Arte

O doce santo | Do Amor #128

por: Jader Pires

De comer ajoelhado. Por motivos de força maior não posso revelar nome e nem fornecer mapa do local. Tratam-se de desígnios divinos, sabe? Mas o que importa é a descrição a seguir.

Fantasie aí qualquer lugar minimamente bonitinho de luzes num amarelo gracioso, confortável. Mesa e cadeiras, claro, garçons bem aprumados mas nada chiquetosos não, era mais simpatia que goma nos uniformes. Tudinho bem-posto, cortininhas nos arcos de janela, quadros com motivos abstratos, filete d’água caindo em algum canto, numas pedrinhas, barulhinho bom. Traçou aí na cabeça? Pois bem. Era exatamente como estás pensando porque, para cada pessoa que entrava, o estabelecimento se moldava de acordo com o peculiar olhar do freguês. Era um lugar em cada mente.

Aterrisamos lá por milagre, era uma terça de tráfego intenso e não havia cristo que chegasse nos lugares desejados. O Waze, aquela coisinha de deus, acabou que mandou a gente para o lugar certo, mas fazendo umas linhas tortas. Enfim, iríamos comer e isso nos deixou nas nuvens. Estávamos a Lili (minha caridosa companheira), um casal de amigos, a Camila (um anjo de menina) e o Edson (o garoto é um santo), e eu, rezando para que tudo desse certo.

A comida em si estava um pecado, pão às pampas, peixe à vontade, vinho à beça. Conversamos gostosamente sobre as provações do trabalho, a salvação da vida pela arte, o livre arbítrio do nosso egrégio cotidiano. Tudo muito bom, tudo muito bem, como haveria de ser. Sorrisos, alma renovada, fomos à sobremesa.

“Amigo, que é que tem na carta de doces?”. O garção chegou sem livreto algum, só com o bloquinho de anotações e convicção. “A gente só tem uma sobremesa só”. Se tem algo que eu aprendi nessa vida foi perdoar os que não sabem o que fazem. Como assim só uma única opção como pospasto? Dei a outra face e perguntei qual era a guloseima monodietista. “Se chama Menino Jesus”, me respondeu ele com uma plena paz de espírito. E quem seria eu pra não aceitar o sacrossanto drope, a vinda do pequeno messias em forma de açúcar e confeito?

Bobos, vocês e eu, por pensarmos se tratar apenas de um melado, um bolinho, só um caramelo para arrematar a ceia. Meus irmãos, minhas irmãs. Aquilo estava acima do bem e do mal. Aquela coisa subia aos céus da minha boca, era pai e filho e espírito santo e eu mastigava e me arrependia de não tê-lo amado acima de todas as coisas antes, eu pegava mais e na minha cabeça eu gritava “aleluia! aleluia!”. Levei as mãos ao alto e agradeci. Chamei por mais três vezes.

Esse sim seria o amor eterno. O Amor de fé. Amor verdadeiro.

Quanto deu tudo? Trinta moedas.

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Jader Pires
Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.

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