Ciência

Gripe espanhola: esnobada, pandemia parou o Rio, matou 50 milhões e o presidente

por: Vitor Paiva

A pandemia do coronavírus é para a absoluta maioria de nós uma situação inédita e sem precedentes, mas em verdade a humanidade já enfrentou dilemas similares diversas vezes, e há não muito tempo: pouco mais de 100 anos atrás a gripe espanhola provocou crise semelhante e de intensidade (por enquanto) ainda maior. Entre janeiro de 1918 e dezembro de 1920 mais de 500 milhões de pessoas se infectaram pela gripe (o equivalente a um quarto da população mundial de então) e algo entre 17 e 50 milhões de pessoas vieram a falecer.

– Do coronavírus a gripe espanhola: as maiores pandemias da humanidade

Apesar do nome, a gripe surgiu provavelmente nos EUA, e chegou no Brasil de navio, tirando a vida de mais de 35 mil brasileiros – entre eles o então recém eleito presidente Rodrigues Alves para um segundo mandato que não chegou a cumprir. Com informações do jornal O Globo.

Enfermeira em 1918 nos EUA, onde provavelmente a pandemia começou © Biblioteca do Congresso/AP

O vírus que espalhou-se pelo mundo no início do século XX, em pleno período final da primeira guerra mundial, era um subtipo do Influenza A / H1N1. O “apelido” da gripe se deu por um motivo em verdade nobre, que hoje se impõe como a principal lição que podemos tirar da Gripe Espanhola para a atual pandemia do coronavírus: diferentemente da maioria dos países afetados, a Espanha não manteve escondida a gravidade do problema, os estragos do vírus e a dificuldade da situação em segredo – pois, assim como hoje, uma das dinâmicas mais letais da época foi a demora para reações em massa, a descrença no poder do vírus, e o silêncio das autoridades com relação à população e o que deveria ser feito.

Hospital de campanha nos EUA © Wikimedia Commons

A censura vigorou em muitos países, que simplesmente esconderam o vírus de suas populações, e mesmo no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, as notícias eram tratadas como piadas, em tom de brincadeira ou como mal inofensivo – e qualquer semelhança com a postura de certas autoridades atuais não é mera coincidência. A velocidade das mortes foi assombrosa, e em questão de meses a capital chegaria a contabilizar mil mortos em um único dia. Em 16 de janeiro de 1919, o presidente reeleito Rodrigues Alves também veio a falecer por conta da gripe no Rio, cidade onde morreriam cerca de 15 mil pessoas. Em seu lugar assumiu o vice Delfim Moreira, até a convocação de uma nova eleição – a constituição de então previa que o vice só assumia em definitivo caso o presidente deixasse o cargo depois de dois anos de sua posse.

Jornal carioca em outubro de 1918 © reprodução

Foi o médico Carlos Chagas quem estabeleceu a quarentena, o isolamento dos navios e a notificação imediata e compulsória de casos como único meio para contenção da pandemia, que se tornaria o pior mal de todo o século. No final de 2020, não se sabe se por melhorias nos tratamentos, pelo desenvolvimento de imunidades ou por mutação do vírus para uma versão mais frágil e menos letal – e provavelmente por uma combinação desses e outros fatores – abrandaram o vírus.

Cariocas pobres afetados pela gripe espanhola © reprodução

Reza a lenda que a caipirinha teria nascido desse período, quando a população combinava cachaça, mel e limão como elixir para combater a gripe, mas há mais que podemos herdar para a situação atual: higiene, limpeza das mãos, quarentena, distanciamento social, investimento pesado em saúde e ciência, oferecimento de uma base financeira do estado para as populações, realização de testes e disseminação de informações verdadeiras e comprovadas são as únicas armas eficazes para se combater uma pandemia, seja em 1918, seja em 2020.

© reprodução

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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