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Homem morto pela PM ‘faz gol’ dentro de caixão e isso diz muito sobre a violência no Brasil

por: Yuri Ferreira

Uma cena comoveu a internet no dia de hoje. Um vídeo viralizou no Twitter e no Facebook. Nas imagens, um grupo de amigos está jogando futebol, mas um objeto curioso está ao lado da trave do campo de society: um caixão. Um homem em frente ao gol chuta a bola no objeto e a bola vai para o fundo das redes. O gol do defunto é comemorado por todos os presentes.

Confira:

Se a cena parece divertida, em primeiros olhos, ela carrega por trás algo muito mais triste. O homem no caixão é Jardeson Rodrigues Martins, 21 anos. Ele foi assassinado pela Polícia Militar do Estado do Ceará, e, apesar das imagens felizes em seu velório, sua história é muito reveladora.

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Jardeson foi mais um dos jovens periféricos do Brasil assassinados pela Polícia Militar

Jardeson estava andando na rua quando uma viatura da PM cearense começou a atirar em sua direção. Depois de correr, se abaixou no chão e quando se levantou, tomou um tiro na nuca, provando a frieza e crueldade dos PMs.

“Um policial já desceu do carro atirando. Meu filho saiu correndo e conseguiu ir para outra rua. Ficou abaixado, escondido. Quando pensou que a Polícia já tinha passado, se levantou. Foi quando um policial atirou na nuca dele. Me contaram que quando viram que tinham matado, trocaram de viatura e ainda levaram meu filho para a UPA do Pirambu. Só para dizer que tinham socorrido, mas ele já estava morto”, afirmou o pai de Jardeson, Gil, em entrevista ao Diário do Nordeste.

A polícia alegou que o jovem estava armado e fez disparos contra os oficiais. Imagens de redes sociais comprovam que a polícia atirou no homem quando ele estava de costas, conduta completamente repreensível pela corporação (em tese).


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Dados do Atlas da Violência de 2019 reiteram a posição cada vez mais ostensiva da Polícia Militar. Se os assassinatos no geral caíram cerca de 10% no país entre 2017 e 2018, a violência policial aumentou cerca de 17% no Brasil.

A Corregedoria da PM no Ceará afirmou que agiu em legítima defesa e como mostram os casos de violência policial no país, dificilmente haverá investigações ou punidos. É só olhar para o caso dos policiais militares responsáveis pela tragédia de Paraisópolis, que tiveram seus casos arquivados.

Após a morte do menino de apenas 21 anos, a comunidade onde ele foi morto, chamada de Padre Andrade, fez uma passeata contra a violência policial.  A passeata culminaria no campo de Society onde a imagem do último gol de Jardeson foi marcado e homenageado.

Nove pessoas mortas em Paraisópolis e nada 

Em Paraisópolis, nove pessoas foram mortas durante ação da polícia de São Paulo em um tradicional baile funk da região. O crime chocou o país, mas não foi suficiente para a Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo, que anunciou o arquivamento do Inquérito Policial Militar que apurou a conduta dos 31 PMs envolvidos na operação desastrosa na zona sul da cidade.

“Lamentável e inaceitável que a Corregedoria da PM tenha considerado a ação policial em Paraisópolis como lícita. Pode gerar uma verdadeira licença para matar, legitimando novas ações violentas e desastrosas de policiais em bailes que reúnem centenas e milhares de adolescentes nas periferias”, disse ao G1  Ariel de Castro Alves, advogado, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos) e também membro do Grupo Tortura Nunca Mais

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Fotos: Reprodução/Twitter


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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