Matéria Especial Hypeness

Como Singapura, Taiwan, Coréia do Sul e Hong Kong conseguiram controlar o coronavírus

por: Vitor Paiva

O coronavirus ou Covid-19 segue se espalhando em velocidade intensa pelo mundo, e agora o principal centro da pandemia global deixou de ser a China e se tornou a Europa. Exemplos do que não fazer é o que não faltam: o descaso do governo italiano e da própria população nos primeiros momentos da contaminação levaram o país ao caos hospitalar e a números assombrosos: já são, por lá, quase 28 mil pessoas contaminadas, com 2.158 fatalidades até o dia 17 de março – 368 mortes somente no domingo do dia 15. O país agora se encontra em quarentena absoluta, mas esses números poderiam ser consideravelmente menores se os cuidados corretos e rigorosos tivessem sido tomados rapidamente – mais ou menos no exato momento em que estamos vivendo aqui no Brasil.

Jovem em aeroporto de Singapura © ROSLAN RAHMAN—AFP/Getty Images

Pois não precisamos ir até o outro lado do oceano para coletar péssimos exemplos: o que o presidente Bolsonaro fez no último domingo, ao sair de seu isolamento para apertar as mãos e abraçar manifestantes (que não deviam estar aglomerados em pequenas multidões de todo modo) foi gesto de irresponsabilidade catastrófica, especialmente para quem deveria se portar como um líder – e mais grave ainda, considerando que 13 pessoas da comitiva do presidente que foi aos EUA já confirmaram estarem infectados com o Covid-19. Há, no entanto, apesar desse terrível quadro, de onde tirarmos bons exemplos: A China, de onde saiu o vírus, vem reduzindo os casos e, até aqui, Taiwan, Singapura e Hong Kong têm conseguido conter e controlar a contaminação desde seu início.

Agente de saúde em Hong Kong © Tyrone Siu/Reuters

Até o fechamento desta reportagem, Taiwan apresentava 67 casos confirmados de para uma população de 23,6 milhões de pessoas, com 1 morte – 22 casos, no entanto, estão curados, e o restante apresenta quadro estável. Já Singapura confirmou 243 casos para uma população de 5,7 milhões de pessoas, mas sem nenhuma morte – com 109 infectados já dispensados de hospitais. O caso mais impressionante, porém, parece mesmo ser o de Hong Kong, especialmente se consideramos se tratar de uma região que não só faz fronteira com a China, como tecnicamente é parte do país – como uma região administrativa especial. Cerca de 300 mil pessoas cruzavam diariamente a fronteira entre China e Hong Kong, e por lá foram confirmados 131 casos com 4 mortes para uma população de 7,5 milhões de pessoas.

Hospital Huoshenshan, construído na China entre os dias 23 de janeiro e 2 de fevereiro © Getty Images

Mesmo na China, apesar dos números ainda trágicos, finalmente as mortes no resto do planeta superaram os casos fatais no país. Há uma curva descendente natural, mas o governo trabalhou intensamente – recorrendo inclusive a métodos não democráticos – e investiu verdadeiras fortunas para começar a contornar o quadro sombrio. Algumas medidas foram draconianas, como recolhimento de informações de smartphones e controle de movimentação da população através de reconhecimento facial. Além disso, no entanto, quarentenas mandatórias de milhões e milhões de pessoas, além da construção de novos hospitais e laboratórios, deslocamento de pacientes por gravidade dos casos e a utilização de espaços públicos como locais para internação fizeram com que o quadro na China se estabilizasse e até começasse finalmente a reduzir. Dois hospitais de emergência foram construídos em 10 dias na região de Wuhan, ocupando uma área de 25 mil metros quadrados e empregando mais de 7 mil pessoas na construção.

O hospital já funcionando © CHINA DAILY / REUTERS

Os três outros locais citados eram, pela proximidade com a China e por serem destinos frequentes para a população chinesa, focos prováveis de alastramento do vírus. Os primeiros casos foram detectados no dia 21 de janeiro em Taiwan, e no dia 23 de janeiro em Hong Kong e Singapura. Imediatamente os três governos determinaram restrições de entrada de viajantes para reduzir a chegada de novos casos, quarentenas para conter a transmissão dentro das comunidades e o incentivo imediato ao isolamento, à distância social e ao rigor higiênico, lavando as mãos e as superfícies que tenham contato com pessoas diversas. Mas cada um dos locais aplicou métodos específicos com resultados singulares.

