Matéria Especial Hypeness

Coronavirus, isolamento social e a sobrecarga de mulheres mães

por: Gabrielle Estevans

Metade dos alunos do mundo estão sem aulas por conta do coronavírus, segundo dados da Unesco. No Brasil, em São Paulo, desde segunda-feira (16), escolas públicas e particulares começaram a suspender gradualmente as aulas — que devem ser totalmente suspensas a partir do dia 23 de março, próxima segunda-feira. O objetivo do calendário gradual é dar tempo aos pais para que se programem com a nova agenda ociosa dos filhos e para que se organizem a fim de evitar deixá-los com os avós — grupos de risco da doença.

Em uma sociedade que responsabiliza com maior pesagem o papel da mulher na criação dos filhos, equilibrar home office (para aquelas que têm esse privilégio) e cuidado integral com crianças tem sido uma jornada desafiadora —  e muitas vezes solitária.

“A carga mental é enorme. Consome uma energia surreal. E não faço tudo porque sou forte, mas porque não tenho com quem dividir, além da minha mãe. Temos de arranjar um jeito de limpar e arrumar tudo que entra na casa, lidar com TPM, conseguir guardar algum dinheiro, manter práticas saudáveis. Além de tudo que precisamos administrar, ainda temos de entreter a cria, entender como comunicar o que está acontecendo para os pequenos, que ainda não têm ferramenta para lidar com determinadas informações. Não tinha listado ainda e agora vejo o quanto de coisas temos para dar conta”, desabafa Carla Ximenes, mãe do Ravi, de dois anos e professora de yoga que encontrou nas aulas online a possibilidade de continuar oferecendo suas aulas durante o isolamento social.

Para Giovanna Nader, consultora de sustentabilidade e apresentadora do GNT, o momento, para mães, é não só, muitas vezes, de solidão, mas também de exaustão. “Por sorte e privilégio, tenho uma boa rede de apoio, mas sei que essa não é a realidade de muitas mulheres”, diz. 

A empresária Flávia Henriques também levanta a questão fundamental da consciência de classe e de privilégios em tempos de pandemia e da fragilidade de grupos vulneráveis.

Eu e meu marido dividimos as tarefas do lar igualmente e também os cuidados com as crias. Mas sei que na casa das minhas funcionárias não é assim — 90% delas têm filhos e os maridos não fazem sua parte. A partir da semana que vem, em São Paulo, as escolas estarão totalmente fechadas e estou tentando ao máximo encontrar uma solução para que elas não sejam prejudicadas. Como não podemos fechar a empresa, por ora, tento encontrar um caminho que não as abandone nem as deixe sobrecarregadas

No caso de Isabela Vieira, diarista que trabalha há 11 anos em casa de família, o jeito foi matricular o filho de seis anos em uma escola particular. Com o fechamento da escola pública em que estudava, o patrão não a liberou para ficar em casa e ela precisou optar, às pressas, por mais esse gasto para poder continuar trabalhando — e não deixar de receber. Isabela não está sozinha: mulheres de baixa renda enfrentam em todo o País o desafio de não ter com quem deixar suas crianças sem abrir mão da remuneração que as sustenta. 

Sororidade

O termo, que fez sucesso em fevereiro, após uma fala da influencer Manu Gavassi no BBB, ganhou contornos reais durante a pandemia. Redes de acolhimento (formada em sua maioria por mulheres) estão surgindo pelo Brasil para prestar auxílio a mães que tiveram seu dia a dia fortemente impactado. Marília Mäder é um exemplo: por meio de um post na internet, abriu sua casa para receber até quatro crianças maiores de cinco anos por período integral, com almoço e lanche. “Não tenho condições de grandes atividades pedagógicas, mas ofereço cuidado, uma pequena área verde e higiene”, dizia o anúncio publicado em uma rede social.

Manuela Colombo, coordenadora de políticas públicas do Sebrae, em SP, conseguiu organizar toda a sua equipe para, a partir da semana que vem, trabalharem remotamente. Os grupos de risco foram liberados já na semana passada. Mãe da Martina, de quatro anos, Colombo conta que o isolamento está sendo mais fácil graças ao grupo de mães e amigas que criou desde a gestação e que trocam, constantemente, informações e apoio. 

Iniciativas

Contrariando o cenário de escassez que se desenha, profissionais que lidam com crianças têm colocado seus serviços a favor do todo. De ‘repórter por um dia‘ a acampamento na sala, a psicóloga Andrezza Marques disponibilizou nas redes uma série de sugestões de brincadeiras para o período de reclusão. Já o @fafaconta e o @maequele, ambos perfis no Instagram, estão fazendo contação de histórias online em horários variados. 

Além das pequenas iniciativas, grandes corporações também estão oferecendo opções gratuitas para que mães entretenham os pequenos. A Globoplay, por exemplo, abriu toda sua programação infantil por trinta dias, acompanhada por outras gigantes como Net, Sky e Oi TV. 

Apesar do isolamento, Carla Xavier tenta extrair pequenas lições positivas da experiência: “Hoje eu, minha mãe e meu filho fizemos yoga juntos. Acho que foi a segunda vez na vida que minha mãe topou uma microaula! No fim das contas, estamos mais próximos, aprendendo a ouvir o que há dentro, entendendo mais sobre a pausa, a calma, o cuidado. E assim seguimos”

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Fotos: Reprodução


Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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