Matéria Especial Hypeness

Coronavírus prova porque o SUS e a pesquisa universitária realmente importam

por: Yuri Ferreira

A crise do coronavírus definitivamente chegou ao nosso país. A epidemia que havia começado em Wuhan, na China, se espalhou através de todos os continentes e o Brasil é a nação da América Latina com mais casos confirmados da doença. São pelo menos 151 confirmações até a manhã de 13 de março, segundo balanço de secretarias de saúde dos estados e dados fornecidos pelo Albert Einstein.

No metrô de São Paulo pessoas se protegem com máscaras do Coronavírus; medida não é recomendada pelos profissionais de saúde, exceto em casos de pessoas gripadas

Após o surto na China e o trabalho de controle das autoridades chinesas, além da dificuldade de Estados Unidos e da União Europeia para conter o contágio, o Brasil pode aprender grandes lições sobre como lidar com o Covid-19.

Mas, ao contrário dos EUA e de diversos países da União Europeia, o Brasil, se seguir os passos corretos,  tem capacidade de garantir tratamento universal para a doença. Portanto, é necessário entender porque, durante a crise do coronavírus, o SUS e a pesquisa universitária realmente importam.

– Do coronavirus a gripe espanhola: as maiores pandemias da humanidade

Nos EUA, coronavírus é lucro

A nação mais poderosa do mundo tem mais de 1 mil casos confirmados da doença. Sem um sistema de saúde pública, o país sofre nas mãos da indústria farmacêutica há anos, o que fica evidente em cenários de crise como este.

Por isso, o grande ponto de debate nas eleições americanas é justamente a criação (ou não) de um Sistema Nacional de Saúde Pública. Uma pesquisa da Business Insider revelou que metade da população dos EUA  – que tem 327 milhões de habitantes – não conseguiria pagar por um teste de coronavírus. Com valores que partem dos US$ 441 (R$ 2072) para quem tem plano de saúde até US$ 1151 (R$ 5049) para quem não tem, o país é apontado como um dos principais centros potenciais da epidemia.

Coronavírus já se espalhou dentro dos EUA. Tom Hanks anunciou ter sido infectado e mais de mil casos já foram confirmados nas terras estadunidenses

Cerca de 27 milhões de americanos não possuem plano de saúde e nenhum acesso a médicos ou medicamentos. Além disso, as internações pelo vírus nesses hospitais serão, certamente, caríssimas, facilitando o surgimento de mortos e também aumentando a potência de contágio do coronavírus (quanto mais sintomas, mais o infectado pode transmitir o vírus).

Donald Trump e seu vice, Mike Pence, que está à frente de uma força-tarefa contra o vírus, são alvos de críticas  duras por não ter tomado atitudes internas para a contenção do vírus. Os EUA são o país do mundo com a menor capacidade de testes para Covid-19 (23 para cada milhão de pessoas). Para se ter uma ideia, a Coreia do Sul tem 3,700 testes para cada milhão.

Acredita-se que a crise terá um forte impacto nas eleições presidenciais (que acontecerão no fim desse ano). Bernie Sanders, candidato socialista, luta pela criação de um sistema de saúde pública e para ele, tratamentos, testes e potenciais vacinas para o Covid-19 deveriam ser gratuitas. Joe Biden, seu adversário no Partido Democrata e Donald Trump, acreditam que o governo deveria subsidiar parte dos custos, mas que seria impossível dar tratamento universal para a população.

O partido Democrata está em dúvida entre Bernie Sanders (esq.) e Joe Biden (dir.) para concorrer com Donald Trump. Candidatos diferem, principalmente, na área de saúde pública.

O poder das empresas de plano de saúde e da indústria farmacêutica na política é cada vez maior, e o dinheiro investido em campanhas e em lobby para congressistas aumentou, pois os problemas da saúde privada se agravaram nos Estados Unidos. A inabilidade de Donald Trump para lidar com o coronavírus está diretamente relacionada ao problema: empresas que vão lucrar com a epidemia não querem que ela seja controlada.

Sistema Único de Saúde do Brasil 

A maior parte dos diagnósticos de coronavírus está sendo feito em hospitais públicos e no Albert Einstein, centro privado de referência de saúde de São Paulo. Nos centros do Sistema Único de Saúde, o teste é gratuito (após encaminhamento médico vindo de um posto). No Einstein, segundo a assessoria, o teste é dado a preço de custo (R$ 150) para pessoas com suspeita. Com as medidas adequadas de contenção de epidemia – quarentena para contaminadas e redução de fluxo e aglomeração nas grandes cidades -, acredita-se que haverá leitos suficientes para conseguir tratar todos os que necessitam.

Um áudio do médico cardiologista, Dr. Fábio Jatene, atentou que a Grande São Paulo irá necessitar de 10 mil leitos de UTI para fazer tratamento de todos os que serão potencialmente infectados: não é possível ter essa informação. Mas a expansão de leitos é necessária. O governador paulista, João Dória, diz que parcerias entre hospitais públicos e privados e a contratação de novos médicos serão feitas rapidamente.

O SUS cumprirá, sem dúvida, papel central na contenção e no tratamento do coronavírus no Brasil

Acredita-se que o SUS consiga expandir sua capacidade de internação utilizando salas de cirurgia da mesma maneira e, com a capacidade de adiar algumas cirurgias não emergenciais, os hospitais públicos terão condições de lidar com a crise da maneira mais adequada.

“Nós estamos pensando em fazer alterações, sugestões, nos critérios do uso dos leitos de UTI. Nós queremos, por exemplo, interferir na indicação das cirurgias eletivas. Não tem sentido nesse momento de cirurgias eletivas”, afirmou o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, ao UOL.

