Entrevista Hypeness

Jornalista relata como está a quarentena na Espanha: ‘sair de casa pode custar 600 euros’

por: Mari Dutra

Meu primeiro contato com o Coronavírus foi um encontro às cegas. Dia 16 de fevereiro, aterrissei em Roma vindo da Espanha para uma viagem rápida e fui surpreendida por uma inspeção médica no aeroporto. Pessoas vestidas com roupas pós-apocalípticas. Ao que parece, passei no teste preliminar, que deveria descartar a hipótese de que algum dos passageiros chegando à Itália estivesse contaminado com o COVID-19.

Tudo parecia ridículo e exagerado. Eu estava viajando há mais de 20 dias e acompanhando as notícias esporadicamente, mas o Coronavírus ainda parecia um desastre horrível que tinha acontecido na China e não no nosso quintal.

Passei três dias em uma Roma lotada de turistas. Zero preocupação. Na Fontana di Trevi, pessoas passavam as mãos na cara inadvertidamente, estendiam um celular que não havia sido desinfetado para que desconhecidos tirassem fotos, tossiam em público.

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Multidão de turistas em volta da Fontana di Trevi, em Roma

Fontana di Trevi em 17 de fevereiro

Quando voltei para a Espanha, país que resolvi chamar de lar há cerca de um ano, o mundo ainda parecia estranhamente o mesmo. Era dia 19 de fevereiro. Dois dias depois, começaram as notícias de que algumas cidades no norte da Itália haviam sido postas em quarentena devido ao Coronavírus. O país inteiro foi fechado no dia 9 de março.

Até então, a Espanha ainda parecia um lugar seguro para estar e não havia indícios de que, em pouco mais de um mês, o país registraria mais mortes devido ao COVID-19 do que a China.

Talvez fosse inocência. O primeiro caso de Coronavírus na Espanha havia sido registrado no dia 31 de janeiro, na ilha de La Gomera. No continente, os casos começariam a ser notificados apenas em 26 de fevereiro, com uma pessoa diagnosticada em Barcelona.

Pouco mais de um mês depois, passou a fazer parte de uma mórbida rotina acordar e ver a contagem de casos, o número de mortos, os recuperados. Os números oficiais são divulgados diariamente pela conta do Twitter responsável por difundir informações sobre saúde pública na Espanha (@SaludPublicaES).

A última contagem registrava mais de 85 mil casos confirmados, cerca de 5 mil pessoas em cuidados intensivos, 7.300 mortos e 16.700 pacientes recuperados. Mas, assim como no Brasil, estes números estão longe da realidade.

Não há testes para todos. O governo espanhol, em uma possível jogada política, adquiriu 640.000 testes defeituosos vindos da China.

Em uma jogada menos política, a quarentena oficial foi decretada no dia 13 de março, o que significa que já completamos a segunda semana de confinamento com sucesso.

Os anúncios chegaram antes disso. Em 29 de fevereiro, foi interditado o acesso à estátua mais emblemática de Girona, cidade turística de 100 mil habitantes a cerca de 1h30 de Barcelona, onde vivo durante a quarentena: o “Cul de la Lleona“.

Trata-se de uma estátua de uma leoa tradicionalmente visitada pelos turistas com o objetivo único de beijar seu traseiro. Colar os lábios na bundinha da leoa, dizem, é garantia de voltar à cidade.

A prefeita de Girona percebeu rapidamente que não era interessante compartilhar beijos em estátuas em tempos de pandemia e mandou proibir o assédio à felina de pedra assim que o primeiro caso de Coronavírus na região foi confirmado.

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Estátua de uma leoa interditada na cidade de Girona

O acesso ao traseiro da estátua foi interditado devido ao Coronavírus

Quarentena na Espanha

Os primeiros dias da quarentena foram tomados pelo espírito de esperança que víamos pelas sacadas. Os vizinhos colocavam música, tomavam seu café olhando para a avenida, conversavam sobre a vida.

Praticamente todos os dias havia um show nas sacadas ou nos terraços do Barri Vell, ex-região turística de Girona, onde foram gravadas diversas cenas do seriado Game of Thrones. Acostumados aos famosos circulando pelas ruas, os habitantes da cidade trocaram de ídolos: aplausos aos profissionais sanitários aconteciam pontualmente às 20h.

Há 15 dias não é mais permitido sair de casa acompanhado. Sozinho, apenas com uma justificativa e mantendo distância mínima de 1 metro de outras pessoas. Estes hábitos se tornaram o nosso novo normal e desrespeitá-los está sujeito a multas que variam entre 600 e 30 mil euros.

