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Consultório médico: violências que mulheres enfrentam por serem mulheres | #8M

por: Karol Gomes

Uma consulta médica tirou o sono de Malu Lopes – e não foi por causa de um diagnósticoAinda na infância, ela descobriu que tem falta de motilidade intestinal – condição caracterizada por sintomas recorrentes ou crônicos de rapidez ou lentidão no trânsito gastro intestinal. Desde então, passou anos em busca de um médico especializado para resolver o seu problema e lhe garantir mais qualidade de vida

Aos 28 anos, finalmente veio a indicação, por parte do convênio, de um gastroenterologista especializado no problema. “Cheguei a pesquisar sobre ele antes da consulta e encontrei reclamações de comportamento antiprofissional, como atraso em cirurgias e muito mais. Mas eu estava muito ansiosa para essa consulta. Finalmente havia encontrado o médico”, relembra a gerente de projetos em entrevista ao Hypeness. 

Malu, então, se preparou para a consulta, reunindo todos os exames acumulados por anos, históricos médicos, anotações de remédios que tomou para controlar a condição. Mas, dentro do consultório, o médico se mostrou mais interessado em examiná-la fisicamente – algo que ela não estranhou inicialmente. 

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“Ele pediu para eu deitar na maca. Eu estava de vestido e ele teve que levantar para apalpar minha barriga. Até então, não havia ficado incomodada”, descreve. 

Mas, segundo Malu, quando ele pediu para que ela ficasse de pé para mais exames, tudo começou a ficar estranho.

“Ele pediu para eu fechar os olhos para avaliar labirintite. Foi quando ele grudou em mim, literalmente pressionou o corpo o contra mim. Eu sentia a respiração, o cheiro do hálito dele, de tão perto que ele estava”, ela relembra que este padrão durou também no exame com estetoscópio, por o que ela descreve como 10 minutos de tortura, constrangimento e incômodo.

Ao mesmo tempo que estava extremamente incomodada, Malu não queria questionar os método do médico. “Ele deveria ser o médico que mudaria a minha. Eu estava sozinha na consulta e não conseguia entender o que estava acontecendo”.

E tudo piorou na hora de se despedir do especialista. Malu estendeu o braço para um aperto de mão, mas foi puxada para um abraço e um beijo na bochecha forçados.  Depois dessa consulta, a saúde de Malu deixou de ser prioridade em seus pensamentos. Ela não conseguia parar de questionar se havia sido assediada pelo médico.

Quando cheguei em casa, corri para tomar um banho pois eu sentia nojo do toque dele no meu corpo. Mas ao mesmo tempo pensava: porque um médico bem sucedido como ele faria algo assim?

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A fim de insistir no tratamento, Malu fez os exames indicados e marcou o retorno da consulta, mas pediu que a mãe a acompanhasse por segurança. 

“Nessa consulta, descobri que tinha que fazer uma cirurgia que não estava diretamente ligada ao intestino, mas que poderia ajudar a melhorar minha saúde”, relembra. 

A jovem conta ainda que, da parte do médico, não houve nenhum compartimento fora do comum até a hora de ir embora. “Quando minha mãe se despediu e virou as costas, ele me puxou de novo e me agarrou muito forte. Me deu outro beijo”.

Para Malu, a repetição de ‘afeto‘ forçada foi a confirmação de que o médico estava cometendo violência contra ela, que não voltou mais ao consultório para falar sobre a cirurgia e mesmo assim começou a receber ligações dele, que ligava do celular particular. 

Inventei uma desculpa. Disse que não conseguia tirar uma licença do trabalho naquele momento. Mas a verdade é que eu estava com medo de ficar anestesiada, nua, vulnerável, com aquele homem em uma sala de cirurgia – mesmo com uma equipe em volta, nada me garantia que eu estaria segura. Na sala de cirurgia, é ele quem manda

O caso de Malu não é isolado. Uma pesquisa de 2016, conduzida pelo site Catraca Livre com 700 mulheres, mostrou que 374 delas (53%), já haviam sofrido abuso sexual ou moral em consultas médicas, embora todos os casos no estudo foram com ginecologistas

Malu conta que pensou em denunciar seu assediador, mas foi vencida pelo cansaço e pela burocracia. O convênio pediu provas, que ela não tinha. “Sugeriram que eu voltasse para a consulta e gravasse as investidas do médico, mas eu não queria reviver aquele pesadelo de novo”, diz.

