Debate

A história pouco contada dos campos de concentração da seca no Nordeste 

por: Vitor Paiva

Se a maioria das páginas da história da humanidade vem ensopada de sangue, poucos capítulos se comparam ao horror dos campos de concentração nazistas. O ser humano, no entanto, jamais economizou em maldade, e antes do III Reich alemão outros países já haviam utilizado o método dos campos de concentração para o aprisionamento de grupos étnicos ou populações. Os EUA, depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941, quando viu surgir uma onda de temor e ódio contra sua população oriental, decidiu por utilizar métodos similares aos do inimigo: entre 1942 e 1948, mais de 120 mil pessoas de etnia japonesa foram aprisionados em campos dentro do país.

E isso também aconteceu no Brasil, com requintes de crueldade e preconceito singulares: os “currais do governo” foram campos de concentração e trabalho forçado que aprisionaram as vítimas da seca e isolaram famílias de agricultores no Ceará em dois períodos, nos anos de 1915 e 1932, para evitar a migração em massa à capital do estado. No lugar de combater o horror da seca na região, e de trabalhar para levar água e salvação para tais populações cearenses, os governantes da época, em um duplo horror, decidiram por isolar as pessoas, que só desejavam fugir da seca para fugir da morte.

É justo dizer que nem os campos japoneses nos EUA nem os campos nordestinos eram máquinas diretas de extermínio como a experiência nazista, e essa é uma diferença fundamental: mas o desejo de isolar uma parte da população vista como inferior e um problema social era similar. Por aqui os locais eram anunciados como acampamentos de proteção às famílias, mas em verdade serviam como métodos de aprisionamento das populações, noticiados como “flagelados”. Segundo jornais da época, eram acampamentos que amontoavam famílias em condições sub-humanas, com pouca comida e menos ainda higiene e cercado de guardas.

Duas notícias da época sobre os flagelados e os campos

O temor da migração vinha, como símbolo da desigualdade social e do preconceito brasileiro, desde a seca de 1877, quando mais de 100 mil camponeses, carregando fome e sede, triplicaram a população de Fortaleza atrás de nada além do que a própria sobrevivência. No contexto da seca de 1915 – que inspirou a autora Rachel de Queiroz a escrever a obra O Quinze – foi criado o primeiro dos campos de concentração, no Alagadiço, a oeste de Fortaleza. Por lá cerca de 8 mil pessoas foram aprisionadas, e o texto de Queiroz oferece a dimensão das condições em que viviam: no livro os campos são descritos como um “atravancamento de gente imunda, de latas velhas e trapos sujos”. O ajuntamento durou até dezembro daquele ano.

Os flagelados na estação de Iguatú, fugindo da seca, em 1877 © Abner Ismael Bento

em Fortaleza, os que fugiram da fome chegando na cidade em 1877

Em 1932 o cenário era agravado: além dos efeitos inclementes de  estiagem ainda mais rigorosa, as ações de Lampião e seu bando de cangaceiros na região, assim como a poderosa influência social e política que Padre Cícero seguia possuindo, arrebanhando os sertanejos em multidão, tornava o contexto mais tenso e complexo. Novamente os “currais” foram implementados como solução para combater a migração –  e dessa vez não um, mas sete campos, construídos próximos às linhas férreas, para que pudessem capturar os “flagelados” nos trens por onde tentavam fugir. A promessa era de trabalho, principalmente para a Companhia Inglesa Norton Griffiths & Company na construção de uma barragem –  mas negar não era uma opção.

As vítimas da seca em 1932

Comiam punhados de comida oferecidos pela janela de um prédio administrativo, não ganhavam dinheiro algum e viviam em barracas pequenas e sujas. Vestiam-se com sacos de farinha, os cabelos eram raspados e morriam aos montes – de fome, sede, estafa ou doença. Com também um ano de duração, os currais de Alagadiço, Pirambu, Crato, Cariús, Ipu, Quixadá, Quixeramobim e Senador Pompeu receberam 90 mil pessoas, e viram mais de 1000 dessas pessoas morrerem, até que em 1933 a chuva finalmente voltou a cair sobre o sertão.

Os prisioneiros nos campos de concentração de 1932 no Ceará – acima em Ipú © arquivo Professor Mello

Hoje, à beira das antigas ferrovias, seguem de pé os restos dos prédios de onde guardas faziam o controle dos campos, da administração e armazéns na cidade de Senador Pompeu. Trata-se de um verdadeiro símbolo, atualmente tombado pelo Patrimônio Histórico, do descaso e do horror que tanto marcam a história do Brasil – e o próprio pouco que se fala sobre esse capítulo é também emblema de tal tragédia.

Os restos das construções do curral do governo de Senador Pompeu © Henrique Kardozo

Que não é, no entanto, totalmente apagada: o documentário Currais, de Sabina Colares e David Aguiar, conta essa história, e desde 1982 que anualmente, em Senador Pompeu, acontece a Caminhada da Seca ou Caminhada das Almas, lembrando os mortos de 1932 e homenageando as vítimas dos campos de concentração.

A caminhada termina no Cemitério da Barragem, onde os mortos foram enterrados. Ao redor de uma cruz, garrafas de água são oferecidas em memória dos que passaram sede, fome e dor, e sofreram no passado por males que ainda hoje o Brasil insiste em não encerrar.

O Cemitério da Barragem, em Senador Pompeu © Henrique Kardozo

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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