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Miss Black Divine: a brasileira selecionada para o maior evento de pin-ups do mundo

por: Kauê Vieira

Ser pin-up sempre foi uma escolha libertária para mulheres cansadas das limitações e ameaças provocadas pelo racismo. A prática de posar para fotos em poses e roupas distantes da caretice cotidiana existe desde meados do século 20. 

Desde então, o estilo serve de referência para milhões de mulheres no mundo tudo. Porém, como quase tudo nesse mundão, o racismo fez sua parte na inviabilização de mulheres negras pin-ups. Quando se fala sobre o assunto, logo vem ao pensamento a imagem de ícones como Marilyn Monroe e a personagem Betty Boop – idealizada por Max Fleischer e desenhada por Grim Natwick. 

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Miss Black Divine: pin-up brasileira abre vaquinha para concurso nos EUA

Miss Black Divine é o nome adotado por Paula Renata, uma jovem pin-up brasileira que faz sucesso dentro e fora das redes sociais proporcionando não só uma nova visão sobre o estilo, mas expondo ao público o rico universo vintage (ou retrô) da cultura negra. 

Formada em moda, ela explica que o primeiro contato com o estilo veio ainda em 2010. “A professora era apaixonada por elas e um dos trabalhos que ela passou foi com esse tema, me apaixonei na hora e sigo desde então”, disse em entrevista ao Hypeness.

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A imersão nesta fonte inesgotável de cultura transformou a vida de Paula em todos os sentidos. Miss Black Divine afirma que ser pin-up foi fundamental para que ela tivesse uma relação diferente com os marcadores negros. 

Naquela época, só apareciam mulheres brancas e de cabelo liso nas pesquisas e como eu não tinha uma consciência racial muito forte, acabei me inspirando nelas, ao me montar eu achava que tinha que estar com o cabelo liso, então fazia chapinha/babyliss toda vez. Acho que esse processo fez com que a minha aceitação com o cabelo levasse um pouco mais de tempo, quatro anos depois.

Seu trabalho bomba nas redes, sobretudo no Instagram, onde é seguida por quase 5 mil pessoas que se encantam com as 400 e poucas fotos postadas. Interessante notar que desde o momento em que se apossou da negritude, Miss Black Divine viu que o céu era o limite. Ou além disso. 

Eu não tinha muita consciência e me inspirava nas mulheres brancas de cabelos lisos que apareciam nas pesquisas. A partir do momento que tomei consciência racial e aceitei meu cabelo, comecei a adaptar os penteados a minha textura, mas foi só em 2017 que eu realmente vi que meu cabelo podia se adaptar a qualquer penteado de época, quando participei de um concurso no Instagram que Angelique Noire realizou e tínhamos que fazer um penteado diferente por 30 dias. 

A paixão e o entendimento da singularidade de seu cabelo crespo foram fundamentais para o sucesso. Basta rolar as fotos no feed de Paula para ter certeza de que a versatilidade capilar é uma de suas características mais encantadoras.  

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“Algo que sempre friso é que para fazer um penteado vintage precisa-se de textura e volume e isso cabelos crespos e cacheados têm naturalmente. Sobre as roupas, eu gosto de dizer que tenho um estilo afro retrô, pois sempre tento incorporar algo da moda afro nos meus looks”.

A arte negra 

Inúmeras expressões culturais negras tiveram destaque no Brasil e no exterior no início do já distante século 20. Nos Estados Unidos, a vida de mulheres negras era embalada pelo cantar angustiante de Billie Holiday, que embora não fosse uma pin-up, lutava para se livrar das consequências destrutivas do machismo e da discriminação racial em sua vida. 

“Sempre mostro e falo dessas mulheres que são referências”

A modelo, porém, é direta ao eleger Josephine Baker como sua mestre. Nascida nos Estados Unidos em 1906, esta dançarina, atriz e cantora foi, talvez, a precursora entre as pin-ups. Sua beleza, presença de palco e talento encantaram o mundo todo, sobretudo nos anos 1920. Baker se naturalizou francesa e viveu em Paris até a morte, na década de 1970. 

