Matéria Especial Hypeness

Como o coronavírus está transformando as relações humanas

por: Vitor Paiva

Como um símbolo de confirmação, confiança e amizade entre duas pessoas, o aperto de mãos remonta aos primórdios da humanidade. Trata-se de gestual inconfundível: uma mão espalmada é estendida, apontada na direção da pessoa com quem se quer selar tais sentimentos – que segura de volta a mão ofertada, balançando o encaixe das palmas para cima e para baixo.

Registros do gesto são encontrados em antigos hieróglifos egípcios, mas historiadores garantem que a origem do aperto de mão está nas cavernas do passado, entre os remotos homo sapiens: era uma maneira de mostrar ao interlocutor que não se estava carregando nenhuma arma – já como um símbolo de boa vontade. Os apertos de mão aparecem diversas vezes, por exemplo, na “Ilíada” e “Odisseia” do poeta grego Homero, escritos por volta do século VIII a.C., e já eram usados como uma forma de acordo entre duas partes desde então.

Rei Assírio Shalmaneser III, que viveu entre 885-819 a.C., em um aperto de mão com o rei Marduk-zakir-shumi I, da Babilônia, em tablado de pedra de um trono do século IX a.C – em um dos mais antigos registros do gesto

Em suma, a cultura e as circunstâncias pautam o surgimento dos gestos que depois se tornam tão familiares que é como se fossem naturais, feito respirar ou caminhar – e, num salto de alguns bons milhares de anos, a atual epidemia do coronavírus pode estar não só tornando o aperto de mãos obsoleto, como fazendo nascer novos códigos e cumprimentos, alterando a maneira com que diretamente nos relacionamos. No lugar do apertar das palmas, entram em cena saudações tocando os pés, os cotovelos, ou mesmo somente com acenos ou gestos ao longe – sem que as mãos se encostem.

Com o avanço da epidemia, além da recomendação de se lavar as mãos por 20 segundos, alguns hábitos costumeiros e calorosos passam a ter de ser evitados. As mãos, afinal, podem carregar restos de tudo que tocamos entre uma e outra lavagem – inclusive o vírus. Evitar encostar uma mão em outra passou a ser recomendação da Organização Mundial de Saúde, mas nem por isso devemos perder as boas maneiras e as demonstrações de afeto e felicidade ao encontrar alguém.

Acima, o cumprimento de pés; abaixo, o toque de cotovelos

Crédito: Liu Xiao/Xinhau/Getty Images

Pois uma turbulência de tal forma global e ameaçadora como o coronavírus pode deixar marcas culturais profundas, e até alterar nossas noções de etiqueta. Quando recentemente o ministro do interior alemão, Horst Seehofer, deixou Angela Merkel “no vácuo” ao se recusar apertar sua mão, o que seria considerado rudeza imperdoável em um passado próximo foi compreendido com humor pela chanceler alemã, que sorriu e devolveu a recusa com um aceno. Mais do que perdoado, Seehofer estava coberto de razão – e de germes.

Merkel no vácuo do ministro do interior alemão

No Irã o lema “não aperto sua mão porque te amo” já se tornou popular, e, no Líbano, o cumprimento tocando os pés também vem ganhando o gosto do povo. Mas as mudanças de hábito podem ser ainda mais profundas. Por aqui, o Ministério da Saúde recomenda que os gaúchos, por exemplo, não mais dividam as bombas de metal para tomarem seu chimarrão, e na Holanda a hóstia não pode ser mais dada diretamente pelas mãos dos padres à boca dos fiéis. Na Romênia, para o Dia Internacional da Mulher, foi recomendado que flores substituíssem possíveis beijos, e pelo mundo inteiro, o coronavírus vem transformando a maneira com que nos relacionamos.

À direita, John Magufuli, presidente da Tanzânia, cumprimentando Maalim Seif Sharif Hamad, político da oposição em março desse ano

Os acenos de mãos e cabeças funcionam, assim como o apontar de dedos indicadores ou o sempre eficaz ‘joinha’ com um ou dois dedões levantados, mas esses sinais podem parecer pouco, dependendo do afeto que se queira demonstrar. Para quem usa chapéu, o toque na aba é elegante e gentil, porém raro; já uma rápida dança é capaz de demonstrar alegria efusiva em um encontro, mas não funciona para os tímidos. E se o toque de pés pode ser excessivamente exótico, o toque de cotovelos parece que veio mesmo para ficar – pessoalmente é o meu preferido.

É claro que uma vida sem toque, sem beijo, sem abraço, vivida platonicamente à distância é uma vida muito pior – mas, enquanto o vírus não é devidamente desvendado, controlado, vacinado e, quem sabe, erradicado, o melhor mesmo é evitar o aperto de mão. Talvez no futuro nossos tataranetos olharão para esse momento presente, que já será então passado e encerrado, com especial curiosidade sobre nosso exótico e imprudente hábito de nos cumprimentarmos apertando nossas mãos. Tomara que não, mas até lá talvez o toque de pés ou de cotovelos se torne o mais caloroso e afetuoso símbolo de amizade e confiança – a cultura e as circunstâncias, afinal, são capazes de transformar tudo.

Crédito: The White House courtesy – divulgação

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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