Matéria Especial Hypeness

Zé do Caixão vive! O adeus a José Mojica Marins, o pai do cinema de terror nacional

por: Vitor Paiva

Zé vivia no interior, em um vilarejo profundamente religioso, mas desprezava aqueles que tinham fé: trabalhando como coveiro, gostava de comer carne na sexta-feira santa e tornou-se temido na região como uma figura sinistra que atormentava os moradores a procura de uma mulher para lhe gerar um filho perfeito. Sua onda de terror coloca as pessoas à sua volta em uma espiral de violência sexual e física, morte, mistério e sobrenaturalidade.

Zé do Caixão

Essa é a sinopse do clássico À Meia-Noite Levarei Sua Alma’, filme de 1964 cuja ideia nasceu a partir de um pesadelo de seu diretor e ator principal, e que viria a se tornar sucesso de bilheteria, entre o experimentalismo e o triunfo do trash, entre a precariedade e o domínio do estilo, como o primeiro filme de horror do cinema brasileiro. Junto com ele nascia Zé do Caixão, um dos mais emblemático personagens da cultura brasileira. José Mojica Marins, seu criador,  nasceu em uma sexta-feira 13 de 1936 e faleceu ontem como pai do cinema de terror nacional.

“Estava meio sonolento, entre dormindo e acordado, e foi aí que tudo aconteceu: vi num sonho um vulto me arrastando para um cemitério. Logo ele me deixou em frente a uma lápide, lá havia duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte. As pessoas em casa ficaram bastante assustadas, chamaram até um pai-de-santo por achar que eu estava com o diabo no corpo. Acordei aos berros, e naquele momento decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado”, disse Mojica, sobre o filme, em depoimento.

“O cemitério me deu o nome; completavam a indumentária do Zé a capa preta da macumba e a cartola, que era o símbolo de uma marca de cigarros clássicos”. Zé do Caixão era um personagem complexo e niilista que, mais do que satanista, não respeitava nem deus nem o diabo em seu caminho de sangue e medo. 

Mojica se tornando seu personagem

O filme foi feito com poucos recursos e equipamentos e com somente atores de escolas de teatro – a penúria financeira de Mojica era tamanha que vendeu boa parte de seus direitos por trocados para um dos atores. O erro foi quase tão fatal quanto os hábitos do personagem: o que seria uma produção tosca e histriônica, por sua originalidade e radicalidade se tornou um sucesso, com as filas dobrando os quarteirões por São Paulo, e tornando Zé do Caixão um verdadeiro fenômeno, e Mojica um nome destinado à historia do cinema brasileiro.

“Você terá nervos para assistir até o fim este filme de horror?”, perguntava o pôster

Utilizando a criatividade para tornar um baixo orçamento em um filme singular e original, o diretor conquistou a admiração dos maiores nomes do cinema nacional – Glauber Rocha, Luiz Sergio Person e Claudio Reichenbach eram admiradores confessos do trabalho de Mojica, assim como se tornaria o diretor estadunidense Tim Burton, uma espécie de seguidor hollywoodiano dos passos do diretor brasileiro.

“Seus filmes ficaram na minha mente, como se fossem pesadelos. Mas bons pesadelos”, afirmou Burton, em um encontro entre os dois cineastas em 2015, em São Paulo – no qual Burton se disse ‘honrado’ em conhecer o nome por trás da obra que há tanto admirava.

Mojica “assustando” Tim Burton

Nos EUA a filmografia de Mojica seria descoberta e celebrada a partir dos anos 1990, onde Zé do Caixão ficaria conhecido como Coffin’ Joe.

Pôster de ‘Coffin Joe’ nos EUA

‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’ foi a estreia de Zé do Caixão mas não de Mojica no cinema, que já havia dirigido filmes de faroeste sem maiores destaques. Depois de seu primeiro passo no horror veio ‘Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver’, segunda parte do que estava planejado para ser uma trilogia. O personagem era de tal forma emblemático e assustador, com suas unhas imensas e seu jeito inconfundível de falar que, nos anos 1960, Mojica foi considerado uma das pessoas mais famosas do Brasil – não é por acaso que, após sua morte, o ator Matheus Nachtergaele, que o interpretou na série ‘Zé do Caixão‘, disse que o icônico personagem é uma espécie de versão brasileira (e aterrorizante) de Carlitos, de Charlie Chaplin.

O cantor Roberto Carlos assombrado por Mojica

O radicalismo de Mojica não se restringia às soluções cinematográficas – como quando, por falta de dinheiro, filmou o inferno não como um local tomado de chamas, mas sim um buraco gelado, no qual a neve era feita através de pipocas lançadas contra ventiladores – mas também nas temáticas abordadas sem pudor. Sexo, uso de drogas, violências e rituais macabros, nada era limite para Zé do Caixão que, no Brasil da ditadura militar, seria censurado, recolhido e perseguido – o que a levaria à pobreza e ao mundo das pornochanchadas.  Sua trilogia só viria a ser concluída de fato em 2008, com ‘Encarnação do Demônio’ e, ao todo, foram mais de 40 filmes ao longo de 83 anos de vida e 66 anos de carreira.

Cena de ‘Encarnação do Demônio’, de 2008

Em 2016, ‘À Meia-Noite Levarei Sua Alma’ foi eleito pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como o 46º melhor filme da história do cinema brasileiro – ‘Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver’ ficou em 90º lugar na mesma lista. 

Cena do filme ‘O Profeta da Fome’, de 1971

Diante da notícia da partida de Mojica, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho não mediu palavras para mensurar a importância da obra do maior criador do terror nacional. “José Mojica Marins é um dos maiores artistas que esse país já viu, mesma estatura de João Cabral de Melo Neto, Glauber Rocha e Tom Jobim”, escreveu o diretor de ‘Bacurau’. “Eu o amo. Para sempre na memória. Bjs, KMF”, concluiu Kleber, em sua conta no Instagram.

Acima, À Meia-Noite Levarei Sua Alma na íntegra

Gostar ou não gostar da filmografia de Mojica é, em verdade, o que menos importa: como no caso da maioria dos filmes ou mesmo obras de arte, para muito além de nosso gosto pessoal seu sentido se encontra com muito mais força no que pode provocar enquanto debate, reflexão, ruptura, frescor, sentimentalidade, mesmo – ou, nesse caso, principalmente – que o sentimento seja de repulsa e medo. Pois o fato é que Mojica fez de tudo dentro do cinema brasileiro, do refino ao lixo, sempre com estilo inquestionável, como um dos últimos representantes do cinema independente de fato, da Boca do Lixo, dos que traziam a arte de filmar como mote para uma vida – e morte como vida.

Criador e criatura

José Mojica Marins faleceu vítima de uma broncopneumonia no último dia 19 de fevereiro, mas nem seu trabalho como diretor nem Zé do Caixão jamais serão esquecidos na banalidade da morte carnal – serão, sim, imortais através da morte que tornaram estética, como marca de uma vida dedica ao cinema, ao terror, ao medo, ao entretenimento.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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