Josephine usava a fama para exigir o exercício dos direitos civis dos negros dos Estados Unidos, ainda marginalizados pelo período Jim Crow e todas a leis racistas do pós-escravidão. Ela negou apresentações para plateias segregadas nos EUA e foi uma das responsáveis pelo início dos chamados shows integrados, entre negros e brancos em Las Vegas. A postura rendeu ameaças da seita racista Ku Klux Klan. 

A pin-up Josephine Baker

“Josephine Baker, com certeza, é a minha maior inspiração e sempre falo sobre sua história que foi simplesmente incrível! Joyce Bryant, Eartha Kitt, Dorothy Dandridge, Diahann Carroll. Da atualidade, Angelique Noire! Foi através de uma foto dela que vi que não era a única pin-up preta do mundo, lá em 2014. Irid Essence, Lady Eccentrik que é uma pin-up jamaicana, Miss Tammi Savoy”, salienta Miss Black Divine. 

Ela adiciona sobre a força de mulheres negras: 

“Eu sempre mostro e falo dessas mulheres que são referências para mim e acho que através desse trabalho que acontece a visibilização, pois quem não as conhece vão atrás pra conhecer. Foi através disso que achei (ou que me acharam) as pin-ups pretas brasileiras e hoje tenho um grupo de amigas na cena”.

Viva Las Vegas 

A perseverança, a ajuda de redes de apoio e a certeza de que é talentosa no que faz ofereceram voos maiores para Paula. A jovem paulistana foi selecionada para o maior evento de pin-ups do mundo, o ‘Viva Las Vegas’

Paula descobriu a versatilidade de seus cabelos sendo pin-up

“Depois de conseguir meu título de Miss Pin-up aqui no Brasil, decidi que iria parar de participar deles em nível nacional e que a próxima etapa seria sair do país. Nós temos o maior concurso pin-up no maior evento vintage do mundo, em Las Vegas, eu me inscrevi e fui selecionada diretamente pelos jurados para a reta final. Acontece que não tem ajuda de custos e uma viagem para fora não é nada barato. Então com a ajuda de algumas pessoas, fizemos uma Vakinha online para me ajudar com os custos, que vão desde o visto, até os figurinos que irei usar”

Das 12 concorrentes, apenas Paula e mais outras três mulheres são negras. Mais uma desafio para a jovem que pensou em desistir pela falta de representatividade.

O termo pin-up surgiu na década de 1940, em meio a segregação racial americana e infelizmente muitas pessoas seguem a visão daquela época. Eu tive que escutar muita coisa quando passei a participar dos concursos de Miss, como por exemplo que uma das características de um pin-up, era ter a pele branca. Não era chamada para trabalhos, eventos etc e com isso veio a minha desistência em 2016

As coisas, no entanto, mudaram e hoje ela está prestes a embarcar para o exterior em um dos principais concursos de pin-up do mundo. Miss Black Divine exalta a inspiração de outras mulheres negras que ajudam a livrar dos estereótipos uma expressão artística de tamanha beleza. 

Ela aproveita para inspirar outras pretinhas que pretendam embarcar na ideia. 

“O estilo pin-up pode levar muitas horas, mas sabemos que hoje em dia não temos tanto tempo assim para isso. Então existem algumas características que podemos sempre seguir para estar nele. A roupa da época caracteriza-se pela cintura alta, então não importa se você vai usar calça, short, bermuda, saia, sempre com a cintura marcada e para dar a cara final, a maquiagem clássica com delineado gatinho e sobrancelhas destacadas e o penteado vintage. O look pode ser o mais simples possível, mas seguindo essas dicas, qualquer pessoa consegue identificar que você está no estilo retrô”.

Vamos ajudar? O vídeo abaixo dá detalhes sobre a vakinha proposta por Paula e no link vocês encontram mais informações. 

“Acho que a cultura negra foi o começo de praticamente tudo né? Haha Não tem como falar de cultura sem falar da cultura negra, por mais que algo não ‘pareça’ ter vindo dela, se pesquisarmos a fundo vamos descobrir que tinha uma pessoa negra por trás daquilo”.

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Fotos: foto 1: Reprodução/Instagram/foto 2: Nathália Sant'ana/foto 3: Reprodução/Wikipédia/foto 4: Reprodução/Instagram/foto 5: Reprodução/Instagram/foto 6: 


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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