Matéria Especial Hypeness

Lança-perfume já foi legalizado e teve fábrica em Recife: a história da droga que se tornou símbolo do carnaval

por: Vitor Paiva

Um dos símbolos dos carnavais do passado, o lança-perfume não se tornou inspiração para uma das mais célebres canções de Rita Lee por acaso: entre a diversão e a contravenção, a alegria e o perigo, o lança surgiu como um instrumento de folia e diversão para o carnaval carioca. Tecnicamente o produto possuía a função que o nome literalmente sugere: para que os foliões e folionas lançassem uns nos outros um líquido perfumado contido dentro de uma garrafa pressurizada, como mera brincadeira. Antes de sua função alucinógena ser descoberta e se tornar popular nas festas como uma espécie de droga-símbolo do carnaval, o lança-perfume era um brinquedo inocente, que começou a se popularizar no Rio – e do Rio para todo o Brasil – no início do século passado.

Garrafa de lança-perfume da marca Rhodia, do início do século passado

O produto foi criado pela empresa francesa Rhodia no final do século XIX, e consistia em um solvente a base de cloreto de etila, éter, clorofórmio e diversas essências perfumadas que davam o odor peculiar a cada vidro. Os lanças eram vendidos em tubos de alta pressão, o que permitia que o perfume fosse borrifado – e também que fosse facilmente evaporado e inalado. Inicialmente vinha para o Brasil importado de sua matriz francesa, até que no início do século XX passou a ser fabricado na filial argentina da Rhodia.

Um dos primeiros anúncios do lança que se tem notícia

Em 1904 apareceu pela primeira vez no carnaval carioca, e em 1906 havia se tornado um sucesso – em pouco tempo se faria presente, junto das serpentinas, dos confetes e das fantasias como elemento fundamental dos festejos e bailes de carnaval por todo o Brasil.

Não se sabe ao certo quando o que era um mero e inocente brinquedo começou a ser utilizado como um alterador de consciência, mas não é difícil de supor tal processo – que provavelmente se deu um tanto por acaso. Com os salões lotados e os corações já acelerados de carnaval, o ar tomado pelo vapor dos lanças-perfumes aos poucos ia se transformando em euforia, adrenalina e alterações auditivas e visuais – conforme a substância era absorvida pela mucosa pulmonar, e levada pela corrente sanguínea para todo o corpo. Para descobrir a origem daquela “onda”, somar um mais um e passar a inalar diretamente o jato fino que saia dos vidros há de ter sido questão de instantes – e pronto: os efeitos eram intensos porém passageiros, por isso era comum que se inalasse diversas vezes ao longo da noite, e com isso se enchiam cada vez mais os cofres da Rhodia.

Foliã com um vidro de lança mão, em baile no século passado – quando o uso era permitido

Em meados dos anos 1920, o lança-perfume havia se tornado um símbolo do carnaval – e a maioria o utilizavam como um desinibidor, um combustível social, uma droga propriamente. Com o mercado em franco crescimento, novas marcas começaram a aparecer – Geyser, Meu Coração, Pierrot, Colombina, Nice, e mais. Para conter os constantes acidentes com os recipientes em vidro, em 1927 foi lançado o Rodouro, com embalagem de alumínio dourado – nesse ano, segundo registros, o consumo de lança-perfume alcançou 40 toneladas.

Garrafa do “Rodouro”, de alumínio, para segurança do usuário

Não demorou até que a Rhodia começasse a fabricar o produto no Brasil, sob o nome Rodo, e em Recife uma das maiores fabricas nacionais, a Indústria e Comércio Miranda Souza S.A., lançassem os sucessos Royal e Paris, que tomariam os bailes e festas de carnaval no nordeste.

E como não poderia deixar de ser, eram marchinhas de carnaval que divulgavam principalmente os lanças da Rodo. “Rei Momo agora merece/ Nosso apoio oficial/ Mas a alegria quem tece/ É o bom RODO de metal!”, dizia uma delas, que seguia: “Um perfume suave eu espalho/ Sou distinto, perfeito, não falho/ Sou metal e no chão não estouro/Sou o lança-perfume RODOURO”. No final dos anos 1920, porém, a oposição começa se estabelecer contra os efeitos do lança-perfume, e na própria imprensa as denúncias já podiam ser lidas.  “O éter fantasiado de lança-perfume é sorvido com escândalo pelo carnaval. No vício legalizado, o Brasil consome quarenta toneladas do terrível entorpecente”, diz notícia da época. “Essa quantidade de anestesia daria para abastecer todos os hospitais do mundo”, conclui. Os relatos de vícios, acidentes graves ou mesmo mortes – algumas por enfarto, outras por desmaios seguidas de quedas de alturas ou mesmo janelas – não reduziam o sucesso dos lanças nos carnavais.

Somente em 1961, com Jânio Quadros como presidente do Brasil, que o lança-perfume viria a finalmente ser proibido. Curiosamente a proibição se deu por sugestão do lendário apresentador Flávio Cavalcanti –  conservador e famoso por quebrar os discos de artista que não lhe agradassem em seu programa, Cavalcanti iniciou uma verdadeira campanha moralizadora contra o lança, e Jânio, não menos moralista e polêmico, – e que em seus pouco mais de 7 meses de governo legislou sobre o tamanho das roupas de banho, os trajes das misses e até sessões de hipnotismo – aceitou a sugestão, e decretou que estava proibida “a fabricação, o comércio e o uso do lança-perfume no território nacional”, através do Decreto n º 51.211, de 18 de agosto de 1961.

O apresentador Flávio Cavalcanti

Como se sabe sobre qualquer droga, a proibição não inibe completamente ou de fato seu uso, e o mesmo aconteceu com o lança – que saiu da linha de frente como símbolo do carnaval para se tornar um produto-fetiche, feito qualquer outra droga, utilizado escondido até hoje, ainda que evidentemente em menor quantidade.

Em 1967 a música “Cordão da Saideira”, de Edu Lobo, iria documentar o efeito não só da proibição do lança-perfume sobre o carnaval como metaforicamente da ditadura militar sobre a alegria do país – com versos como “Hoje não tem dança / não tem mais menina de trança / nem cheiro de lança no ar / Hoje não tem frevo / Tem gente que passa com medo / Na praça ninguém pra cantar”. Em 1980, no entanto, o início do fim do regime também seria comemorado com um “Lança-perfume” – dessa vez de Rita Lee e Roberto de Carvalho, que se tornaria imenso sucesso não só no Brasil, como ficaria por dois meses em primeiro lugar na França e ainda chegaria ao Top 10 da Billboard, nos EUA, levando ao mundo o “cheiro de coisa maluca” e os brilhantes versos quase explícitos dessa grande canção.

Apesar da lembrança romântica e do símbolo de uma época no carnaval, vale lembrar que o lança-perfume é hoje considerado uma droga, e que sua inalação acelera os batimentos cardíacos agudamente, e pode destruir células cerebrais e levar o usuário ao desmaio ou mesmo a uma parada cardíaca.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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