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Covid-19: falas de dono do Madero e Roberto Justus mostram desprezo aos idosos

por: Yuri Ferreira

Momentos de crise mostram como de fato as pessoas se comportam. Com o crescimento dos casos de coronavírus e de mortos pela Covid 19 no Brasil, a necessidade de conter o contágio para não sobrecarregar o Sistema Único de Saúde e os hospitais privados é reconhecida por todas as autoridades e especialistas em epidemiologia. Mas algumas pessoas ainda não acreditam nas medidas de saúde pública que tem sido efetivas ao redor do mundo.

Com a recomendação de distanciamento social e lockout por parte de alguns governos estaduais – em especial o de São Paulo -, diversos empresários estão reclamando pelas possíveis perdas econômicas que serão resultado da crise. Três falas, em especial, chocaram: um áudio vazado do publicitário Roberto Justus, um vídeo de Júnior Durski, dono do restaurante Madero e Alexandre Guerra, CEO do Giraffas. Os executivos diminuíram a gravidade da crise nesses registros.

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Empresários defenderam que o trabalhadores continuassem a se expor ao coronavírus para que a Economia não fosse afetada tão gravamente.

Junior Durski: ‘Brasil não pode parar por 5 ou 7 mil mortes’

O sócio-fundador da hamburgueria Madero, que se envolveu em polêmicas por apoiar as manifestações do último de 15 de março em meio a crise do contágio, afirmou que as possíveis mortes que virão não podem atrasar a economia brasileira.

“O Brasil não pode parar dessa maneira. O Brasil não aguenta. Tem que ter trabalho, as pessoas têm que produzir, têm que trabalhar. O Brasil não tem que essa condição de ficar parado assim. As consequências que teremos economicamente no futuro vão ser muito maiores do que as pessoas que vão morrer agora com o coronavírus”, contou o empresário:

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Roberto Justus: ‘O vírus não vai matar ninguém, vai matar velhinho e gente já doente’

A fala de Roberto Justus veio de um áudio de Whatsapp vazado. Em uma conversa com o apresentador Marcos Mion, o apresentador da versão brasileira ‘O Aprendiz’ reduziu os impactos da crise, combatendo a ideia de que pode haver um espalhamento do vírus que chegue ao nível de um milhão de mortos no país, número divulgado pelo virologista e especialista em transmissão epidêmica Átila Iamarino.

“Não fica preocupado porque na favela o virus não vai matar ninguém, vai matar velhinho e gente já doente, não tem uma morte no mundo das 12 mil que a pessoa já não tenha um problema recorrente do passado, todos foram velhinhos, ou mais jovens com problemas pulmonares ou são diabéticos ou tem outras doenças. Na pessoa saudável, zero, e os pobres não são todos doentes. Na favela não vai acontecer porra nenhuma se entrar o vírus, pelo contrário. Criança então, de zero a dez nenhum caso. Isso não é grave, grave vai ser a recessão global como nunca vista na história, nem no crash de 29. Um milhão de mortos no Brasil é uma das piores de mais mau gosto que eu já vi na minha vida”, afirmou:

Alexandre Guerra: ‘Ao invés de estar com medo de pegar esse vírus, também deveria estar com medo de perder o emprego’

Segundo denúncias, o CEO do Giraffas pressionou os funcionários para que não se comovam com o vírus e que é necessário não se desesperar e ter motivação para passar por essa crise.

“Você que é funcionário, que talvez esteja em casa numa boa, numa tranquilidade, curtindo um pouco esse home office, esse descanso forçado, você já seu deu conta que, ao invés de estar com medo de pegar esse vírus, você deveria também estar com medo de perder o emprego?”, disse Guerra em vídeo.

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Por que desincentivar o distanciamento social não é responsável

O argumento defendido pelos empresários vai contra as medidas de saúde pública que todos os grandes países do mundo estão tomando. Nosso país, com baixa capacidade de testagem e em fase exponencial de contaminação tem sido pouco eficaz em controlar o vírus. Por mais que o comércio tenha sido fechado no Rio de Janeiro e em São Paulo, milhares de pessoas nas regiões metropolitanas de ambas as cidades estão saindo para trabalhar; em sua maioria, trabalhadores informais.

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Por mais que o vírus não mate tanto quanto outras a doença, o problema é que, mesmo com a baixa letalidade, ele irá transbordar a capacidade de leitos disponíveis no Brasil, caso a taxa de infecção se mantenha. A situação será similar à Itália: sem respiradores suficientes, milhares de pessoas não poderão ser acolhidas em Unidades de Tratamento Intensivo e morrerão em suas casas, porque a epidemia não foi controlada.

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A Inglaterra adotaria o sistema de mitigação – onde não há controle -, mas abandonou o projeto na semana passada após a previsão indicar que milhões de mortos iriam sobrecarregar o National Health System, similar ao SUS.

A única maneira não sobrecarregar o sistema de saúde é com o isolamento. Se menos pessoas pegarem ao longo do tempo e conseguirmos não colapsar o SUS, milhares (ou até milhões) de pessoas serão salvas. O biólogo Átila Iamarino explicou o porquê:

“Em pronunciamento, o Ministro da Saúde disse que em abril o sistema de saúde entra em colapso. E a gente tem dois caminhos daqui pra frente. A gente tem o caminho da mitigação (proposto pelos empresários acima) e o cenário da supressão (isolamento). No cenário da mitigação, em que a gente não suprime as pessoas, não mantém elas em casa e deixa mais do que o básico funcionando, pelo menos 1 milhão de mortos até o fim de agosto. Então quando você vê uma discussão daqui pra frente, de se tal comércio deveria fechar, se tal serviço não essencial deveria fechar, se as pessoas podem ou não estar circulando ou trabalhando, se pode ter aglomeração na rua ou se espaços confinados deveria ter tanta gente, entenda que essa é uma discussão entre: teremos 1 milhão de mortos ou teremos alguns milhares de mortos”, afirmou.

Confira o vídeo completo da Átila para entender o porquê e qual o cálculo que o especialista em epidemias utilizou:

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Fotos: Reprodução/Twitter


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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