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Parque infantil com um cartaz que avisa que a entrada não é recomendada

Os parques da Espanha foram fechados devido ao Coronavírus

Nem todos lidaram bem com o confinamento. Houve momentos em que a felicidade das sacadas era trocada por insultos a quem está na rua, como os simpáticos vizinhos que gritaram algo como “tá fazendo o que na rua, idiota” no dia em que precisamos sair para comprar comida.

As exceções são claras e poucas. Basicamente, pode-se sair para fazer compras, ir à farmácia e ao banco, realizar trabalhos considerados essenciais, cuidar de idosos e dependentes, passear com cachorro, tirar o lixo. Cada caso tem as suas próprias regras e elas vão sendo alteradas com frequência.

No supermercado, pede-se para usar luvas descartáveis e respeitar a distância exigida, algo quase impossível em alguns ambientes. Certos estabelecimentos não aceitam pagamentos em dinheiro, para evitar que os funcionários tenham contato com as notas – possíveis vetores de contágio.

Também não é permitido levar crianças ao mercado. Famílias monoparentais não tem saída a não ser deixar os filhos sozinhos em casa, conforme me contou uma mãe solo de um menino de três anos, cuja entrada foi barrada em um estabelecimento.

Ainda assim, os primeiros dias eram de escassez de alimentos e de papel higiênico. Feijões, lentilhas e grão-de-bico eram artigos de luxo. Massas, arroz e carnes sumiram das prateleiras. Com o passar do tempo, os estoques foram repostos e os carrinhos de compras voltaram à normalidade.

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Prateleiras vazias nos supermercados da Espanha dias antes do início da quarentena

Supermercados na Espanha dias antes do início da quarentena

As feiras continuam funcionando, mas as barracas são cada vez mais escassas, assim como os visitantes. Os feirantes que costumavam ser discretos, hoje anunciam as promoções em voz alta, tentando assegurar as vendas a todo custo.

Na farmácia, uma pessoa de cada vez. O próximo da fila deve esperar na porta até o final do atendimento. Nesse intervalo, é possível ler e reler o cartaz quase onipresente que avisa “No tenim mascarilles” (“Não temos máscaras”, em catalão).

Consultas médicas que não envolvam urgências foram canceladas. Escolas, universidades e outras atividades educativas estão suspensas, assim como todo o comércio e indústria que não envolva atividades essenciais.

Cachorro em tempos de Coronavírus

Passeios com cachorros são permitidos e encorajados, desde que rápidos e próximos de casa. Quem se aventura a ir um pouco mais longe de casa está sujeito a multas. Não passa um dia sem que eu encontre com os oficiais de polícia rondando a cidade em busca de possíveis infratores. Mais de 800 pessoas já foram sancionadas em Girona por desrespeitar o confinamento.

Há 15 dias, venho tentando convencer um cachorro de porte médio de que uma volta na quadra é suficiente para ser feliz e aproveito para tentar me convencer também. No restante do dia, ela tem um apartamento de cerca de 40 metros quadrados para se entreter, depois de lavar as patinhas e o rabo com álcool na chegada à casa.

Num destes rápidos passeios, fomos paradas por uma senhora, também acompanhada do seu cachorro. Começou pedindo desculpas pela máscara e explicou alguma coisa que não entendi. Rompeu a distância exigida por lei e quase tocou o meu braço para contar que não aguentava mais.

Aos 82 anos, já havia visto muita coisa, mas nada como isso. Falou que quando era jovem, a tifo levou muita gente. Que há dois anos o seu marido morreu atropelado, os filhos sempre ocupados, o cachorro era uma companhia. E falou que não se importava mais: “me puede llevar“; era sua declaração sobre o Coronavírus.

A euforia dos primeiros dias já passou.

No meu bairro, ninguém mais lembra de bater palmas para os profissionais sanitários às 20h. Ontem, alguém arriscou um aplauso que se perdeu na noite e são essas pequenas coisas que parecem mudar a rotina.

O diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias do governo espanhol, Fernando Simón, explicou em coletiva online a importância das medidas de contenção da pandemia. Hoje pela manhã, ele se somou às estatísticas de pessoas diagnosticadas com Coronavírus.

A quarentena oficial está confirmada até o dia 11 de abril. Por enquanto.

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Foto em destaque: Thaddaeus Lim

Fotos no corpo do texto: Mariana Dutra


Mari Dutra
Criadora do Quase Nômade, contadora de histórias, minimalista e confusa por natureza, com os dois pés (e um pet) no mundo. Chega mais perto no Instagram.

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