Entrevista Hypeness

Crise na Bolsa: como está a vida de quem trabalha no mercado financeiro em meio ao Covid-19

por: Yuri Ferreira

Nas últimas duas semanas, a Bolsa de Valores de São Paulo acionou seis vezes seu circuit breaker – uma maneira de brecar a venda de ações para evitar quedas maiores. A última vez em que se viu isso foi na Crise de 2008. Se naquela época ainda podíamos ver na televisão o desespero no pregão da Bolsa com centenas de pessoas no pátio do edifício da B3, hoje só é possível ver a vertiginosa queda dos índices pelas manchetes jornalísticas dos cadernos de economia. A Covid-19 derrubou o mercado financeiro.

A crise econômica que o coronavírus trouxe combinada com a queda de braço entre Rússia e Arábia Saudita no valor do petróleo fizeram com que o índice da Bovespa, principal mercado de ações do nosso país, despencasse em proporções preocupantes. A crise pela qual passa o mercado brasileiro de ações é extremamente complexa e a vida de corretores e trabalhadores da Bolsa de Valores não está nada fácil.

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Para compreender o que está acontecendo com a Bovespa e com os trabalhadores da área, conversamos com Ana Luisa, que trabalha há 3 anos com investimentos e faz parte de uma das maiores corretoras de todo o país.

“Logo depois do Carnaval a gente começou a sentir essas quedas. Desde de que a gente tem ouvido esse temor sobre o coronavírus estamos vendo coisas bem bizarras. A gente tá oscilando entre dias bons e dias ruins. Tem dia bom em que a bolsa chega à 78, 85 (mil pontos) e hoje ela cai para 66, ontem estava em 62, então está sendo muito difícil”, afirmou.

Estamos de frente com a maior volatilidade do século: isso significa que a instabilidade (aumento e queda do valor dos papéis) nunca foi tão grande. Para se ter uma ideia, tivemos as duas maiores quedas do século na semana retrasada (-12,17% e -14,78%) e as duas maiores alta desde 2009 (+7,14% e 13,91%). Nem na Crise Mundial de 2008 se observou um cenário tão confuso.

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Em janeiro desse ano, a Bolsa bateu 120 mil pontos, maior índice da história. Isso significa que nunca se viu tanto dinheiro investido em ações como naquela época. Na última terça-feira, o índice chegou à 60 mil pontos; metade do que estava em janeiro. Milhares de investidores retiraram seu dinheiro do mercado e aceitaram o prejuízo que o mercado impôs.

“Dentro da corretora, o meu trabalho é de captação de cliente. Eu tenho que captar o cliente e alocar o dinheiro dele. As minhas metas são captação. E aí, normalmente a minha rotina de trabalho era: o cliente abre a conta, eu converso com ele e ele me fala  ‘Quero um investimento de renda fixa à longo prazo’ ou ‘Quero uma carteira de ações, uma coisa mais diversificada’. Mas ultimamente tem sido tudo muito mais difícil. Eu tenho como meta a captação, então quando alguém resgata o dinheiro (retira o investimento) eu me f*do, porque isso acaba com minha meta. E isso é uma *****.A pessoa fica desesperada, resgata o dinheiro, assume o prejuízo e fala “dane-se, nunca mais eu vou investir”. O brasileiro é muito curto-prazista.”

Em outubro do ano passado, as manchetes da área econômica anunciavamNúmero de investidores na Bolsa ultrapassa o de presidiários no país”. Mais de 1,4 milhão de pessoas colocavam seu dinheiro nos papéis da Bolsa. Enquanto o capital estrangeiro escapava do país devido às baixas da taxa de juros, os brasileiros entraram em corretoras como Easynvest, XP e Clear. Os novos investidores nacionais não conheciam profundamente o mercado e, no primeiro grande revés, retiraram seus investimentos.

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“Esses novos investidores não tem ideia de como funciona uma ação, do que é renda variável. As pessoas foram na onda do boom do ano passado, ficam lendo a Empiricus e elas entram na Bolsa desinformadas. E nesse momento, elas correm. A bolsa tá caindo por isso. Se não tivéssemos tanta gente desesperada, isso não estaria acontecendo.

Essa mentalidade de curto-prazo acaba com todo o ganho que a pessoa teve no ano passado, por exemplo. Na minha carteira mesmo, eu perdi dinheiro. Mas eu vou deixar ele lá. O ideal é que você pense num horizonte de longo prazo. Vai recuperar, a Bolsa não vai ficar a 60 mil pontos pra sempre. Isso não existe.”, explica.

O coronavírus trouxe instabilidade para todos os mercados; Wall Street também viu quedas históricas graças à Covid 19

Com a queda histórica, enquanto milhões de pessoas saíram do mercado, outros tantos resolveram entrar. A ideia de que “o importante é comprar na baixa” entrou na cabeça de centenas de milhares de brasileiros, que resolveram usar o momento para ver se conseguem alguma renda no mercado de papéis.

“A gente tá trabalhando muito mais. Está muito mais estressante. A gente fica tranquilo porque entendemos do mercado e sabemos que isso vai passar. Não é a primeira nem a última crise. Mas o momento é muito complicado. O cliente quer entrar em ações e não sabe o que é home broker, então a gente tá tendo que ensinar o básico do básico pro cara que viu que a bolsa caiu no Jornal Nacional. Tem muita gente entrando em bolsa, muita mesmo”, relata a assessora de contas.

Se você quiser investir agora e acredita que o momento pode ser favorável, independente do revés econômico e da atmosfera que o coronavírus implantou na sociedade, Ana Luisa tem um recado:

“Estudem. Aprendam a operar antes de querer operar. Não vai no calor do momento senão você vai tomar no **. Vai achar que a Bolsa é um investimento ruim e vai continuar escravo da renda fixa por falta de conhecimento. Estudem.”

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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