Reportagem Hypeness

Brasileira ‘presa’ em Portugal por quarentena: ‘Tenho descoberto que é importante ter rotina’

por: Kauê Vieira

Confinados no noticiário necessário sobre o avanço da pandemia do novo coronavírus por vezes deixamos de lado as histórias individuais de pessoas que são afetadas diretamente pela Covid-19. Desde o final do ano passado, quando a doença surgiu em Wuhan, na China, o mundo está em guerra contra um vírus invisível. Afinal, como parar esta doença que já tirou a vida de pelo menos 34 mil pessoas, deixou mais de 740 mil doentes até o momento e ameaça a estabilidade econômica de centenas de milhares de famílias? 

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O que não faltam são pedidos de ajuda de pessoas presas em aeroportos sem saber quando vão poder voltar para casa. A Europa se tornou o novo epicentro do coronavírus segundo a Organização Mundial da Saúde. O Velho Mundo atravessa situação de calamidade, sobretudo pelo cenário da Itália, que registra número superior aos 97 mil casos e mais de 10 mil mortes e a Espanha, que tem mais de 85 mil pacientes testados positivo e outros 5 mil mortos até a tarde de segunda-feira, 30 de março. 

Portugal está em estado de mitigação e em quarentena total

O espalhamento rápido da doença fez com que a maioria dos países da União Europeia fechassem suas fronteiras terrestres e os aeroportos para diminuir ao máximo a circulação de pessoas. 

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Laiz Chohfi está em Portugal, onde termina o doutorado em filosofia na Universidade de Évora, localizada na região do Alentejo. O Hypeness conversou com ela que precisou adiar a viagem de volta ao Brasil em função do cancelamento de voos ou de preços astronômicos para a realização da travessia atlântica. 

“Eu estou aqui em Lisboa, Portugal, caminhando pro fim da minha segunda semana de quarentena. Mesmo antes de ter sido anunciado o Estado de Emergência aqui em Portugal já havia uma recomendação forte pra que fizéssemos quarentena preventiva. Nas semanas em que ainda saíamos nas ruas as pessoas já andavam mais distantes umas das outras, já não se cumprimentavam com abraços, beijos (ao menos nos ambientes por onde eu circulo)”, relata. 

O país lusitano registra até agora mais de 3 mil pessoas infectadas e 60 mortes pela doença. A Direção-Geral de Saúde (DGS), responsável pela atualização diária dos números informa que 191 pessoas em hospitais e outras 61 em unidades de terapia intensiva. 

“Eu faço doutorado em Filosofia na Universidade de Évora, que fica na região do Alentejo. Lá é onde está concentrada a menor quantidade de casos do coronavírus. Lisboa/Vale do Tejo é a segunda região com mais casos”, explica. 

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Portugal em quarentena por coronavírus

Portugal em quarentena por coronavírus

Laiz, que está morando com uma outra pessoa em um apartamento em Lisboa, ressalta que os primeiros momentos de isolamento social impostos pelo governo federal foram difíceis, sobretudo pela atenção com hábitos aparentemente inocentes, mas que podem levar o vírus para dentro de casa. 

“A primeira semana de quarentena foi bastante caótica. É complexo isso de mudar completamente uma rotina e, mais do que isso, na verdade: agora temos que pensar em determinadas coisas, tipo passar pela porta de casa ou não com os sapatos que usamos na rua, sair de óculos de grau para ir ao mercado ou não…enfim, é cansativo se adaptar, pensar em muitas coisas, pensar se não se está pensando demais…difícil”.

O confinamento tem seus efeitos colaterais, como o medo de sair à rua mesmo que seja para uma atividade vital: comprar comida. O depoimento de Laiz ilustra bem o que muitas pessoas estão sentindo nesse momento. 

As idas ao mercado são sempre um pouco tensas – é só pra isso que eu tenho saído basicamente -, embora a tensão esteja diminuindo. Acho que todo mundo tá um tanto se adaptando então a rua anda mais ‘calma’. O receio de contaminar a casa é tanto, já que agora estamos na fase de mitigação, que é a mais grave, que lavamos tudo que compramos, tomamos banho assim que chegamos…uma série de cuidados outros que nunca tivemos.

A fase de mitigação, que como lembrou Laiz está em curso em Portugal, é o momento de nível mais elevado de contágio. Ela é, digamos, a terceira trincheira para impedir a disseminação do vírus, que nessa altura já está disseminado em todo o país. 

Assusta, não? Bom, para manter a cabeça no lugar ter uma rotina minimamente organizada é fundamental. Luís Oliveira, namorado de Laiz e que está no Brasil, diz que a companheira está “fazendo exercícios em casa, com aulas aqui do Brasil.  Ela voltou a atender mais pessoas, porque é psicóloga, e a demanda aumentou depois do coronavírus”.

Portugal em quarentena por coronavírus

Portugal em quarentena por coronavírus

“Tenho descoberto que é importante ter rotina, ter algo que esteja minimamente no meu controle – já que todo o resto tá bem fora de controle e eu, que sou psicóloga e não bióloga/médica/biomédica/farmacêutica, pouco posso fazer pra descobrir a cura, risos”, diz Laiz Chofi, que completa sobre a rotina de atendimentos. 

“Eu percebo, no entanto, que os meus atendimentos (sigo atendendo online enquanto estou aqui) aumentaram e que não há um atendimento sequer que não passe por esse assunto. Todos falam, querem falar/pensar sobre o coronavírus e como se virar na quarentena, o que fazer, como lidar…”

A FÉ TO 

Já parou para pensar na importância do contato físico? Do amor? Pois é, momentos delicados como estes nos faz refletir sobre quão necessária é a troca afetiva com outras pessoas. 

“Por enquanto eu tô assim: tentando falar com as pessoas mais próximas sempre que posso, tentando lidar com as crises de ansiedade que as vezes aparecem, sabendo que elas fazem parte do momento e que não há muito a ser feito, construindo uma rotina pra preservar a minha saúde mental (o que tem sido mesmo ótimo!) e discutido tudo isso com os meus pacientes e supervisionandos (eu supervisiono recém-formados em sua prática clínica de consultório em psicologia)”.

Portugal em quarenta por coronavírus

Portugal em quarenta por coronavírus

Por fim, Laiz Chohfi chama atenção para que as pessoas parem de disseminar notícias falsas ou encarar a ameaça, que é séria, como algo banal. A psicóloga ressalta ainda o quão importante é o controle da mente para não entrar em parafuso em tempos tão desafiadores. 

“Outro ponto importante de adaptação que tá sendo importante é o controle do uso das informações todas que estão disponíveis sobre o coronavírus, todas as análises, pronunciamentos de políticos… Se te faz mal ler/ver/ouvir, não é bom fazê-lo. Controlar a entrada de informações tem sido muito importante também pra que eu as utilize, e não elas que me devorem”.

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Fotos: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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