xucurus e de forte relação com a natureza, de onde vem essa tradição carnavalesca, dizem que é mesmo do conhecido caipora que tanto aparece em contos folclóricos, defensor das matas e dos animais. Os primeiros registros dos caiporas, já com o saco de estopa, são de 1962. Contam os mais antigos do lugar que o intuito era assustar  crianças, mas que hoje em dia só quem tem medo são os cachorros da cidade. 

Caretas de Triunfo

Estamos no Sertão de Pernambuco, onde Lampião, Corisco e seus bandos fizeram história e deixaram suas marcas arraigadas também no Carnaval. Talvez os mais luxuosos mascarados do Estado, com roupas em veludo, ornamentação de fitas coloridas e chapéus extravagantemente enfeitados e em formato dos que eram usados no cangaço, os Caretas são sátiros e trazem sempre uma placa nas costas com mensagens ou frases irônicas e críticas. 

Em Triunfo, a 408 quilômetros do Recife, o primeiro Careta foi um tal de ‘Mateus‘, em 1917. Bêbado e certamente com conversas incovenientes, foi barrado de uma festa de Reisado. Chateado, claro, saiu danado da vida e voltou para a festa com uma roupa extravagante, mascarado e com um chocalho.

O protesto chamou atenção e, a partir dali, outros moradores colocaram para fora suas mágoas. Saem geralmente em grupos chamados de ‘trecas’ e, de algumas décadas para cá, também utilizam o reilo, uma espécie de chicote, estalado fortemente do chão que emite um som parecido com um tiro, o que dá aquele susto por onde passam. A ideia, como todos os Caretas, é se tornar 100% irreconhecíveis. Por isso, acrescentam espumas nas calças apertadas para mudar o formato do corpo e mudam a tonalidade da voz. 

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Fotos: foto 1: Fernando Figueroa/foto 2: Beto Figueroa/foto 3: Marcelo Lira/foto 4: Otávio de Souza/foto 5: Ricardo de Souza/foto 6: Ricardo de Souza


Aline Feitosa
Aline é jornalista desde que começou a falar, conta a mãe. Nascida no Rio de Janeiro, mudou-se aos 15 anos para Olinda, Pernambuco, carregando até hoje e com muito orgulho o sotaque da nova e permanente morada. Trabalhou em diversos veículos de comunicação do Recife, com foco em coberturas no meio cultural, assinando no início dos anos 2000, por três anos, a coluna Uma pitada de Tudo, no Diario de Pernambuco. Na primeira década como repórter, se debruçou na cultura popular, pesquisando maracatus de baque solto, cavalos-marinhos e tantas outras brincadeiras e brincantes pelo interior do estado. Daí surgiram matérias especiais como A geografia do Coco, finalista na categoria de reportagem cultural no Prêmio Embratel de Jornalismo e, ainda, a publicação A Cambinda do Cumbe, livro de fotografias sobre o maracatu rural mais antigo do Estado. Interessada em positividade e qualidade de vida, criou em 2008 a Trago Boa Notícia, agência de comunicação que desenvolveu trabalhos de consultoria para artistas e importantes projetos de música de Pernambuco, entre eles o Porto Musical e o MIMO Festival, onde contribuiu por dez anos consecutivos. Festeira por natureza, realiza há dois anos, em seu quintal, no bairro do Espinheiro, o projeto de micropolítica intitulado Pequeno Latifúndio, onde convida músicos com trabalho autoral para um sarau e conversas com um público de até 50 pessoas.

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