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Lucro de R$ 9,7 milhões por mês do tráfico pode explicar existência da Cracolândia

por: Kauê Vieira

A Cracolândia é tão parte da paisagem e história de São Paulo quanto o Masp ou o Theatro Municipal. A área no centro histórico da maior metrópole do Brasil é um verdadeiro abacaxi no colo de políticos que se revezam com promessas vazias sobre a recuperação do local e antes que eu me esqueça, das pessoas. 

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A última tentativa desastrada de fazer alguma coisa partiu do então prefeito (agora governador), João Doria, que chegou a dizer que a Cracolândia como os paulistanos conheciam tinha acabado. 

“A Cracolândia aqui acabou. Não vai voltar mais. Nem a prefeitura permitirá, nem o governo. Essa área será liberada de qualquer circunstância como essa. A partir de hoje, isso é passado”, declarou João Doria depois de uma operação realizada pela polícia militar. 

Doria, ao lado do então governador Alckmin, disse que Cracolândia tinha acabado

Três anos depois ele foi eleito governador, alimenta o sonho de se tornar presidente e a Cracolândia está lá para todo mundo ver. Não acabou. Pelo contrário. A Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostra que o tráfico de drogas arrecada R$ 9,7 milhões por mês com a venda de drogas na área, inclusive com a presença do PCC (Primeiro Comando da Capital). 

“O lucro com o uso de crack na Cracolândia é a ineficiência do estado e consequência do proibicionismo e do capitalismo. Há interesse sim do capitalismo em manter uma parte da população abaixo da linha da pobreza, pois não há como toda população ter o mesmo acesso aos bens e consumo. O Estado falha em manter um sistema corrupto de ilegalidade das substâncias psicoativas. A polícia que combate o tráfico é formada por policiais que fazem parte e alimentam o sistema do tráfico”, diz em entrevista ao Hypeness Tamara Neder Collier, membra do movimento A Craco Resiste. 

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O faturamento mensal do crime organizado com a degradação humana mostra que a crença de que a Cracolândia é um espaço habitado por ‘zumbis’ não está apurada. A pesquisa da Unifesp mostra que mais de 1.600 pessoas, em média, consomem drogas na região que já foi motivo de orgulho para as elites paulistanas. 

A demanda por crack é lucrativa. Ainda de acordo com o estudo os usuários gastam por dia, em média, R$195 reais com a droga. “Existem interesses financeiros na manutenção da população de rua usando crack na região da Luz. A especulação imobiliária e o processo de gentrificação do local acabam por corroborar para a manutenção e crescimento da população vulnerável naquela  região”, opina Tamara. 

Consumo de drogas e desumanização seguem a todo vapor

Bombas de dispersão  

A desumanização é indiscutível nas proximidades do luxuoso e histórico prédio da Sala São Paulo. A situação de ruas na proximidades da Luz, Campos Elíseos e outros bairros da capital paulista causa questionamentos nos mais atentos. Afinal, como o Estado permite que uma tragédia humana aconteça diante dos olhos de todos?

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Pior, como a violência pode ser a única saída? A já citada operação realizada por João Doria foi um completo desastre. Além da política do tiro, porrada e bomba, o agora governador foi criticado pela forma com que tratou a situação. 

Segundo mostrou o The Intercept, entidades como o Conselho Regional de Psicologia, o Conselho Regional de Medicina e o Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas e Álcool apontou uma série de falhas no modelo de internação proposto pela gestão do PSDB. 

A bomba ainda é adotada como política para a Cracolândia

A condução de pessoas aos centros médicos sem detalhes sobre o tratamento ou a falta de acompanhamento após a alta hospitalar foram alguns dos pontos citados. As denúncias chamaram a atenção do Ministério Público, que pediu para a prefeitura de São Paulo frear as internações. 

“A manutenção da Cracolândia favorece economicamente alguns segmentos, dentre eles os donos de comunidades terapêuticas, que têm ali uma verdadeira indústria de internações sucessivas de uma população pobre que não possui uma política pública realmente voltada para sua reintegração social. Eles acabam ‘pulando’ da rua para clínica ou pro presídio e depois pra rua de novo, num ciclo vicioso que consolida a situação de uso abusivo e de ruptura com a sociedade”, destaca Tamara, do A Craco Resiste. 

Álcool, raça e a hipocrisia 

Criolo já dava o papo em ‘Vasilhame’: 

‘Fala pra mim qual das três é mais vendida:

Cerveja, maconha ou cocaína?’

O álcool, pra variar, é um dos protagonistas do drama que envolve a Cracolândia. A pesquisa realizada pela Unifesp aponta que, em média, os usuários tiveram o primeiro contato com o álcool por volta dos 11 anos de idade. 

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Tamara, que atua contra a violência policial e pela humanização das pessoas que lá vivem destaca na conversa com o Hypeness que o dinheiro está longe de ser a única moeda de troca para saciar o vício.  

