Debate

Drauzio Varella pede cesta básica para pobres sob risco de aumento da violência durante Covid-19

por: Yuri Ferreira

A Covid-19 chegou ao Brasil com o pé na porta; a escalada no número de casos está mais intensa do que na Itália e o Sistema Único de Saúde (SUS) já se demonstrado ineficaz para lidar com a maior pandemia da história desde 1918.

Com milhares de trabalhadores brasileiros formais e informais continuando a ir ao trabalho em meio à crise, podemos ver um cenário desolador para as populações mais fragilizadas do nosso país. O vírus veio para o Brasil através da classe média. Celebridades e empresários foram infectadas em suas festas de luxo e viagens à Europa, mas não serão estes o que irão sofrer mais com a crise. Na segunda semana de estado de calamidade no país, já se observa indícios claros de quem irá arcar com as consequências do novo coronavírus: a população mais pobre.

Como apontou pesquisa da Datafolha publicada nesta segunda-feira (23),  apenas 37% das pessoas estão ficando em casa durante a crise. Os trabalhadores de home office, que gozam do privilégio de não ir às ruas, são homens e mulheres jovens e, em sua maioria, de classe média alta. Estes mesmos que confinados obedecendo ordens de distanciamentl social, manterão a renda durante os próximos meses e estarão menos expostos à infecção. O problema real é para quem não pode não sair de casa.

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A Covid 19 irá fazer grande parte de suas vítimas nas favelas; moradores já se organizam para conter a epidemia

A maior vítima do coronavírus é a periferia

O dr. Drauzio Varella, médico oncologista e comunicador, reiterou no ‘Café da Manhã’, podcast diário da Folha de São Paulo, a necessidade de se olhar para a parcela mais vulnerabilizada da população. É nessa fatia das cidades brasileiras em que aparecerá o maior número de mortos.

40% da economia brasileira é informal. Essas pessoas saem para trabalhar de manhã pra ter comida no dia seguinte. Não tem 20 reais na poupança, e com aquele dinheirinho que consegue, tenta tocar o dia a dia, na maior dificuldade. O que vai acontecer? Ou nós vamos achar uma forma de que essas pessoas recebam uma cesta básica e uma bolsa, ou vai ser um caos social, risco grande de violência maior do que já vivemos. Não dá pra ficar esperando. Os que fazem home office, tá bom pra eles. Recebem o salário no fim do mês e tá perfeito. O impacto duro mesmo vai ser nos que não têm nada. Os que têm o risco de pegar a infecção, que moram em condições precárias e não tem como sobreviver sem trabalhar. Nós temos que ter medidas urgentes nessa área, e o governo só não vai dar conta. E mesmo que o governo fosse competente, não iria dar conta.

O risco que a periferia corre já está claro. A primeira mulher a morrer da Covid 19 no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica que foi obrigada pelos seus patrões a trabalhar. Ela acabou infectada por eles com a doença e morreu.

Na região metropolitana da capital fluminense, milhares de pessoas estão se aglomerando para pegar o transporte público, mesmo com as restrições ordenadas pelo Governo do Estado. Nas estações Pavuna e Nova Iguaçu, aglomerações e filas enormes foram observadas, colocando milhares de trabalhadores em risco:

Aglomeração e fila para entrar nos trens na estação Nova Iguaçu

Diversos casos suspeitos já estão sendo monitorados na maior favela do Brasil: Paraisópolis. A alta densidade populacional que a favela da capital paulista tem é um fator chave para um espalhamento geral do vírus. Com 5 a 7 moradores em cada casa, o distanciamento social não é o suficiente. Cerca de 25% da população da favela tem mais de 60 anos. Gilson Rodrigues, líder comunitário foi claro:

Vai morrer muita gente em Paraisópolis, a situação é mais grave do que a gente imagina

Estamos observando apenas uma das grandes comunidades de São Paulo. De Paraisópolis ao Bairro dos Pimentas, de Heliópolis à Parada de Taipas, a situação vai se intensificar e a falta de leitos no SUS será evidente, especialmente no pico da epidemia, que se avizinha. Um colapso do Sistema de Saúde poderá ser observado em pouco tempo.

