Reportagem Hypeness

A comissão que reuniu mulheres de 50 blocos e fortaleceu a voz feminina no Carnaval 2020

por: Gabriela Rassy

Neste mês em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher, reforçamos como a atuação delas nas mais diversas áreas ganha com a união e o levantamento de debates sobre a segurança e a liberdade das mulheres. Muitas campanhas e projetos foram criados antes do Carnaval para colocar mais do que o bloco, mas as discussões na rua para a garantia de um espaço que seja de fato de todxs.

A Comissão Feminina do Carnaval de Rua surgiu em agosto de 2019, unindo representantes de 50 blocos ativos na cidade de São Paulo. Elas se juntaram especialmente para ampliar a representatividade das mulheres nas discussões e decisões relacionadas à maior festa de rua da cidade.

“Juntamos aquilo que acreditamos que era importante e primordial, como estrutura para os blocos de maneira geral e o que podia ser melhorado para o Carnaval de 2020, com base na experiência de cada uma relacionada às demandas femininas como campanhas e alertas para a segurança de todas. Foi um processo de aprendizado muito rico”

Thais Haliski, uma das fundadoras da comissão e integrante dos blocos Confraria do Pasmado e Cerca Frango.

Fica muito clara a importância desses debates quando pensamos nos altíssimos índices de violência contra a mulher no Brasil. Para se ter uma ideia, as denúncias de tentativa de feminicídio registrados pelo Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, cresceram 425% no primeiro semestre de 2019 em comparação com o mesmo período de 2018. Foi um salto de 512 denúncias para 2.688. As informações foram obtidas pelo Fiquem Sabendo por meio da Lei de Acesso à Informação.

Mais um fator chama atenção nesses números: os meses de dezembro e janeiro são os que mais tiveram denúncias. Meses de férias, festas, verão. Assim, ainda que não vinculado diretamente ao Carnaval, é um período em que devemos ficar mais alertas. Em 2019, o Rio de Janeiro assumiu o topo do ranking, com 9.061 registros e São Paulo ficou em segundo lugar, com 8.408 denúncias.

Em 2020, 865 blocos de rua cadastrados desfilaram em todas as regiões da cidade de São Paulo. Pensando sobre segurança, combate ao assédio, comunicação e redução de danos, a Comissão Feminina do Carnaval de Rua levou ao poder público todas as necessidades das mulheres carnavalescas para que elas se tornassem ações efetivas.

Assim, foram criados grupos de trabalho para formar e agendar reuniões com as secretarias responsáveis para tratar principalmente de Segurança Pública, Assédio, Direitos Humanos e Comunicação. Além disso, foram abordadas questões especificamente relacionada às mulheres negras dentro e fora da comissão.

Avanços e barreiras

Neste primeiro ano, a comissão está aprendendo e fazendo ao mesmo tempo. Acredito que se criou uma rede maior de comunicação entre os blocos e membros dessas organizações, sejam mulheres ou homens. A maioria entendeu que esse tipo de iniciativa precisa existir para melhoria não só da organização do Carnaval, mas de comunicação dos blocos com seus foliões”, comenta Thais.

Ela percebeu a mudança em muitos blocos que decidiram mandar recados, alertar sobre situações de segurança, assédio e localização de banheiros antes de seus desfiles. “Acredito que essa mudança foi bem significativa”, avalia. “Nas ruas, as pessoas apoiavam e entendiam a necessidade dessas solicitações, principalmente o direito da mulher ir e vir para curtir o Carnaval com respeito e segurança”, completa Inara Mel, empreendedora, cantora, jornalista e idealizadora do Bloco Belas & Empreendedoras.

A maior barreira para que as demandas fossem de fato convertidas em ações foi na participação mais efetiva do poder público. “Até certo ponto, eles pareciam estar dispostos a ouvir e construir soluções em conjunto, mas a troca de algumas pessoas na gestão do Carnaval ao longo de dezembro de 2019 até o evento em si, fez essa ponte se perder”, relata Thais.