Troca-se cigarro por comida, ou um gole de bebida por um trago de crack. O dinheiro em si como moeda não é a única matéria de troca que possibilita o uso de crack ou de outras substâncias. Mas, o fato de estar localizado numa região central, facilita a população dali a pedir esmola e realizar pequenos serviços em troca de uma quantia de dinheiro. Seja limpar carro no farol, cuidar de carros na rua, descarregar caminhões no mercadão ou já Santa Ifigênia, ou pedir dinheiro na porta do metrô.

Usuários são tratados como criminosos pelo Estado

Como acontece de praxe na sociedade racista que conta a história escravocrata do Brasil, os negros são os mais vulneráveis. Cerca de 30% das pessoas que vagam sem rumo nas alamedas da região central têm a pele preta. Outros 45% são formados por pardos enquanto os brancos respondem por pouco mais de 20%. 

“A cracolândia tem recorte social, sim. A cracolândia tem recorte racial, sim. A cracolândia tem cor. É preta. E é pobre e periférica. 60% das pessoas que estão ali são egressos do sistema prisional”, diz em entrevista à Ponte a vereadora Patrícia Bezerra (PSDB), ex-secretária municipal de Direitos Humanos da gestão Doria. 

A hipocrisia se dá pela forma com que a sociedade encara o álcool e as outras drogas. A facilidade de acessar bebidas como cerveja, por exemplo, infla a quantidade de pessoas que habitam a Cracolândia, como pontua a Universidade Federal de São Paulo. 

“O álcool é o verdadeiro problema de saúde pública em termos de uso de drogas, mas a causa disso não é sua legalidade. Há uma associação entre álcool e crack, ou álcool e cocaína que agrava muito a situação dos moradores de rua e dos usuários de crack da região central”

Portanto, o fato de que 95% dos usuários possui alguma instrução e 78% moravam numa casa ‘estruturada’, dá ideia do potencial destrutivo do álcool. 

“A situação de abandono dos laços familiares se dá pela questão da ilegalidade e do tabu em torno do uso de crack. Outro fator importante é a crescente crise estrutural que a sociedade capitalista vive hoje. No momento de crise econômica, ter uma formação já não garante uma boa inclusão no mercado de trabalho. Há uma crescente pauperização da classe média e perda do poder aquisitivo dessa população. Consequentemente, a população de jovens dessa camada populacional têm tido cada vez menos perspectiva de inserção no mercado profissional”, analisa Tamara. 

Ela completa dizendo que “o estigma social em torno do usuário de crack é muito grande. As famílias acabam por reproduzir esses estigmas dentro de suas relações e tratam o problema do crack como um problema do indivíduo e não da sociedade como um todo”.

Tamara Neder Collier, do movimento A Craco Resiste, enxerga o álcool como o grande vilão da história. Ela critica a política proibicionista que conta a história do Brasil. 

“A política proibicionista considera que o mundo deveria banir todos os psicoativos, não trabalha numa perspectiva de educação em saúde para aqueles que optam por usar alguma substância, e quando eles se desequilibram nesse uso, acabam banidos do convívio social”.

A membra do A Craco Resiste insiste que problema não é o álcool ser legal, mas a “educação em saúde como política pública. Empresas como AmBev se preocupam mais com seus lucros do que com os riscos a saúde que a venda descontrolada de seu produto podem causar”

O alcoolismo, assim como o uso abusivo de outras substâncias, é transformado em um problema  quando essa substância é vista apenas como uma mercadoria a ser consumida, e seus produtores visam apenas o lucro.  É importante respeitar o uso contextualizado de qualquer substância psicoativa, como parte de uma cultura e com objetivos e limites claros, mesmo que esse objetivo seja a busca pelo prazer e entretenimento.

Nova política 

A gravidade da situação demonstra que não existe mágica, tampouco o papo furado de que ninguém presta ou de salvadores da pátria. A política humanizada é a única forma de acabar com o sofrimento destas pessoas e todos os afetados pela união entre omissão do poder público e o cinismo da sociedade que assiste a banda passar. 

“É preciso uma mudança política, jurídica e social para a Cracolândia deixar de existir. A legalização de todas as drogas, a construção de um sistema  jurídico que restaure ao invés de punir e a construção de uma política pública de verdadeira base social são caminhos para a resolução dessa questão. Mas entendemos que tudo isso só será efetivo se tiver como objetivo a superação da sociedade capitalista e a construção de um modelo de sociedade mais igualitária e humano”, analisa Tamara. 

Na Cracolândia não existem apenas dependentes químicos, existem diferentes usuários de diferentes drogas. E esses usuários estabelecem relações diferentes com a droga que escolhem usar. Apenas uma pequena parte das pessoas que estão ali poderiam ser consideradas, em termos médicos, como dependentes químicos. Sem dúvida, a falta de políticas públicas, de trabalho, de lazer e de renda são os grandes responsáveis pelo aumento da população naquele local.

A Seretaria da Segurança pública do Governo do Estado foi procurada, mas não respondeu os contatos desta reportagem. Sua versão será incluída no momento em que for enviada.

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Fotos: foto 1: Rovena Rosa/EBC/foto 2: Allan White/Fotos Públicas/foto 3: Getty Images/foto 4: Getty Images/foto 5: Getty Images/foto 6: Getty Images/


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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