Debate

Polanski, acusado de estupro, provoca gás de pimenta e ira feminista em prêmio

Yuri Ferreira - 02/03/2020

O ‘César’, principal premiação do cinema francês, foi alvo de protestos e críticas na sua 45ª edição. O tema das manifestações? As indicações e premiações que a Academia concedeu ao cineasta Roman Polanski, condenado por pedofilia e acusado de estupro por diversas mulheres.

Com centenas de feministas ao redor da Salle Pleyel, gás de pimenta e lacrimogênio e convidados abandonando a cerimônia, a polêmica envolvendo a premiação estampou as capas de jornais ao redor do mundo. A crise ao redor da maior premiação da sétima arte na França causou indignação de centenas de mulheres que se solidarizaram com as vítimas que denunciaram o diretor, concorrente com o filme ‘J’Accuse – O Oficial e o Espião’, indicado a 12 prêmios e ganhador de 3 categorias.

Mulheres marcham contra o ‘Cesar da Vergonha’: Polanski, condenado por estupro, foi premiado pela Academia de Cinema Francesa

Acusações contra Polanski

Condenado pelo estupro de uma menor de idade nos EUA, o diretor Roman Polanski, conhecido pelos clássicos ‘Chinatown’, ‘Repulsa ao Sexo’, ‘Bebê de Rosemary’ e ‘O Pianista’, foi indicado ao ‘César’ em 12 categorias por seu novo filme ‘J’Accuse’, que trata do caso Dreyfuss, um dos principais episódios de antissemitismo da história da França.

Roman Polanski (centro) teve pedido de extradição para os EUA para cumprir sua pena após ser condenado por estupro

Entretanto, desde o início dos anos 2000, o diretor foi acusado por diversas mulheres de tê-las abusado quando menores de idade. A última das denúncias foi feita em novembro de 2019, quando a fotógrafa Valentine Monnier o acusou de um estupro ocorrido em 1975. Polanski nunca cumpriu pena por nenhuma das acusações.

Polanski foi defendido por centenas de nomes importantes da comunidade do cinema. Penélope Cruz, Walter Salles, Guillermo Del Toro, Almodóvar, Scorsese e Íñarritu são apenas alguns que defenderam o diretor após sua condenação, mesmo depois dela ser sequenciada de mais 5 denúncias de estupro.

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Manifestações durante o ‘César’

A atriz Adèle Haenel, que denunciou ter sido estuprada por outro diretor quando menor, foi o centro das atenções na batalha contra as homenagens ao diretor. Ela abandonou o prêmio quando ele foi triunfou na categoria ‘Melhor diretor‘ e saiu pela porta da frente gritando: ‘Bravo aos pedófilos!”, equanto marchava ao lado de Noémie Merlant contra a controversa indicação.

Polanski não compareceu ao ‘César’. Isso, no entanto, não deixou as manifestantes mais satisfeitas. A própria apresentadora do prêmio, a atriz Sandrine Kiberlain, se recusou a participar da foto oficial do evento após o diretor ser premiado.

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Em trocadilho com o nome do filme do diretor, manifestantes criticam a premiação por coroar impunidade

A França e a comunidade cultural francesa em si não entrou no barco do #MeToo. Em 2017, quando o movimento estava fervilhando em Hollywood, centenas de atrizes francesas, inclusive Catherine Deneuve, escreveram uma carta contra o movimento, acusando as feministas que o abraçaram de excessivamente puritanas e pedindo que os homens tivessem liberdade de importunar mulheres. Adéle Haenel, em entrevista ao New York Times, condenou a carta.

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“Premiar Polanski é cuspir na cara das vítimas. Significa que estuprar mulheres não é nada ruim. Quando o filme estreou, ouvimos que nosso boicote era censura. Não é censura – é sobre escolher o que se quer ver”, afirmou a atriz.

‘J’Accorde’, no entanto, não ganhou o maior prêmio da noite. O melhor filme ficou com ‘Os Miseráveis’, de Ladj Ly, um filme sobre a violência nos subúrbios de Paris. Mas a indignação com a homenagem da Academia de Cinema da França persistiu e certamente abalou a imagem do César para sempre.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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