Arte

Autora de série sobre Marielle na Globo se desculpa após acusação de racismo: ‘Frase estúpida’

por: Karol Gomes

Questionada sobre a escolha de José Padilha para dirigir a série que contará a história de Marielle Franco, vereadora assassinada em março de 2018, a roteirista e produtora Antonia Pellegrino deu uma declaração muito infeliz (e racista) como resposta.

Em entrevista ao UOL, ela havia afirmado que conversou com muita gente no mercado antes de se decidir por Padilha, que pensou em ter um diretor negro no projeto, mas deu a entender que não achou alguém com as características que procurava.

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“Se tivesse um Spike Lee, uma Ava DuVernay…”, afirmou, citando dois cineastas americanos bem conhecidos e premiados.Horas depois da publicação da entrevista, no domingo (8 de março), ela procurou se explicar pela “frase infeliz”, mas causou ainda mais revolta: “O fato de não haver um Spike Lee no Brasil fala sobre o nosso racismo estrutural, e não sobre supremacia branca. Não tem uma Ava DuVernay no Brasil não porque não existam diretoras negras talentosas. Mas porque existe sim racismo estrutural”.

Nesta quinta (12 de março), ela voltou a se pronunciar sobre a questão, usando o Twitter para, além de pedir desculpas, dizer que considerou justa a indignação causada por sua declaração.

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“Para mim, Antonia, era tão óbvio que eu me referia às relações de negócios viciadas pelo racismo estrutural que não consegui enxergar o que era realmente óbvio: tentei justificar uma relação estratégica de trabalho com um discurso que não apenas reforçava a tal estrutura que eu criticava, como era também a sua principal causa”, ela escreveu em seu perfil.

Ela disse ainda que as críticas que ouviu a ajudaram a compreender o erro que cometeu. “Após o choque inicial, veio a decepção. A decepção comigo mesma. Como eu pude dizer uma frase tão estúpida?”, ela se questionou.

No texto, Antonia reitera a intenção de “ter uma equipe diversa, com negros e mulheres na liderança do processo criativo”. Mas não falou sobre considerar outro diretor para a série, que será exibida no Globoplay. Abaixo, a íntegra da mensagem que Antonia publicou em suas redes sociais:

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“Uma reflexão sobre os fatos ocorridos nos últimos dias.

Quero começar pedindo perdão pela minha declaração. Mesmo pessoas comprometidas com a desconstrução do machismo e do racismo estão sujeitas ao erro, e errar é humano. Confesso que diante da enorme e justa repercussão e indignação que minha declaração tomou, caí em negação. Num primeiro momento, achei que estava sendo mal interpretada. Para mim, Antonia, era tão óbvio que eu me referia às relações de negócios viciadas pelo racismo estrutural que não consegui enxergar o que era realmente óbvio: tentei justificar uma relação estratégica de trabalho com um discurso que não apenas reforçava a tal estrutura que eu criticava, como era também a sua principal causa.

Então começou a pedagogia da escuta e da leitura. De forma enfática, vieram comentários, textos e opiniões de diversas pessoas, militantes ou não, amigas e amigos, pessoas que admiro e respeito e outras que nem sequer conhecia.

Como para muitos brasileiros, os últimos anos provocaram em mim um intenso processo de politização e formação crítica. Foi nesse período que o ativismo se tornou um componente fundamental da minha vida – em particular aquele relacionado à luta feminista. E dentro do feminismo aprendemos a ouvir, pois já vivemos num mundo onde somos constantemente silenciadas. Como mulher, feminista branca, sempre busquei ouvir mulheres feministas negras, com as quais sempre aprendi muito e ainda tenho muitíssimo a aprender.

E foi apenas com o exercício da escuta que pude perceber que, do alto da minha arrogância e ignorância de mulher branca, da Zona Sul do Rio, que eu não precisava “denunciar” algo que todas e todos já sabiam.

Após o choque inicial, veio a decepção. A decepção comigo mesma. Como eu pude dizer uma frase tão estúpida? Hoje, vejo que a resposta é simples: como muitas pessoas brancas progressistas e antirracistas, tive a certeza de que minhas intenções eram tão boas que jamais seriam questionadas neste âmbito.

Novamente, peço perdão pela desastrosa declaração. Em seguida, gostaria de agradecer a todas as pessoas negras, do cinema ou não, coletivos, blogs, movimentos e sites que apontaram meu erro e me fizeram enxergar o que a branquitude não o fez. Também aproveito para dizer que em nenhum momento me senti atacada, pelo contrário. As críticas, por mais pesadas que fossem, tinham um tom respeitoso; não senti raiva, senti vergonha; não me vi perdida, enxerguei nas críticas um caminho.

Este é um projeto que, desde o primeiro momento, é fundamentalmente comprometido com a luta por justiça por Marielle Franco. São dois anos sem resposta para a pergunta: quem mandou matar Marielle? E contar sua saga, na atual conjuntura, dando máxima visibilidade à história desta heroína brasileira e à sua execução brutal é uma forma de manter o apelo social do caso. Entendo e respeito quem discorde, mas este foi meu compromisso com a família de Marielle.

Como produtora executiva e idealizadora da série de Marielle gostaria de reiterar que nossa intenção sempre foi ter uma equipe diversa, com negros e mulheres na liderança do processo criativo.

Os convites para essas lideranças, mapeadas muito antes da assinatura do contrato, estão em curso: autoras, autores, diretoras e diretores estão discutindo as condições de sua participação no projeto. Esperamos ter sucesso na composição de um time diverso, inclusivo e altamente qualificado.

Tenho gratidão por tudo o que aconteceu nos últimos dias. E estou feliz por poder cumprir com a minha obrigação cidadã de levar a história de Marielle ainda mais longe, sendo mais coerente com aquilo que acredito e defendo”.

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Foto: Reprodução / Instagram


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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