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Editorial: o Brasil que se incomoda com o termo ‘pretinhos’ e faz vista grossa ao racismo

por: Redação Hypeness

Kabengele Munanga, antropólogo nascido no Congo e doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, é autor de um livro definitivo sobre a construção identitária do negro no Brasil. 

Em ‘Negritude – Usos e Sentidos’, uma das maiores autoridades no estudo da diáspora debate os elementos que formam o sujeito negro brasileiro dos tempos atuais. Uma espécie de guia para quem ainda não se entendeu negro, afinal o racismo ganha vida no apagamento, a publicação mostra como o Brasil sabe pouco ou quase nada da história do povo que o fundou e responde por 54% do total de pessoas que habitam a terra que mais recebeu homens, mulheres e crianças vindos de África na condição desumana de escravizados no mundo. 

O Hypeness tem a diversidade racial e a representatividade como um de seus valores editoriais maiores. Dias atrás, uma matéria sobre o amor de dois jovens pretinhos, ambos do sexo masculino, causou rebuliço nas redes pelo uso do termo “pretinho”.

A racialização não parte dos pretinhos e pretinhas do Brasil

Muita gente se escandalizou com a opção do portal de empregar tal termo. O escândalo e o alvoroço causados, sobretudo pelos que se dizem comprometidos com a equidade racial, demonstra que ainda é preciso caminhar muito. Na verdade, é necessário que os que se apresentam como não-negros assumam o compromisso de entrar de cabeça na, como bem disse Angela Davis, luta antirracista

Você, caro leitor e leitora, já parou para pensar no que te causou incômodo (SE te causou incômodo) em uma manchete exaltando o amor?  Se o emprego do termo pretinho  estiver à frente de tantos outros signos, é necessário que haja uma revisão de entendimento sobre os efeitos causados pelo racismo na vida de pessoas pretas, como o casal retratado na matéria. 

Talvez você estivesse priorizando o seu incômodo em assumir que existe racismo no Brasil sim. E que, muitas vezes, ele não é velado, embora as pessoas pensem que o problema foi curado depois da abolição da escravatura há mais de 100 anos. 

Talvez você estivesse priorizando o incômodo de assumir que pretinhos como os da matéria existem e assumem sua identidade racial, ao invés de escondê-los nas mantas de ‘moreninhos’ ou ‘bronzeados’, que por sua vez, é bordada pela crença do “somos todos iguais”.

Aos fatos 

O Atlas da Violência de 2019, como publicou o Alma Preta,  mostrou que 75% das vítimas de homicídios no Brasil foram negras. Jovens com o perfil de Thiago Magalhães e Luiz Eduardo – os pretinhos personagens da matéria –  morrem quatro vezes mais do que os brancos

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou estudo em 2017 mostrando que o assassinato de negros e pardos entre 15 e 29 anos bateu os 185 em grupos de 100 mil habitantes. Ou seja, 63,5. Por outro lado, a quantidade de mortes de brancos na mesma faixa etária registrou queda para 34 em grupos de 100 mil habitantes. Leve em consideração o fato de que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQ+ no mundo. Bingo! 

“Como se percebe, o conceito de identidade recobre uma realidade muito mais complexa do que se pensa, englobando fatores históricos , psicológicos, linguísticos, culturais, político-ideológicos e raciais”, diz o professor Kabengele Munanga em citação de 1988. 

As identidades dos jovens negros no Brasil são tão importantes quanto suas vivências e a luta contra sua mortalidade. Eles não podem ser negros somente quando estão morrendo, perdendo oportunidades no mercado de trabalho ou sofrendo racismo em casos que viralizam na internet para que pessoas brancas possam se mostrar indignadas e depois seguir a vida. Suas identidades são importantes também quando eles estão felizes, vivendo, sobrevivendo, amando.

Grada Kilomba, que recentemente expôs na Pinacoteca de São Paulo a mostra ‘Desobediências Poéticas’, é enfática ao dizer que o racismo é um problemática branca. Para a artista, a discriminação obriga os negros a lidarem com algo que não criaram. 

“É uma pergunta interessante. O racismo é muito complexo, lida com uma série de alienações e uma das alienações é exatamente a de que eu, enquanto pessoa e mulher negra, posso ter meu dia a dia interrompido e ser forçada a lidar com uma questão que não me pertence a princípio. Sou forçada a lidar com uma série de fantasias e de fantasmas que não são os meus. O racismo nos usa como depósito de algo que a sociedade branca não quer ser. Algo que é projetado em mim e eu sou forçada neste mise en scene, nesta encenação, a ser a protagonista de um papel que não é meu e com o qual eu não me identifico”, explica à Ponte.

Gritaram-me negra!

Séculos a fio e até os dias de hoje paira no Brasil um silêncio constrangedor quando se refere ao negro e tudo que o envolve em suas intermináveis diferenças. Desde que os portugueses chegaram aqui com suas caravelas repletas de famílias de pessoas vindas de África, dos mais diferentes países e em condições subumanas, a questão do negro se tornou um bode na sala da família brasileira. 

Isso passa, obviamente, pela falta de tato que muita gente tem quando vai conversar com uma pessoa da pele cor da noite, poesia cantada pelos quatro pretos mais perigosos do Brasil: Mano Brown, KL Jay, Edi Rock e Ice Blue, os Racionais MC’s. 

A questão faz lembrar o desabafo em forma de arte de outra pensadora e intelectual negra. Victoria Santa Cruz foi uma poeta, coreógrafa, folclorista, estilista e ativista que revolucionou a cultura afro-peruana e do país como um todo nas décadas de 1960 e 1970. 

Victoria Santa Cruz – a peruna que usou a arte para afirmar a negritude

É dela a performance/desabafo ‘Gritaram-me negra’, que fala justamente sobre o efeito do racismo na insistência das pessoas em não tratarem o negro como ele é: NEGRO. 

‘Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum dissabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!’

 

O desabafo de Victoria é o mesmo que ainda sai da garganta de homens e mulheres negras. Pretinhos e pretinhas que ainda precisam conviver com questionamentos ou incômodos tão menos urgentes quanto o reconhecimento de que o racismo é o maior problema do Brasil. De que jovens negros estão sendo mortos aos montes. 

O Hypeness prefere exaltar o amor, que é sim negro, em suas mais variadas formas. Afinal, como cantou Rincon Sapiência, ‘faço questão de botar no meu texto que pretas e pretos estão se amando’. 

Fica o convite para que negros e negras se apropriem de sua história – assim como o homem e a mulher negra que assinam este editorial. ‘Sim, sou um negro de cor’, não é mesmo Wilson Simonal?

E aos incomodados, vamos refletir? Talvez o dia em que ser preto no Brasil não seja motivo de menos oportunidades ou que te faça ter que ser duas vezes melhor pra chegar ao mesmo lugar que um branco chegou, não precisemos mais destacar que dois pretinhos estão celebrando três meses de namoro.

* O texto deste editorial foi escrito pelos jornalistas Karol Gomes, repórter, e Kauê Vieira , Editor-Assistente.

Victoria Santa Cruz – ‘Gritaram-me negra’

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Fotos: Reprodução


Redação Hypeness
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