Combinando níveis satisfatórios de tratamento com ações para reduzir situações de risco, a epidemia no Brasil, em comparação aos estadunidenses, pode passar mais tranquilidade, já que o Sista Único de Saúde, pode ser capaz de diagnosticar e tratar a todos, independentemente de renda, gênero e raça.

O valor da pesquisa científica

Após a confirmação do primeiro caso de coronavírus no Brasil, pesquisadoras do Instituto Adolfo Lutz da Universidade de São Paulo em parceria com a Universidade de Oxford, foram capazes de sequenciar o genoma do vírus em 48 horas. Essa descoberta pode parecer pequena, mas é importante para entender como o vírus se muta e como uma vacina pode ser criada para evitar o contágio pandêmico.

“Temos trabalhado para desenvolver uma tecnologia rápida e barata. Todos os casos que forem confirmados no Adolfo Lutz serão sequenciados. A ideia é fornecer informações que possam ser usada para entender a epidemia em curso, para que outros cientistas possam comparar os dados. Essa cadeia de informação de todo mundo junto é importante para o mundo poder responder à epidemia”, explicou Ester Sabino, do IMT ao Estado de São Paulo.

Ester Sabino (centro) e Jaqueline Goes de Jesus (direita) foram as responsáveis pela sequência do coronavírus realizado no Instituto de Medicina Tropical da USP

Nos EUA, a pesquisa científica – completamente dominada pela indústria farmacêutica – está sendo feita para desenvolver um remédio lucrativo. Com as universidades públicas e independentes que ainda restam no Brasil, é possível criar medicamentos e vacinas que iriam diretamente para o SUS ou patenteados de acordo com seu valor social. Além disso, regulações no mercado brasileiro impediriam que uma empresa subisse seu valor em caso de altas demandas.

Outro país com alto desenvolvimento de pesquisa científica na área de medicina é Cuba. A ilha caribenha, em parceria com o governo chinês, produziu um antiviral, o alfa-interferon, que está sendo utilizado nos hospitais chineses para tratar a doença. Segundo o jornal Granma, “a fábrica chinesa-cubana Changheber, em Jilin, produz desde o primeiro dia do Ano-Novo Lunar (25 de fevereiro), o alfa interferon (IFNrec) com o uso da tecnologia cubana. A Comissão de Saúde da China selecionou nosso produto entre os usados na luta contra os coronavírus”.

Apesar de ter sido o epicentro da crise, China controlou bem a epidemia após dois meses. O forte controle do governo na saúde facilitou a redução no número de casos

A China, que, assim como o Brasil, possui tanto um sistema de saúde pública e pesquisa científica foi muito bem sucedida em conter o vírus. Para se ter uma ideia, em 4 de fevereiro de 2020, 3 mil novos casos foram confirmados no país.

Em 13 de março, 8 novos casos foram identificados. Milhares de médicos e pesquisadores do governo trabalharam para entender quais sao as melhores terapias para decifrar doença. Com alta capacidade de tratamento, quarentenas e isolamentos adequados, é possível conter o coronavírus, imagine com um sistema de saúde pública de acesso universal fica bem mais fácil.

O momento certo

Enquanto os Estados Unidos e a Itália tropicam em si mesmos para conter a epidemia que promete ser a pior da história desde a Gripe Espanhola de 1918, o Brasil parece ter aprendido com os erros desses países e com os acertos da China para conseguir fazer uma adequada contenção da epidemia de Covid-19.

No entano, a intensificação de que o SUS estaria falido e não deveria existir ou que faculdades que realizam pesquisas diversas são somente espaços de ‘baderna‘, se mostram infundadas, sobretudo com os avanços na luta contra o coronavírus Trocando em miúdos, o sistema de saúde e a ciência brasileira realmente importam para a nossa vida e para o desenvolvimento do país.

Conquistado na Constituição de 1988, o SUS é uma maneira de reduzir as desigualdades e garantir o direito à vida para milhões de Brasileiros que não tem dinheiro para pagar pela saúde

“Precisamos de financiamento do SUS e de valorização dos profissionais de ensino de ciência. Se nossas instituições de pesquisa não tivessem capacidade, não teríamos a descoberta da síndrome congênita do vírus Zika e agora nós não estaríamos sequenciando genomas, oferecendo condições científicas de resposta como instituições nacionais. Portanto, se pararmos de financiar pesquisas independentes no Brasil, iremos depender de outros países do mundo desenvolvido que não fazem caridade para ninguém, fazem investimentos em empreendimentos rentáveis. Um país soberano precisa ter instituições de pesquisa fortes e valorizadas”, afirmou à Fiocruz professora e pesquisadora Deisy Ventura, da faculdade de Saúde Pública da USP.

Se existe uma hora para apoiar o investimento em pesquisa científica nas Universidades Públicas e a expansão de recursos para a nossa saúde pública de acesso universal, é agora! Se SUS não é perfeito, isso não quer dizer que seu fim deveria ser decretado. A melhora é o caminho.

“Sem o Sus, é barbárie. Por incrível que pareça, poucos brasileiros sabem que o Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que ousou levar assistência médica gratuita a toda a população. Pouquíssimos têm consciência de que o SUS é, disparado, o maior e o mais democrático programa de distribuição de renda do país. Perto dele, o Bolsa Família não passa de pequena ajuda”, afirmou Dráuzio Varella em uma coluna para a Folha de São Paulo.

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Fotos: Fotos 1, 2, 3, 7, 8: © Getty Images Foto 3: Agência Brasil/EBC Foto 4: Reprodução/IMT/USP


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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