Debate

Faxina agendada por R$ 19,90? App traz debate sobre precarização do trabalho

por: Redação Hypeness

Dia após dia temos encontrado na internet fotos históricas que demonstram a precarização do trabalho em tempos de aplicativos de serviços. A estrela da vez é a faxina, um dos serviços propostos pela startup Parafuzo. A ideia é que as pessoas, sobretudo jovens que acabaram de iniciar a vida morando sozinhos, contratem diaristas para limpar suas casas por preços baixos. 

A chamada faxina agendada oferce ao cliente a oportunidade de ter a residência organizada gastanto R$ 19,90 na primeira contratação. Pechincha, não é? Só que não! A proposta dominou o debate no Twitter, principalmente por ser mais um exemplo da precarização do trabalho em uma área historicamente marcada pela falta de estrutura e o racismo.

A lógica de ganhar muito e pagar pouco para quem trabalha duro

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Ao invés de dar oportunidades, o modelo de negócio se aproveita da situação de necessidade de muitas pessoas para pagar pouco e ganhar muito. Segundo pesquisa de 2019 da Revista Exame, mais de 6 milhões de brasileiras trabalham como empregadas domésticas no Brasil e, três anos depois da PEC das Domésticas cujo objetivo é formalizar o trabalho da classe, 70% ainda está em situação de informalidade. 

A ação é problemática em diferentes níveis. Apesar da propaganda estrelada por pessoas brancas, a empregabilidade por meio da faxina é também uma questão de raça e racismo: de acordo com pesquisa de 2018 do IBGE, entre as domésticas dois teços são negras. Aqui pra nós, nem precisava de pesquisa para constatar o óbvio. Como observou Preta Rara em seu livro, ‘Eu, Empregada Doméstica’, o preconceito estrutural ainda tira oportunidades de trabalho e a profissão de doméstica é passada de forma hereditária entre mulheres negras

– Página no Facebook reúne relatos de experiências vividas por empregadas domésticas no Brasil

Diante desse cenário, este é o novo tipo de serviço a ser explorado pelos modelos de aplicativos: a faxina. Foi o que concluiu o estudo de caso de User eXperience Design (UXD) desenvolvido durante o curso de UXD da Tera, 2019, pelos pesquisadores Viviane Delvaux, Clara Lemos, Clara Fialho, Gabriela Amaral, Gustavo Miranda e Gustavo Adami. 

O grupo entrevistou 7 diaristas, sendo 5 usuárias de aplicativos de serviços de limpeza e 2 que não usavam aplicativos, conseguindo seus serviços através de indicação de outras diaristas.

“Para cada profissional convidada, pedimos indicações de outras diaristas que usassem aplicativos, mas muitas não aceitaram ser entrevistadas por medo de retaliação dos aplicativos que usavam. Isso corroborou com nossa hipótese de que os aplicativos não eram feitos para ela”, relata Vivi na pesquisa publicada no Medium. Com as 2 profissionais que não usavam aplicativos, o grupo falou sobre suas realidades de vida e trabalho, a fim de colher insights úteis para a melhoria da experiência nos aplicativos.

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A Parafuzo respondeu o tuíte de Andreza tentando justificar a promoção e explicar sua escala de cobrança e pagamentos, mas não teve muito sucesso. Um usuário respondeu a empresa perguntando: “quanto vocês ganham para explorar pessoas sem tirar a bunda da cadeira?” e outro disse: “é muito cinismo”, referindo-se ao posicionamento da startup. 

A faxina agendada se junta aos apps de comida, que não oferecem ao trabalhador vínculo com o restaurante ou com a empresa dona do serviço, que não fornecem locomoção. Para não perder a oportunidade, ele aluga uma bicicleta em estações colocadas por bancos para entregar a comida para o consumidor final – ele também não tem vínculo empregatício com os dois últimos. Recebe por número de entregas, passa o dia nas ruas em situação de risco e não tem a quem recorrer caso sofra um acidente, por exemplo. 

Vale apontar: ao mesmo tempo que os millennials estão defendendo a classe e exigindo melhores condições de trabalho, o que eles têm feito dentro das próprias casas? Assumir responsabilidades do lar é um caminho para reduzir esse tipo de trabalho que é herança da era escravocrata no Brasil. 

Parafuzo se manifesta

Em nota, a startup afirmou que o “‘Limpeza Express’ é um serviço em fase de testes da Parafuzo, tendo sido lançado em agosto de 2019”. O texto informa que a Parafuzo disponibiliza a opção apenas para “anúncios específicos” e que foi construído “um material explicando como esse preço é possível e abrindo alguns dados de remuneração média dos Profissionais que trabalham utilizando a Parafuzo”.

A empresa ressalta que o profissional de limpeza não recebe a quantia de R$ 31 por um dia inteiro de trabalho, mas “para executar 5 tarefas pré -determinadas e com uma duração máxima de 1h30”. 

A íntegra do texto publicado no site oficial da Parafuzo: 

“Nos últimos dias, muitas pessoas vieram nos questionar sobre o valor praticado pela Parafuzo nos serviços de Limpeza Express. Até pelo tamanho da nossa equipe, não conseguimos responder a todos, por isso produzimos esse conteúdo para que você possa entender melhor como funciona esse serviço e ter mais informações e contexto sobre a Parafuzo.

Nós temos um compromisso forte de construir uma plataforma que ajude Profissionais parceiros a complementarem sua renda e ajudar pessoas que precisam dos seus serviços a encontrarem esses profissionais. Trazer valor tanto para Profissionais quanto para clientes é o que nos motiva a seguir em frente, e sem esse compromisso não estaríamos há 5 anos no mercado.

O serviço de Limpeza Express é um serviço em fase de testes da Parafuzo, tendo sido lançado em agosto de 2019. Disponibilizamos esse serviço apenas em anúncios específicos de modo a entender se existia aderência do lado dos Profissionais e dos clientes. Isso é importante, pois não podíamos lançar um serviço que não fizesse sentido para o Profissional parceiro. Com base nisso, construímos um material explicando como esse preço é possível e abrindo alguns dados de remuneração média dos Profissionais que trabalham utilizando a Parafuzo”.

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Foto: Getty Images


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