A palavra dela contra a dele

A publicitária Gabriela Moura teve uma experiência parecida com a de Malu, mas como mulher negra, ela ainda teve que uma grande dose de racismo por parte do endocrinologista com quem se consultou. 

“Este tipo de violência é tão inacreditável que, quando cai a ficha, já é tarde demais para colher provas ou mesmo se defender”, ela observa –  e faz sentido, já que o consultório médico é um espaço em que, supostamente, os pacientes deveriam se sentir seguros. 

Depois, acaba sendo a palavra da mulher contra a do médico, como destaca Malu. “Também pensei que não valeria a pena denunciar porque, quem seria eu, uma paciente qualquer, uma mulher comum, contra um médico renomado na área dele?”

O que aconteceu com Gabriela é digno de denúncia: ela conta que, no consultório, pediu exames de rotina, físicos e laboratoriais, para investigar alguns sintomas – como excesso de cansaço, perda e ganho de peso sem controle e taquicardia – mas o médico a ignorou e fez perguntas pessoais ao invés de checar o histórico da paciente. 

“Eu contei que trabalhava em uma agência de publicidade e atendia uma marca de cerveja. Ele perguntou se eu passava o dia bebendo. Fui firme e disse ‘não, eu passo o dia trabalhando’”, relata. 

Mas a resposta não foi satisfatória para o especialista, que continuou questionando a aparência e o caráter de Gabriela. “Ele queria saber como me aceitaram no ambiente de trabalho com a minha aparência, sendo trançada, tatuada… Depois ele se levantou, pegou no meu cabelo e disse que era diferente, estranho, mas que gostava”, relembra a publicitária. 

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Depois de uma conversa desrespeitosa e invasiva, Gabriela saiu do escritório com a amostra grátis de um remédio, sem uma prescrição, tampouco uma explicação técnica do médica sobre os efeitos do produto. 

“Tive que perguntar para um amigo que é médico do que se tratava. Ele disse que era um antidepressivo e que o médico provavelmente supôs que todos os meus sintomas eram psicológicos, mesmo não sendo psiquiatra”. A publicitária diz ainda que se sentiu diminuída e que nunca mais voltou a um endócrino desde então. 

Mesmo com as dificuldades que expor a própria história implicam, a ginecologista e obstetra feminista Aline Calixto insiste na importância da denúncia por meio do Conselho Federal de Medicina (CRM), que licencia especialistas a atuarem como médicos. 

“Uma denúncia formal ao CRM do profissional pode suspendê-lo da prática ou até cancelar o seu registro. É a forma mais rápida e eficiente para conseguir uma punição pois ficar sem a licença médica o impede de atuar na profissão e pode ser até educativo para aquela pessoa”, argumenta. 

Você não está louca 

As ações dos médicos de Malu e Gabriela as deixaram em estado de confusão, dúvida e questionamento. Algo que, infelizmente, não é fora do comum para mulheres que recorrem a medicina tradicional. 

Os conceitos de loucura e histeria surgiram no início do século 20 e podiam variar de médico para médico – mas todos concordavam que as mulheres eram portadoras desse mal. Para alguns a histeria era detectada quando a mulher não cumpria com os seus deveres femininos para outros como Antônio Austregésilo, a histeria era uma simulação, ou seja, as mulheres fingiam a loucura. 

Vale apontar que, na época, pouquíssimas mulheres eram médicas e tinham voz com suas pesquisas. Então acabava sendo mais fácil para os homens alegarem loucura, exagero e até mentira de suas pacientes, do que admitirem que não entendiam sobre os sintomas que as mulheres estavam falando. 

No século atual, as coisas não mudaram muito. Maria Tereza da Silva descobriu, somente aos 57 anos, que não estava louca: as dores fortes que sentia no ciclo menstrual eram causadas por uma doença que acometeu o seu útero, chamada endometriose. “Foi só quando entrei na menopausa e fiz exames diferentes que encontraram os focos”, conta a aposentada. 

Maria Tereza diz que ficou emocionada com o diagnóstico. “Passei vinte anos tomando antidepressivos e calmantes pois os médicos achavam que eu estava inventando sobre as minhas dores. Mas era verdade. Tinham dias que eu não conseguia levantar da cama”, relembra. 

