Reportagem Hypeness

Índia: brasileiros em quarentena relatam xenofobia e assédio: ‘Ele mexeu nas partes íntimas’

por: Kauê Vieira

Além de causar preocupação em especialistas membros da Organização Mundial da Saúde (OMS), a disseminação da pandemia do novo coronavírus atingiu em cheio brasileiros em trânsito pelo exterior. Entre milhares de pessoas presas em aeroportos nos mais variados países do globo, o Hypeness conseguiu contato com um grupo de brasileiros isolados na Índia. Pelo menos 178 pessoas esperam repatriação. A organização do grupo é liderada por Rodrigo Parreira, que está neste momento baseado em Jaipur. 

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“As coisas mudaram, a gente tem que provar para o mundo inteiro que a Índia é prioridade, que o potencial epidêmico é muito grande, porque estamos falando da segunda maior população do mundo. A estrutura de saúde não é como a da China. A gente ficou apreensivo, porque vemos que a situação está ruim em vários países e a gente brigando para entrar na mídia”, diz ele em conversa por telefone com o Hypeness.

Há pouco mais de cinco dias, a Índia deu início ao maior processo de confinamento do mundo. Pelo menos 1,2 bilhão de pessoas estão proibidas de sair às ruas por 21 dias, segundo decreto do primeiro-ministro Narendra Modi. 

“Peço que você fique aonde quer que você esteja neste país. Na atual situação, a quarentena será por 21 dias, e se nós não administrarmos bem esses 21 dias, o país retrocederá 21 anos. Algumas famílias serão destruídas para sempre”, afirmou Modi em pronunciamento na TV. 

O primeiro-ministro, Narendra Modi, estabeleceu 21 dias de isolamento

Índia em quarentena por coronavírus

O avanço da Covid-19 não só alterou os planos de muitos estrangeiros, entre eles os brasileiros, mas os colocou em uma situação de risco. Diante dos 519 casos positivos e 10 mortes até o momento, cidadãos de outros países se tornaram alvos de ataques e até agressões xenófobas de alguns indianos. 

“A única coisa que eu sofri foi ser chamado de corona, isso acontecia muito antes da quarentena”, diz Rodrigo que desembarcou no dia 7 de março. “Todo mundo sabia disso, mas tudo bem porque ninguém encostava em mim. Eu deixei isso pra lá, mas acabei vendo que isso é uma coisa que acontece com outras pessoas”. 

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Os relatos de xenofobia brotam do documento montado por Rodrigo para reunir os brasileiros que querem voltar para a casa. Tiago Mendonça, que está em Varanasi, relata que chegou a receber pedradas no meio da rua. 

Cheguei em Cherrapunjee, cidade em que fui convidado a me retirar pelas autoridades locais por ser estrangeiro. Eu e meu amigo mexicano fomos hostilizados, chegaram arremessar uma pedra enorme, tipo um paralelepípedo, no telhado de nossa guesthouse. A paranoia está criando um sentimento de repúdio aos estrangeiros/turistas. 

O aumento da hostilidade, seja da polícia ou de parte da sociedade é o temor de 30% dos brasileiros presos na Índia. A pesquisa feita por Rodrigo mostra ainda que a falta de uma rede de apoio e a demora na tomada de decisões por parte do Itamaraty tiram o sono de todos. 

“Estou agindo em nome dessas outras pessoas que me deixaram chocado. Quando chegou o depoimento da grávida que estava racionando comida  e relatos de assédio sexual, decidi que não dava para ficar quieto”, explica Rodrigo, que está em um hostel que se voluntariou a trabalhar sem salário para ajudá-lo. 

‘Não há um plano efetivo’ 

O Itamaraty disponibilizou um canal de atendimento para os brasileiros que estão impossibilitados de se deslocar no exterior. Rodrigo, no entanto, reclama da falta de ação. 

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“Ainda estamos descrentes, pois sabemos que a situação não está nada fácil. A questão com o Itamaraty é que eles respondem rápido, possuem uma linha de emergência, entretanto a sensação é que eles descobriram o lockdown de 21 dias com a gente”. 

Rodrigo enviou ao Hypeness um áudio atribuído ao Itamaraty. “A nossa recomendação é que você tente sair da Índia assim que os voos sejam normalizados, o que deve acontecer a partir do dia 31 [de abril] mais ou menos”. 