A partir desse momento, a comissão perdeu a interlocução e as informações não eram mais enviadas com tempo suficiente para que elas se organizassem para comparecer às reuniões e pensassem nas falhas que já estavam aparentes ou mesmo em assuntos práticos como a falta de licitação de banheiros químicos às vésperas do evento e a falta de informações sobre locais onde as tendas de atendimentos multidisciplinar estariam localizadas.

“O que podemos dizer é que boa parte do trabalho foi ignorado. Não fomos atendidas na maior parte das demandas e acabamos saindo desse processo bem frustradas. Fazendo um balanço geral, podemos dizer que algumas coisas melhoraram como o aumento do número de postos de atendimento para mulher, mas não tínhamos a informação de onde eles estariam e nem como funcionariam”, explica. “Faltou comunicação na reta final. Acredito que o poder público precisa entender melhor como fazer interlocução com os blocos de rua”.

Mulheres negras no Carnaval

A partir de uma série de discussões, a comissão entendeu que criar espaço para mulheres negras seria muito importante e necessário. Foi feito um chamamento nas 5 regiões de São Paulo durante os seminários oferecidos pela prefeitura para comunicar todas as mulheres que fizessem parte do Carnaval, do centro até as periferias.

Em novembro de 2019, aconteceu o encontro “Pensando o espaço da mulheres negras no Carnaval” onde apenas mulheres negras fizeram parte da mesa e debateram pontos importantíssimos dentro do recorte racial.

“Eu sempre participo de eventos do movimento negro e nunca tinha ido em um com mulheres negras discutindo a mulher negra no Carnaval. Desde a mediação da Bianca Santana, que é estudiosa e escritora incrível até as musas das escolas de samba falando sobre a substituição das meninas das comunidades por celebridades. Foi um dos eventos mais incríveis que eu já fui em termos de nível de discussão e de pluralidade das experiências nos últimos tempos”.

Christiane Silva Pinto, criadora do AfroGooglers, comitê de igualdade racial do Google Brasil, e integrante dos blocos Vaca Profana e Cerca Frango.

Para Lillian Bragança, fundadora do Coletivo Samba Quilomba, a mulher preta vem perdendo espaço. “Dentro da perspectiva da escola de samba, a gente vê que a mulher preta não tem mais lugar. O reflexo está principalmente nos enredos que falam da mulher preta, dos orixás e resgatam a cultura preta, mas não colocam a mulher preta no seu protagonismo”, relata.

Ela nota ainda o mesmo problema nos blocos de rua, não só com relação às mulheres pretas, mas também com as indígenas. “A mulher negra não tem seu no espaço nos blocos, também muito por conta do poder aquisitivo. A gente precisa trabalhar em cima disso porque a questão ainda é a estrutura da pirâmide social que apaga essas mulheres e as retiraram desses espaços”, explica Lilian.

“O Carnaval de rua cresceu, a estrutura cresceu, mas a visão e a presença do negro dentro dos eventos ainda é marginalizada. Ainda é vista como algo que veio pra incomodar”, afirma. “Nós percebemos hoje o embranquecimento das escolas de samba no Estado de São Paulo. Poucas agremiações têm presidentes e diretores negros e foram eles que fundaram a maioria das escolas”

Bell Xavier, fundadora do Bloco Carnavalesco Nega Fulô

O futuro da comissão

A comissão está programando ainda para março uma reunião de balanço geral das atividades desenvolvidas e pensar em um calendário para o ano. “Já estamos em contato com pessoas de outros estados para unir forças para aprender e trocar experiências com outros locais, assim podemos desenvolver estratégias mais eficientes para conseguir organizar melhor o Carnaval e campanhas necessárias para esse período”, aponta Thais Haliski.

Para Christiane, o papel da da Comissão daqui pra frente deveria ser também continuar fomentando as discussões sobre educação para gerar ações efetivas. “A comissão poderia continuar servindo como ponte entre essas diversas mulheres no Carnaval e proativamente criar essas conexões, pontos de educação e de troca para que a gente possa se educar, se escutar e conseguir levar mais vozes para dentro das demandas que são trocadas depois com a Prefeitura”.

Leia também:

Dia Internacional da Mulher: o movimento do ponto de vista de mulheres negras

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Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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