Reportagem Hypeness

Prefeitura de SP quer destruir maior área verde da Mooca para construir prédios

por: Yuri Ferreira

Os milhares de paulistanos que pegam a Radial Leste todos os dias talvez nunca tenham reparado, mas no meio da aglomeração de lojas, shoppings e construções de uma das principais avenidas da capital paulista, existe um momento de sombra para quem vai do centro para o bairro. Enormes falsas seringueiras recobrem a avenida junto das árvores do canteiro central. A copa dificilmente leva o olhar para as raízes, fincadas na Praça Alfredo Di Cunto, na Mooca, que em breve pode ser destruída.

Quem entra na praça pode achar que se trata de uma área verde como qualquer outra. Engana-se. Cruza-se com bromélias, orquídeas, paus-brasis, jequitibás-brancos, ipês e jatobás. Para quem deseja algo mais frutífero, no pomar você encontra abacate, banana, manga, tomate e mais um monte de outros alimentos. Mais de 20 gatinhos caminham pelo parque brincando e caçando pelos 6 mil metros quadrados de vegetação.

Praça Alfredo di Cunto é uma das principais áreas verdes e de educação ambiental do centro expandido de São Paulo

Mas numa canetada, tudo isso pode ser destruído. Uma promessa de campanha de 2016 do então prefeito João Dória (PSDB) foi a entrega de moradias populares e a continuidade foi dada pelo seu sucessor Bruno Covas (PSDB. Uma Parceria Público-Privada foi anunciada e a COHAB cedeu o terreno da Praça Alfredo Di Cunto para o consórcio Engeform-Telar, que seria responsável pela construção de moradias populares para pessoas com renda entre 2 e 5 salários mínimos.

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Reduzir o déficit habitacional em São Paulo é um dos principais desafios da metrópole. Segundo a Fundação Getúlio Vargas,  faltam 474 mil moradias populares para alcançar o que precisamos na área de habitação. A necessidade de construir novas moradias é inegável. A pergunta a ser feita é: por que um dos principais espaços de educação e preservação ambiental da Zona Leste foi colocado em risco?

A questão é fácil de ser respondida: o espaço foi colocado pela ex-prefeita Marta Suplicy dentro de um Programa de Agricultura Urbana e recebeu o Programa Escola Estufa Lucy Montoro, que abria a horta para a comunidade e mantinha conhecimento sobre plantio e cuidado de plantas – em especial que podem ser cultivadas em casa. Então, na mudança para a gestão Kassab, o programa foi encerrado e o zoneamento da praça alterado. Segundo os atuais parceiros, o espaço já tentou ser transformado várias vezes. Para municipalidade, sempre se tratava de um lugar vazio.

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A estufa faz o plantio de PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), ervas e outros tipos de alimento

A prefeitura resolveu abrir a licitação para vender aquele terreno que, nas papeladas da burocracia, era um espaço vazio. A licitação aconteceu e foi até o fim. Nenhum funcionário responsável pela licitação – da empresa ou da prefeitura – visitou a praça. Hoje, o terreno já é do consórcio. A notícia chegou para a comunidade quando a área de 6 mil metros quadrados já estava liquidada. Perguntamos à COHAB e ao consórcio Engeform/Telar se algum funcionário visitou o terreno antes de executar a licitação. Ninguém respondeu.

Com a licitação consolidada, as visitas da construtora ao terreno não foram, até então, amigáveis. Para mapear as árvores, enfiaram pregos nos troncos, o que é crime ambiental. Nos diálogos com a ONG Horta das Flores, que faz a gestão do espaço desde 2015 em parceria com a prefeitura, não se dá uma ideia de como serão as construções: se elas destruirão os espaços de cultivo ou se serão farão um projeto para a preservação.

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A ONG Horta das Flores é a principal agente de conservação da praça. O coletivo, que tem mais de 50 membros, gere a área inteira, que conta com um pomar, uma estufa, um herbário, um viveiro, e mais uma série de projetos de bioconstrução, permacultura e agrofloresta, além de oficinais sobre educação ambiental e agroecologia, bem como projetos universitários sobre plantas medicinais no local. Sem contar os projetos em parceria com o Arsenal da Esperança – uma das principais instituições de  e os mutirões mensais que acontecem em parceria com a comunidade. Desde 2015 foram mais de 90 projetos no parque, com diversas organizações sociais e do meio-ambiente. Agora, esse trabalho está em risco.

“Ninguém sabe exatamente qual é o projeto. Os arquitetos falam que vão deixar isso pra comunidade. Um fala que vai ser só uma torre, outros falam que serão 4 torres. Mas quem garante que isso vai ficar aberto?”, afirma ao Hypeness Regina, do coletivo Horta das Flores.

Um dos trabalhos do coletivo foi o mapeamento em QR code de todas as espécies presentes no parque, com informações sobre a planta

Além desse fato, parte do terreno já está ocupado há décadas por uma loja de azulejos. No fim das contas, a prefeitura entregou um lote irregular para a construtora. Em nota, a COHAB não respondeu questões sobre a possibilidade de manutenção do terreno.

Questionada sobre o diálogo com a comunidade sobre a PPP, afirmou que publicou tudo no Diário Oficial da Cidade.

“A Cohab informa que, no local, serão construídas 2.760 unidades habitacionais por meio de Parceria Público-Privada. Foram observados os trâmites legais para que a população tivesse conhecimento de todos os aspectos abordados na Parceria Pública Privada (PPP), sendo publicada a Consulta Pública em 23/01/2018, o Edital de Concorrência Internacional nº COHAB-SP em 21/03/2018, com republicação em 02/11/2018, no Diário Oficial da Cidade. O cronograma da desocupação se encontra em elaboração, com previsão para o primeiro semestre de 2020″.

Perguntados sobre a continuidade das obras e sobre o projeto urbanístico que será feito para o parque, a SPE (Sociedade de Propósito Específico) – formado pelas empresas Engeform e Telar afirmou que “todo o planejamento das obras será feito em parceria com a subprefeitura da Mooca e autorização do poder concedente da COHAB, e que está aberta para discutir e arquitetar junto com as ONGs que atuam na região a melhor estratégia para a construção dos edifícios. Com isso, salienta que está entre as suas prioridades a realização da obra com o mínimo impacto ambiental.”

A ONG Horta das Flores exige um posicionamento específico das construtoras e uma planta do projeto, que ainda não foi entregue. Se você é a favor da manutenção do espaço e do trabalho do coletivo de educação ambiental, existe um abaixo assinado pela permanência da horta na Praça Alfredo di Cunto.

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Fotos: Divulgação


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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