Em Singapura, além do isolamento imediato de quem apresentava sintomas e vinha de Wuhan, cidade de origem do vírus, ou da China foi seguido do cancelamento de todas as viagens da região para o país. As autoridades criaram uma verdadeira força-tarefa para rastrear cada caso e descobrir as origens e desdobramentos das infecções, utilizando vídeos de aeroportos e das ruas para conhecer de onde vieram e para onde foram cada caso. Grandes concentrações de pessoas foram proibidas, e funcionários que precisavam seguir trabalhando passaram a ter a saúde testada diariamente.

Soldados trabalhando na desinfecção em Taiwan © Sam Yeh/AFP/Getty Images

Em Taiwan, os voos oriundos da China só foram proibidos depois do primeiro caso na ilha, mas desde os primeiros dias as autoridades estabeleceram um imenso esforço para inspecionar cada viajante vindo de áreas de risco. Quarentenas rigorosas foram estabelecidas, com multas milionárias para quem saísse do isolamento sem motivo autorizado. Todo tipo de evento coletivo foi cancelado e as aulas foram suspensas até recentemente em todo o país.

Controle de febre em passageira chegando no aeroporto de Hong Kong © Hannah Mckay/Reuters

Em Hong Kong, único dos locais que faz divisa direta com a China, as medidas tiveram de ser mais imediatas e específicas – começando ainda em 3 de janeiro, poucos dias após o surgimento do vírus em Wuhan. Seis das 14 entradas da China para Hong Kong foram fechadas (outras 5 seriam também fechadas em seguida) e o número de visitantes diários, que antes era de 300 mil, caiu para 750. No início de fevereiro foi estabelecido que qualquer pessoa vinda da China tinha de passar 14 dias em quarentena, e os casos confirmados foram devidamente isolados. Grandes eventos foram cancelados, todo trabalho possível foi transferido para casa, escolas foram fechadas e muitas aulas passaram a ser oferecidas online. Todos os países ofereceram garantias de subsistência para os prejudicados, através de valores diretos ou isenção de imposto.

Soldados desinfetando as ruas de Seul © Ahn Young-joon/AP

Nenhum caso, porém, é mais singular que o da Coréia do Sul: apesar de ser o quarto país com maior número de casos diagnosticados, com 8.320 pessoas contaminadas, o número de óbitos até o dia 17 de março era de 81. Para isso, o país disponibilizou todo seu sistema de saúde, a fim de localizar e diagnosticar o Covid-19. O esforço foi para criar uma rede de diagnóstico, localizar o vírus em seu estágio inicial e reduzir justamente a letalidade. Por lá mais de 10 mil pessoas são monitoradas diariamente e, exatamente ao longo do mesmo período desde o primeiro caso, enquanto os EUA fizeram testes em 4,3 mil pessoas, a Coréia do Sul testou quase 200 mil.

Agentes de saúde em Seul © Ahn Young-joon/AP

Os quatro locais – Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan e Singapura – parecem ter aprendido bastante com o surto de SARS entre 2002 e 2003, quando, por exemplo, só em Hong Kong quase 300 pessoas vieram a falecer. Os quadros ainda são emergenciais em cada local, e muitas medidas terão de ser mantidas provavelmente ainda por alguns meses, e mesmo esses países citados provavelmente enfrentarão novas ondas de contaminação, mas o fato é que os países próximos à China vêm fazendo um bom trabalho em controlar o surto tanto quanto é possível, que segue se espalhando com velocidade.

Em outros locais, como na França, ainda que o cenário seja grave, o presidente Macron vem mostrando como liderar um país em momento tão complicado: além de determinar quarentena total e obrigatória, Macron decidiu por anistiar aluguéis e contas de luz, gás e água, a fim de ajudar a população que terá de ficar em casa. É, afinal, uma situação de guerra – não contra outro país, mas contra um inimigo invisível.

Por aqui o presidente se comporta como parte do problema, e segmentos da população infelizmente ainda seguem o pior exemplo possível, com muitas ruas e estabelecimentos das grandes cidades cheios. Acontece que, mesmo que não se esteja sentindo sintoma algum, o que fazemos agora determina a gravidade do quadro por vir, em um processo necessariamente coletivo: se o presidente não dá o exemplo, que dê o povo. Quanto mais cedo seguirmos as orientações de lavar as mãos sempre e quem puder de não saia de casa – e quem sair, manter distância das outras pessoas sem qualquer toque e sempre lavando as mãos -,  melhor será o quadro futuro, e mais cedo poderemos voltar à vida normal, carregando um aprendizado comunitário ao invés de um cenário de caos.

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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