Inspiração

‘Envaidece a viadagem’: gay e negro, ele usou a tatuagem para superar o preconceito com si mesmo

por: Karol Gomes

Depois de anos se odiando, foi só com a ajuda de profissionais de saúde mental que Luan Silva, de 29 anos, superou traumas de infância causados pela homofobia e pelo racismo. Como escreveu em depoimento no Twitter,  “sua maior fraqueza se tornou a maior força”.

Para marcar essa reviravolta na vida, ele fez uma uma tatuagem que reinventa sua trajetória: com a bandeira que representa as pessoas LGBTQs e um punho cerrado, Luan escreveu em sua perna uma frase da música ‘Bixa Preta’, da cantora Linn da Quebrada: “A minha pele preta é meu manto de coragem, impulsiona o movimento e envaidece a viadagem”.

Como ele mesmo se define, Luan sempre foi um ‘gay afeminado’ e teve episódios de autoagressão na infância desde quando tinha 10 anos. Ele entrou em depressão e chegou a tentar suicídio diversas vezes: tomou veneno de rato, tentou se afogar e se eletrocutar. Hoje, seu quadro é acompanhado em terapia e controlado.

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Ele decidiu compartilhar a própria história online após ver a seguinte pergunta em um tweet: “qual foi a coisa mais triste que vocês fizeram na infância de vocês por causa do racismo?”. Luan e sua tatuagem viralizaram, inspirando muitas pessoas. 

Em entrevista para o Universa, ele diz que a construção de sua identidade foi atingida por preconceitos e sentimento de exclusão desde muito cedo: por ser negro, era o único da sala de uma escola particular e era visto como feio’; por sempre ter sido afeminado, ouvia comentários pejorativos a respeito de sua sexualidade e se sentia frustrado nas tentativas de manter relacionamentos heterossexuais, forçados por uma heteronormatividade social.

A história de Luan prova que representatividade importa: sem referenciais positivos da negritude e sendo um potencial alvo da LGBTQfobia na infância, ele chegou a se odiar tanto que precisou buscar ajuda para cuidar de si mesmo. Isso porque, na pré-adolescência, Luan teve um quadro de depressão e tentativa de suicídio.


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“As tentativas foram entre os 10 e 11 anos, aos 12, eu estava numa espécie de torpor. Aos 13, iniciei a terapia”, disse ao site, destacando a importância do cuidado com a saúde mental tanto pela população negra quanto pelas pessoas LGBTQs.

Foi por meio da terapia que ele percebeu que o racismo e a homofobia eram as principais razões de ter os pensamentos suicidas. Luan teve que ocultar que sentia atração por homens e fingir por muito tempo que gostava de mulheres.

“Ao mesmo tempo, sempre fui afeminado, por mais que algumas características tinham sido tolhidas; e a gente sabe que, em nossa sociedade machista homofóbica, esse é um dos motivos para a gente sofrer”.

A tatuagem com os versos de Linn da Quebrada, diz Luan, se tornou uma forma de expressar a potência e a representatividade que a ‘Bixa Preta‘ ganhou em sua vida. “Quando eu ouvi a música pela primeira vez, foi mágico. Porque cada frase tem uma similaridade com minha história de vida. Ela virou um mantra para mim”

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E a musa inspiradora do designer já viu a homenagem. Linn comentou no Twitter: ‘Coisa mais linda‘. Até agora, a publicação da tatuagem teve mais de 59 mil likes.


Para Luan, a publicação carrega vários sentidos: trazer o debate sobre o orgulho de ser negro e a visibilidade para as questões de identidade de gênero e orientação sexual. Falar da saúde mental da população negra também foi uma de suas intenções com o post.

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Fotos: Arquivo Pessoal


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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