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Italiano há 30 anos isolado em ilha dá aula sobre quarentena

por: Vitor Paiva

Ainda não sabemos quanto tempo de fato nossa atual quarentena irá durar, e pra nós, acostumados com cruzar grandes cidades em instantes como parte de verdadeiras multidões de transeuntes em veículos particulares, transportes públicos ou simplesmente nas calçadas, é natural que algumas semanas em casa possam se tornar pequenos pesadelos. Astronautas acostumados com o isolamento da estação espacial, por exemplo, ganharam as redes para dividir dicas e impressões sobre o momento atual, mas ninguém parece melhor para tal aconselhamento do que Mauro Morandi, que há 31 anos vive sozinho isolado em uma ilha no mar mediterrâneo.

Como se não bastasse, Morandi é ainda italiano, e “sua” ilha é na costa da Sardenha – ele se isolou de um dos países mais afetados pelo coronavírus. Sua chegada na ilha se deu por acidente em 1989, quando o então professor tentava cruzar da Itália à Polinésia: ao descobrir a ilha, Morandi se apaixonou pelas águas cristalinas e o incrível pôr-do-sol, e decidiu ficar, tornando-se o único morador da Ilha de Budelli, como uma espécie de zelador, hoje com 81 anos, do local conhecido como “praia rosa”.

Detalhe da ilha, em foto tirada pelo próprio Morandi

Morandi mora em uma rudimentar cabana de pedras e se mantêm conectado com o resto do mundo através de um smartphone e nada mais. Atualmente ele diz se sentir no “lugar mais seguro do planeta”, sem qualquer temor pelo vírus. “Essa ilha me oferece proteção total. Nenhum risco. Ninguém chega, barco nenhum é visto no horizonte”, ele diz. Mas o ermitão italiano está, como todos nós, preocupado com seus familiares e amigos em Modena, no norte da Itália, uma das regiões mais atingidas pelo coronavírus.

A casa de Morandi

Para passar o tempo, Morandi, além de observar a natureza, cuidar da ilha e de sua casa e de preparar suas refeições, gosta de ler. “Eu leio e penso muito. Muita gente tem medo de ler pois podem começar a meditar e pensar sobre as coisas, e isso pode ser perigoso”, ele diz. “Se você começa a ver as coisas por um foco diferente, você pode começar a perceber a vida miserável que vive, ou a pessoa terrível que você é, ou as coisas ruins que fez”, ele diz, fatalista.

Mas ele também gosta de tirar fotos, edita-las e posta-las no Instagram. “Eu tenho muitos seguidores”, diz, sobre as mais de 41 mil pessoas que acompanham suas lindas postagens. Segundo Morandi, ainda que saiba que visitas eventuais, que muitas vezes levam alimentos, não virão tão cedo, ele tem tudo que precisa. “Tenho eletricidade, água corrente e um forno”, afirma. “Eu sei que a jornada mais bonita aventureira e gratificante é pra dentro de nós, esteja você em sua sala ou aqui em Budelli. É por isso que ficar em casa e não fazer nada pode ser tão difícil pra tanta gente”, diz, concluindo que nunca se sente só.

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© fotos: Instagram


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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