Debate

Comentarista da CNN se demite de programa por ser interrompida por homens e desabafa

por: Karol Gomes


Você deve ter visto este rosto na sua timeline nos últimos dias. A comentarista Gabriela Prioli tem viralizado com seus apontamentos pertinentes sobre o governo Jair Bolsonaro (sem partido) no programa ‘Grande Debate‘ – onde debate ao lado de Tomé Abduch, na recém lançada CNN Brasil. Mas, apesar de estar sempre preparada para as conversas ao vivo – com dados em mãos – ela decidiu pedir demissão da emissora após ter sofrido constrangimento por parte dos colegas de bancada. 

Gabriela Prioli pediu demissão da CNN Brasil após constrangimento ao vivo

Mestre em direito penal pela Universidade de São Paulo e professora na pós-graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Proli ganhou muitos seguidores após participar do programa na CNN, mas um post de desabafo em suas redes sociais e pegou os seguidores de surpresa.  

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Queridos antigos e novos amigos, os últimos dois dias foram de muita reflexão. Não é fácil ser firme no início de um projeto profissional, mas é impossível não me comportar segundo aquilo que eu defendo, apesar das possíveis consequências. Eu digo a vocês, de forma reiterada, para se posicionarem, serem firmes e não cederem diante de comportamentos que vocês considerem inadequados. Se agora, quando a vida demanda isso de mim, eu agisse de outra forma, estaria sendo hipócrita. Em mais de uma oportunidade tive que me posicionar cobrando respeito ao meu espaço de fala. É preciso ser mais contundente. O meu compromisso é com um debate racional, prospectivo, informativo e respeitoso. Não consigo atingir o meu objetivo se for constrangida e não posso seguir participando do debate sem que a convicção sobre a gravidade do constrangimento não seja só minha, mas de todos os envolvidos, na frente e atrás das câmeras. Não posso legitimar que o achismo seja equiparado ao conhecimento científico nem contribuir para acirrar a polarização. Seguirei, por enquanto, dividindo com vocês as minhas análises nas minhas redes e pensando em outras formas para podermos interagir e evoluir com qualidade. Nessas últimas duas semanas o nosso grupo cresceu e isso me traz profunda satisfação. O meu maior prazer é essa troca que tenho com vocês. Fica aqui então o meu muito obrigada. Nos posicionar é a forma que nós temos de conscientizar o mundo daquilo que nós consideramos fundamental. Gabi

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No texto, ela fala sobre a experiência no canal e dificuldade de se fazer ouvida, muito embora havia sido contratada para isso: “Em mais de uma oportunidade tive que me posicionar cobrando respeito ao meu espaço de fala. É preciso ser mais contundente. O meu compromisso é com um debate racional, prospectivo, informativo e respeitoso”.

Muitos dos seguidores de Prioli atribuem o texto, principalmente, a um dos últimos programas que ela participou, onde o mediador do debate, Reinaldo Gottino, que de mediador não teve nada, intrometeu-se na discussão e atacou Prioli diretamente.

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Durante a discussão, Gottino interferiu: “O Tomé Abduch falou sobre a lei, que ele não concorda com a lei, que a juíza cumpriu a lei. Mas ele não concorda com a lei em vigência. O que você pensa sobre a lei? (…) Você acha que essa lei é a correta? Tem que mudar? O que você pensa sobre, como, por exemplo, a lei de execução penal?”.

“Eu não dou opinião pessoal sobre a lei e aqui a gente não está falando sobre lei de execução penal (…). A gente está falando de uma prisão cautelar. Então, não se trata de execução penal, é uma prisão preventiva”, explicou Prioli.

Gottino seguiu argumentando que ela estaria emitindo opiniões, enquanto Gabriela tentava discordar afirmando se tratar de questões técnicas. O tempo todo ela foi interrompida.

Reinaldo Gottino interrompeu diversas vezes a fala de Gabriela Prioli para defender outro comentarista da bancada

Segundo apuração da coluna de Ricardo Feltrin no UOL, Prioli estava farta de ser interrompida e impedida de desenvolver seus argumentos durante as transmissões ao vivo. O comportamento de seus colegas homens no canal a deixava constrangida.

O que Prioli sofreu na CNN Brasil tem nome: manterrupting. A prática sexista de interromper uma mulher enquanto ela está falando, de maneira e desestabilizá-la, descredita-la ou simplesmente como tentativa de silenciá-la. 

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Leia o pronunciamento de Prioli na íntegra: 

“Queridos antigos e novos amigos, os últimos dois dias foram de muita reflexão. Não é fácil ser firme no início de um projeto profissional, mas é impossível não me comportar segundo aquilo que eu defendo, apesar das possíveis consequências. Eu digo a vocês, de forma reiterada, para se posicionarem, serem firmes e não cederem diante de comportamentos que vocês considerem inadequados. Se agora, quando a vida demanda isso de mim, eu agisse de outra forma, estaria sendo hipócrita. Em mais de uma oportunidade tive que me posicionar cobrando respeito ao meu espaço de fala. É preciso ser mais contundente. O meu compromisso é com um debate racional, prospectivo, informativo e respeitoso. Não consigo atingir o meu objetivo se for constrangida e não posso seguir participando do debate sem que a convicção sobre a gravidade do constrangimento não seja só minha, mas de todos os envolvidos, na frente e atrás das câmeras. Não posso legitimar que o achismo seja equiparado ao conhecimento científico nem contribuir para acirrar a polarização. Seguirei, por enquanto, dividindo com vocês as minhas análises nas minhas redes e pensando em outras formas para podermos interagir e evoluir com qualidade. Nessas últimas duas semanas o nosso grupo cresceu e isso me traz profunda satisfação. O meu maior prazer é essa troca que tenho com vocês. Fica aqui então o meu muito obrigada. Nos posicionar é a forma que nós temos de conscientizar o mundo daquilo que nós consideramos fundamental”

Mas parece que a saída da advogada acabou assustando os líderes da emissora, que não querem perder a audiência trazida por ela. A CNN Brasil confirmou recentemente a saída de Prioli do ‘Grande Debate‘, mas logo em seguida informou que está negociando uma nova participação ou atração para que a especialista permaneça na casa. A emissora, contudo, não se pronunciou sobre o comportamento se seus empregados homens para com Prioli. 

Reinaldo Gottino também pediu desculpas nas redes sociais para Prioli:

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Venho, por meio desta nota, deixar aqui a minha tristeza e a minha consternação com tudo que aconteceu nas últimas horas. E um pedido de desculpas! Peço publicamente desculpas à Gabriela Prioli por ter sido incisivo no meu questionamento na última sexta. Perguntei se ela entendia que a lei era branda e deveria ser mudada. Me exaltei e a interrompi. Errei. Esse pedido de desculpas, que faço aqui, eu já tinha enviado a ela, antes da publicação feita por ela nas redes sociais. Admiro a Gabriela, tínhamos uma ótima relação e fico muito triste, porque eu não imaginava esse desdobramento. Conversamos na sexta depois do programa, falamos até do que deveria mudar, para termos um programa melhor. Estendo meu pedido de desculpas a todos que se sentiram ofendidos. Tenho mais de 20 anos de jornalismo, e quem me conhece sabe da minha índole, do meu caráter e dos meus posicionamentos sobre opinião, pluralidade e respeito ao lugar de voz das mulheres. Errei, reconheço meu erro, peço perdão e lamento muito. Reinaldo Gottino

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Fotos: Reprodução / CNN Brasil


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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