Índia em quarentena por coronavírus

Índia em quarentena por coronavírus

Ele relata que o governo indiano está empenhado na contenção do vírus e o confinamento é levado a sério por autoridades do governo. 

“Foi um dos primeiros países a tentar controlar mais rápido e fechar fronteira de saída. Desde que eu cheguei aqui, [em Jaipur] via os hostels se esvaziando de turistas, o que acabou com muitos estabelecimentos antes da quarentena. No dia 22, teve um lockdown que nem app de comida funcionava. No dia 22, eu vi uma mensagem no Twitter do Itamaraty pedindo para que todos que estivessem na Índia os contactassem imediamentamente. Recebi um áudio [do Itamaraty] dizendo que as coisas se normalizariam até o dia 31. Não foi o que aconteceu. O anúncio do primeiro-ministro de um lockdown por 21 dias deixou todo mundo surtado”, assinala Rodrigo, que garante manter conversas com o órgão do governo federal brasileiro. 

Quando a Índia diz lockdown, é lockdown. O pessoal do hostel não me deixa sair, a polícia dá paulada de bambu na rua. O que me preocupou em relação aos brasileiros é a questão dos que tiveram passaporte confiscado e foram extorquidos para pegar de volta. Teve polícia que invadiu casas com estrangeiros e botou todo mundo em quarentena. Tem muita gente que enxerga brasileiro como portador do vírus, explica o rapaz que só saiu uma vez do hostel para ir ao caixa eletrônico e supermercado. 

Assédio e machismo na quarentena

Claudia Lima, de 50 anos, é uma das brasileiras que sente na pele a hostilidade e o medo de estar presa em outro país. Ela, que mora em Sorocaba, interior de São Paulo, desembarcou na Índia no dia 5 de fevereiro para um retiro espiritual, mas não conseguiu retornar ao Brasil em 5 de abril em função da quarentena. 

“Até antes do lockdown estava protegida dentro de um hotel muito bom. Depois do lockdown, nenhum dos meus amigos indianos poderiam me ajudar. Aconteceram coisas horríveis comigo, comecei a ser perseguida pelos funcionários do hotel, que não estavam mais aceitando estrangeiros”, conta ao Hypeness

Índia em quarentena por coronavírus

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A brasileira revela que ouviu do administrador do hotel que deveria entregar os documentos. “Pediram meu passaporte e eu ingenuamente dei o documento na mão deles e eles disseram que iam entregar o passaporte aos policiais, que fariam exames e me deixariam numa quarentena”, diz Claudia que afirma não apresentar sintomas do coronavírus e que foi expulsa do hostel sem ter o dinheiro de volta. Ela os acusa de terem roubado cerca de 5 mil rúpias. 

A gaúcha ressalta que conseguiu passar uma noite na casa de um amigo indiano, mas precisou ir embora por causa de uma tentativa de assédio sofrida na casa da família. 

Fiquei porque em uma situação dessas você não quer ficar no meio da rua. Desconfiada, eu tranquei as portas e durante a noite o filho do dono bateu  insistentemente e eu não abri. No dia seguinte de manhã, ele veio com a história de que não poderia me abrigar porque sou estrangeira. Se eu quisesse ficar [disse ele] – ele mexeu nas partes [íntimas] demonstrando um estado que já estava, entende? Ou seja, que eu trocasse alguma relação pela estadia. 

Claudia Lima tem depressão e conta nos vídeos enviados ao Hypeness que a situação vivida nesta casa prejudicou ainda mais seu estado. Ela narra que está em um quarto pequeno, mas evita até tomar sol com medo de ser vista pelas pessoas. 

“Eu faço meditação, então estou tentando voltar ao estado normal de consciência, o que é bem difícil, dado que tenho uma doença diagnosticada como transtorno bipolar. É bem complicado pra mim. A reserva de remédios já acabou e eu não tenho condições psicológicas adequadas no momento. A sorte é que estou isolada. Tenho sido perseguida pela rua e emagreci de 5 a 8 quilos.  Minha saúde mental não está nada boa”, atesta ela que diz manter contato com a família. 

Ainda não há uma previsão de resgate dos brasileiros presos na Índia em meio ao isolamento que segue por 21 dias.

Fotos mostram como a Índia vive quarentena para impedir disseminação do novo coronavírus:

 

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Fotos: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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