Debate

Uber decide punição de motorista que agrediu passageiras trans

por: Karol Gomes


Melissa Dias precisou gravar o constrangimento que sofreu ao lado de sua amiga, Erika Muniz, em um carro da Uber. As duas foram retiradas à força pelo motorista, que também cancelou a corrida, quando percebeu que se tratavam de transsexuais. O caso ocorreu na Asa Sul, no centro de Brasília, na quinta-feira (6 de fevereiro).

Por meio do vídeo e de denúncia prestada pelas duas, a empresa decidiu banir o motorista e disse em comunicado que “não tolera qualquer forma de discriminação em viagens realizadas em sua plataforma. Em casos dessa natureza, a empresa fica à disposição para colaborar com as autoridades e compartilhar informações sobre os envolvidos, observada a legislação aplicável”.

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Hoje, no dia 06/02/2020, eu e minha amiga sofremos por crime de TRANSFOBIA. O crime aconteceu na Asa Sul, em Brasília – DF, quando solicitamos um motorista no app Uber. Ao entrarmos no carro, simplesmente o motorista olhou pra nossa cara e mandou a gente descer do carro dele, que ele tinha finalizado a corrida e tals. A gente sem entender até então, perguntamos o motivo pelo qual ele não iria levar a gente, e ele disse que não iria levar. Daí, percebemos que era pelo fato de ser trans. Então, começamos a gravar ele e dizer que só sairíamos dali com a polícia. Daí, ele partiu pra agressão. O resto os vídeos falam por si só. Por favor, compartilhem!!! Isso não pode ficar assim. @midianinja @quebrandootabu por favor, nos ajudem a divulgar!!!

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Em entrevista para o site BHAZ, Melissa contou que havia entrado no carro com a amiga e que o motorista havia dito ‘bom dia‘ normalmente. Quando ele olhou para trás e notou que as passageiras eram transexuais, pediu que elas descessem.

“Começamos a perguntar o porquê, não tinha motivo para ele querer expulsar a gente. Ele não conseguia responder, só pedia pra gente sair, e a partir daí já comecei a filmar sem ele perceber, perguntando por que ele estava fazendo isso com a gente”, explicou a vítima.

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Em seguida, quando o motorista desceu do carro e continuou pedindo para elas saírem, as duas avisaram que estavam filmando e que iam chamar a polícia. Foi quando ele tomou o telefone, jogou no chão e tirou as duas do carro à força, as enforcando enquanto gritava “seus bostas, seus viados”, segundo relatos das vítimas.

Infelizmente a jornada de humilhação de Melissa e Erika não havia terminado. Depois que o motorista deixou o local e, quando os policiais chegaram, eles encaminharam as amigas à 1ª Delegacia de Polícia de Brasília enquanto faziam uma ronda para procurar o agressor nas redondezas.

Na gravação, Melissa conseguiu capturar o rosto do agressor, para que a identificação pudesse ser feita pelos policiais.

As mulheres contam que, na delegacia, os policiais que as atenderam fizeram pouco caso da denúncia e não queriam classificar o ato como transfobia. “A mulher que nos atendeu não usava nosso nome social, só o de batismo. Ela também sugeria que a gente tivesse dado motivo para a reação do motorista, perguntando se tínhamos nos beijado na frente dele”, contou Melissa.

Uma amiga das vítimas e ativista do movimento trans foi até a delegacia para ajudá-las. Lá, tentou informar a agente sobre o POP, Procedimento Operacional Padrão, que estabelece parâmetros para crimes de natureza homotransfóbica, que é crime, segundo decisão de 13 de junho de 2019 do Supremo Tribunal Federal (STF) – a pena varia entre um e cinco anos de reclusão, de acordo com a conduta.

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Mesmo depois disso, a policial continuou tipificando o crime como homofobia e dizendo que o motorista pode ter se sentido ameaçado pelas passageiras. Melissa e Erika foram comparadas a moradores de rua para justificar a insegurança ou ameaça que o motorista supostamente sentiu.

Insatisfeitas com o atendimento na delegacia, as mulheres foram levadas pela amiga à DECRIN (Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência), onde foram tratadas pelo nome social e puderam registrar a denúncia como transfobia e agressão.
Assim que os vídeos viralizaram nas redes sociais, membros da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara Legislativa do DF cobraram um posicionamento da Uber. Em nota (leia na íntegra abaixo), a empresa comunicou o banimento do motorista do aplicativo.

Ainda na quinta-feira (6), o Deputado Distrital Fábio Felix (PSOL) recebeu as vítimas em seu gabinete para que fosse registrada uma denúncia na CDH (leia o documento na íntegra aqui).

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Foi vítima de LGBTfobia? Denuncie! Hoje a @meel_dias5 e a @erikamunizx (à esquerda e à direita do Fábio, respectivamente) foram expulsas por um motorista de aplicativo momentos após entrarem no veículo na Asa Sul. Além de filmarem o momento e denunciarem nas redes, elas também registraram um Boletim de Ocorrência na Delegacia e vieram pessoalmente ao Gabinete 24, registrar uma denúncia na Comissão de Direitos Humanos. A Uber entrou em contato conosco informando que o motorista já foi suspenso. Nosso mandato continuará acompanhando o caso e está à disposição da Érika e da Melissa na busca por seus direitos e respeito às suas identidades #TransfobiaNao 📸 @bastosalexandre

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Em uma audiência pública na Câmara Legislativa sobre o combate à homotransfobia no Distrito Federal, nessa sexta-feira (7), Erika e Melissa foram convidadas para dar um depoimento sobre o caso de preconceito sofrido no dia anterior.

U-Áudio

A fim de promover a segurança por meio da tecnologia e incentivar interações adequadas ​​durante as corridas, a Uber lançou, na última segunda-feira, 10 de fevereiro, a ferramenta U-Áudio em 5 cidades brasileiras: Salvador, Campo Grande, São Luís, Sorocaba e Uberlândia. O U-Áudio permitirá que usuários e motoristas parceiros gravem áudios dentro da plataforma durante viagens e usem o arquivo para reportar à Uber qualquer acontecimento em que tenham se sentido desconfortáveis.

A ferramenta pode ser acessada por meio dos recursos de segurança que aparecem no app durante uma viagem. Quando a corrida se encerra ou por meio do histórico de corridas, tanto o usuário quanto o motorista terão a opção de relatar um incidente de segurança e anexar o arquivo de gravação de áudio em apenas alguns toques.

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O áudio permanece criptografado e armazenado diretamente no dispositivo de quem fez a gravação e a Uber só poderá acessá-lo se o motorista ou usuário escolherem compartilhar o arquivo como parte do relato.

Depois disso, o procedimento é enviar o conteúdo para que agentes de atendimento ao cliente da Uber, que irão avaliar o relato do incidente e tomar as medidas apropriadas.

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Fotos: foto 1: Reprodução/foto 2: Getty Images


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