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“Eu venho há anos dizendo que “sem o SUS, é a barbárie”. A porcentagem de brasileiros que têm plano de saúde não passa de 25%. Nós temos aí 170 milhões de brasileiros que dependem do SUS diretamente. Agora, durante essa epidemia, nós vamos pagar todos os erros que cometemos no passado. A Copa do Mundo e esses estádios monumentais. Se esse dinheiro tivesse sido empregado na Saúde, no SUS, o SUS teria uma outra postura para lidar com a crise. As verbas pro SUS vem minguando ano após ano. Por que? Porque não é importante, né? As elites brasileiras nunca se interessaram pelo SUS. Agora iremos ver a necessidade do SUS. Não adianta ter um plano de saúde maravilhoso se o seu hospital particular não tiver vaga na UTI. Você vai depender do SUS da mesma maneira. Na verdade, sistema de saúde nenhum é capaz de conter o que está acontecendo.”, adicionou Drauzio Varella.

A periferia se protege contra o coronavírus

O colapso inevitável vai tentar ser reduzido pelas organizações comunitárias nas periferias. Em Paraisópolis, uma associação de moradores vai alugar casarões do Morumbi – bairro de elite ao lado da favela – para isolar pessoas que estão no grupo de risco.

Na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, a situação é complicada. Com precárias condições de acesso à água, decisivo para a higiene da população, moradores já começam a entrar em desespero. Baixas condições de saneamento básico preocupam os profissionais de saúde e os epidemiologistas.

“Mesmo antes dessa pandemia, a gente já sofria com a violência histórica da desigualdade. Ter água encanada, acesso a água diariamente e outros direitos básicos nunca foi amplamente garantido a nós. A gente poupa água não apenas por conscientização ambiental, mas por necessidade, porque a gente sabe que se tem água hoje, só terá novamente daqui uma semana”, contou o ativista Raull Santiago ao UOL. Ele é Coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão.

Também no Complexo, onde casos ainda não foram confirmados, diversas ONGs, profissionais da saúde e moradores da comunidade, fizeram um comitê de crise, chamado ‘Juntos pelo Complexo do Alemão’, para reduzir o trânsito de pessoas e incentivar o distanciamento social na favela.

Juntos pelo Complexo do Alemão tem incentivado o isolamento social na comunidade, que também tem sofrido com falta de água encanada

O Publicitários Negros, grupo de luta pela igualdade racial no mercado de comunicação e publicidade, está fazendo um levantamento de necessidades ao redor da periferia chamado ‘Me ajuda a te ajudar’, onde dados sobre os reflexos da Covid-19 serão levados à marcas, fazendo com que ativações pela saúde da periferia possam ser feitas pela iniciativa privada.

Um coletivo de jornalistas, comunicadores e ativistas sociais elaborou o #CoronaNaPeriferia, uma newsletter por zap e site para informação sobre como se prevenir e quais são as informações verdadeiras – sem fake news – sobre o que está acontecendo, com enfoque no público periférico.

A epidemia de coronavírus no futuro

Nem o Ministério da Saúde, nem o Presidente da República tomaram medidas efetivas para manter as pessoas em casa. Apesar do anúncio de um subsídio de 200 reais por mês para trabalhadores informais no país, a proposta ainda não foi editada. O governo não proibiu demissões, não assegurou manutenção salarial, nem anunciou suspensão da cobrança de aluguéis, contas de água ou luz, andando na contramão da comunidade internacional.

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A imprensa tem cumprido papel essencial para a comunicação para a população da gravidade da Covid 19. Drauzio afirmou à Folha que “Se não tivesse imprensa agora, o que seria de nós? A imprensa tem um papel maravilhoso no Brasil nesse momento. Se não fosse a liberdade que a imprensa tem de documentar, de falar, de discutir, de elogiar, nós estaríamos perdidos na epidemia”.

Estamos de frente a um terrível colapso social e, caso medidas urgentes não sejam tomadas pelas autoridades, a situação pode ficar insustentável. Até hoje, dia 23 de março, são 1.635 infectados e 25 mortos, mas a situação irá piorar. O biólogo Átila Iamarino, especialista em epidemias virais, afirmou que a crise da Covid 19 pode levar um milhão de vidas até agosto:

Por fim, sabemos quem é que vai sofrer com o coronavírus e quem vai morrer da Covid 19: quem sempre morreu pela desigualdade social no nosso país.

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Fotos: Reprodução/Facebook


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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