Em sua jornada em busca de um médico que atendesse a sua condição, Malu também esbarrou com alguns diagnósticos de ‘loucura’. “Quando eles não sabem resolver, eles acham que não é verdade, que estamos inventando”, argumenta. 

Esta é uma forma de abuso psicológico que atinge principalmente as mulheres, de forma sutil, mas grave, e tem nome: gaslighting. Trata-se da manipulação para ter controle ou anular os pensamentos de uma pessoa, gerando inseguranças, dúvidas e medos, por meio de distorção, omissão ou criação de informações. 

Uma pesquisa da revista americana Health Line demonstra que pacientes que sofreram gaslighting em consultórios médicos ficam traumatizadas e não tentam buscar tratamento novamente, mesmo com outros especialistas. Ou seja: se o médico duvidar ou fazer pouco caso de suas dores ou sintomas, desconfie! 

Além dos danos psicológicos, a descrença na palavra da mulher sobre os sintomas do próprio corpo podem causar sequelas físicas. De acordo com uma pesquisa publicada na revista Diagnóstico, comparadas aos homens, as mulheres têm 50% mais chances de terem um diagnóstico errado, como no caso de Maria Tereza. 

Um olhar gordofóbico

E também como foi o caso de Gabi Menezes, blogueira, modelo plus size e psicóloga. Ela procurou um ginecologista pois estava a três meses sem menstruar. “Este era o único sintoma. Eu tinha acabado de mudar de área na empresa, horários, tarefas, tudo! Sei que a menstruação muitas vezes pode ser afetada pelo emocional e como isso já havia acontecido comigo em outro grande momento de mudança em minha vida, achei normal. Mesmo assim, fui ao ginecologista saber o que estava acontecendo”

Segundo Gabi, a primeira coisa que o médico reparou nela foi o pescoço. “Ele disse que estava muito alto. Eu disse que era comum, pois sou uma mulher gorda. Mas ele insistiu que eu poderia estar engordando por causa da tireóide, algo que pode impedir também que a menstruação desça”, relata. 

Encarando os exames como sendo de rotina, a psicóloga foi sozinha fazer uma ultrassom que poderia identificar a tireóide, mas acabou recebendo uma notícia bombástica. “A médica que fez o exame mostrou o monitor e apontou dizendo: ‘aqui está a perninha, o bracinho… Ouve o coração’”

Em uma tacada só, Gabi descobriu que não tinha tireóide, que estava grávida de 14 semanas e que teria um menino. “Um sintoma da gravidez é atraso na menstruação, mas o médico ignorou a possibilidade de eu estar grávida porque, na cabeça de muitas pessoas, mulheres gordas não se relacionam, não engravidam”, observa. 

Uma reportagem na Revista Cláudia deu nome ao problema enfrentado por Gabi: gordofobia médica, que acontece quando os médicos julgam condições de saúde uma pessoa por causa de sua aparência, considerando que o peso de uma pessoa não serve de diagnóstico para nenhuma doença, tampouco a obesidade que, segundo a American Medical Association, maior organização médica dos Estados Unidos, só pode ser diagnosticada de acordo com o índice de massa corporal (IMC) aliado a exames ainda mais precisos, como a bioimpedância e a calorimetria, que calculam a massa de gordura. 

Consultas humanizadas

Para a Dra. Aline, a medicina ainda precisa mudar muito a sua visão sobre os corpos de pessoas gordas: “Espero que daqui a 50 anos a medicina tenha vergonha de considerar o corpo gordo como um malefício, assim como hoje se envergonha de já ter considerado a homossexualidade uma doença”, diz. 

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Adepta da escuta ativa em seu consultório, Aline explica ainda que a gordofobia e outros problemas que as mulheres enfrentam, como racismo, machismo, assédio e gaslighting, ao procurar um médico, é um reflexo da sociedade como um todo e também da escrachada realidade de privilégio do médico contra a falta de privilégio do paciente. 

“A formação em medicina ainda é elitista e de acesso restrito a poucos. Além disso, falha em trabalhar a formação humana do médico, por isso querem saber muito mais sobre doenças do que sobre o indivíduo com a doença”, justifica a especialista. 

Para Aline, as cotas raciais em universidade e o interesse de mais pessoas em outras regiões, como no nordeste, com relação à profissão pode quebrar um ciclo vicioso do perfil do homem branco, mais velho e rico como médicos e fazer com que os pacientes passem a se identificar mais com os futuros médicos que poderão atender pessoas nos consultórios do futuro.

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