Debate

Drauzio Varella sob ataque aumenta invisibilidade trans na cadeia

por: Yuri Ferreira

Milhares de pessoas ao redor do nosso país se comoveram com a série de reportagens feita pelo ‘Fantástico’ em que o Dr. Drauzio Varella expunha a difícil realidade e condição das mulheres trans na cadeia em São Paulo. Entre as entrevistas a fala de Suzi emocionou e viralizou, gerando comoção e até vaquinha para a detenta.

A detenta estava há 8 anos sem receber visitas e encontrou conforto no abraço de Drauzio. A matéria do ‘Fantástico’ não tratou dos crimes cometidos pelas personagens. O recorte escolhido foi abordar as dificuldades e disparidades enfrentadas por mulheres trans dentro de cadeias masculinas.

Grupos conservadores e contra os direitos LGBT utilizaram o caso como bode expiatório para a transfobia

Durante o fim de semana, Drauzio Varella foi alvo de uma enxurrada de ataques nas redes após a divulgação de um suposto processo contra Suzi. Segundo os autos, ela teria abusado sexualmente e assassinado um menor de idade. Por enquanto, porém, nem a Justiça nem a advogada de Suzi confirmaram a realidade das denúncias do processo.

No domingo (8), seu nome estava entre os assuntos mais debaditos no Twitter. Uma enxurrada de ofensas contra pessoas trans. O escândalo do crime teve como fim suprimir o tema da reportagem. Deputados de alas mais conservadoras e influenciadores de extrema-direita utilizaram o caso para invalidar todo o conteúdo da reportagem – mesmo que as denúncias de Drauzio tenham sido confirmadas pelo próprio Ministério comandado por Damares Alves.

Invisibilidade trans

Desde os anos 1980, Drauzio Varella faz trabalhos em presídios e atendeu, como médico, milhares de pessoas que cometeram uma diversidade de infrações imensa. Por que? A Constituição brasileira de 1988 assegura respeito à integridade física e moral dos presos no artigo 5º. Negar cuidado médico seria uma forma de tortura, que é estritamente proibida pelas leis brasileiras.

Assista ao vídeo original que viralizou e alcançou grande visibilidade:

E justamente é sobre isso que trata a reportagem de Dráuzio: apenas 106 de 508 cadeias no Brasil possuem alas dedicadas para a população LGBT e mais de 700 presas trans estão trancafiadas em penitenciárias masculinas, sofrendo constantes abusos nesses espaços, segundo recente pesquisa do Ministério da Mulher, da Família e dos direitos humanos.

“Existem padrões de violação e práticas de tortura que atingem especificamente a população de travestis e mulheres trans nos presídios”, afirmou Gustavo Passos, coordenador do estudo, ao G1.

Os ataques a Drauzio Varella e ao próprio intuito da reportagem não se baseiam na realidade. Eles invisibilizam o tema tratado no programa, desvirtuando o foco do trabalho jornalístico e criam um ambiente inseguro para tratar de temas delicados. Seria impossível debater sobre os problemas penitenciários no Brasil por que alguns dos personagens ali detidos cometeram crimes hediondos?

Ataques similares foram feitos contra o Padre Júlio Lancelotti, chefe de uma paróquia católica na Zona Leste de São Paulo. Ele comanda diversas ações pró-mulheres trans, em favor de outros diversos grupos em vulnerabilidade social e, por isso, tem sido ameaçado de morte por diversas autoridades públicas e da própria Igreja.

Em nota ao UOL, a Globo defendeu o ofício jornalístico e integridade de sua reportagem:

“O quadro do Dr. Drauzio Varella foi sobre uma situação que o Estado brasileiro precisa enfrentar: mulheres trans cumprem as penas pelos crimes que cometeram em meio a presos homens, o que gera toda sorte de problemas. O crime das entrevistadas não foi mencionado, porque este não era o objetivo da reportagem. Foi divulgada apenas uma estatística geral sobre eles”, afirmou.

Dráuzio se comunicou oficialmente em seu Twitter:

“Há mais de 30 anos frequento presídios, onde trato da saúde de detentos e detentas. Em todos os lugares em que pratico a Medicina, seja no meu consultório ou nas penitenciárias, não pergunto sobre o que meus pacientes possam ter feito de errado. Sigo essa conduta para que meu julgamento pessoas não me impeça de cumprir o juramente que fiz ao me tornar médico. No meu trabalho na televisão, sigo os mesmos princípios. No caso da reportagem veiculada pelo Fantástico na semana passada (1/3), não perguntei nada a respeito dos delitos cometidos pelas entrevistadas. Sou médico, não juiz.”

Confira a nota oficial no Twitter:

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Fotos: Reprodução/Globo


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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