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Spike Lee? 5 cineastas negros brasileiros para Antonia Pellegrino se livrar do racismo estrutural

por: Kauê Vieira

Antonia Pellegrino, em entrevista ao jornalista Maurício Stycer no UOL, falou sobre o lançamento de um documentário sobre a vida de Marielle Franco – vereadora morta a tiros no Rio de Janeiro em um crime há dois anos sem solução. 

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Autora da polêmica ‘Sexo e as Negas’ – série acusada de reproduzir estereótipos racistas contra mulheres negras Pellegrino foi alvo de críticas por uma declaração que sustenta o racismo estrutural do brasileiro. Ao responder sobre a escolha de José Padilha para a direção de uma série com um time de criadores formados apenas por pessoas brancas, Antonia declarou que a ausência de rostos negros se dá porque o Brasil ainda não formou um Spike Lee. 

“Se tivesse um Spike Lee, uma Ava DuVernay…”, lamentou. 

Antonia Pellegrino se cercou de brancos para falar sobre Marielle

O posicionamento de alguém que se diz apta para narrar a história de uma mulher negra, bissexual e assassinada por defender a dignidade da maioria da população do Brasil causou revolta. As pessoas apontaram o racismo presente na fala de Antonia Pellegrino como uma das razões para a exclusão de diretores e diretoras negras. 

Afinal, o que Ava DuVernay e Spike Lee diriam de um documentário sobre uma figura negra histórica concebido e produzido apenas por pessoas brancas, incluindo José Padilha, que no passado exaltou o trabalho de Sergio Moro, visto como ameaça para a vida da negritude? 

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Pellegrino, que se descreve como progressista, diz que Padilha se arrependeu e isto é o que importa. “Não acho que seja um erro suficiente para a gente cancelar uma pessoa”, justificou ao UOL. 

Ela aproveitou para dizer que se expressou mal:

“Sobre a frase infeliz: ‘No Brasil não tem um Spike Lee’. O fato de não haver um Spike Lee no Brasil fala sobre o nosso racismo estrutural, e não sobre supremacia branca. Não tem uma Ava DuVernay no Brasil não porque não existam diretoras negras talentosas. Mas porque existe sim racismo estrutural. Abrir espaço para diretores, roteiristas, profissionais negros é um compromisso público que fizemos. E o julgamento de estarmos comprometidos em reproduzir racismo é muito precipitado”. 

Aqui pra nós, mesmo que Antonia Pellegrino tenha se expressado de forma equivocada, uma simples declaração abranda o fato de profissionais negros serem excluídos dos postos principais da série sobre a vida de uma mulher negra? A postura da autora diz muito sobre a branquitude que não abre mão de seus privilégios e sempre coloca nas costas do negro a pecha de não ser bom o suficiente.

O Hypeness listou cinco diretores negros para Antonia e outras pessoas que insistem em reproduzir a lógica racista de culpar e excluir os pretos dos espaços de poder. 

1. Sabrina Fidalgo

A diretora Sabrina Fidalgo

São 13 prêmios e uma carreira de sucesso. Sabrina Fidalgo nasceu no Rio de Janeiro em uma família que respira cinema. Ela é filha de Alzira e Ubirajara Fidalgo, fundadores do Teatro Profissional do Negro. 

Formada pela Escola de TV e Cinema de Munique,  na Alemanha, ela acumula trabalhos de sucesso. Destaque para o futurista ‘Personal Vivator’ (2014), protagonizado por Fabrício Boliveira e ‘Rainha’ (2016), que tem Ana Flavia Cavalcanti como destaque. 

“Não quero mais ficar fomentando filme em que eu não esteja representada. Como cineasta, exijo o meu lugar para contar minhas histórias e produzir meus longas com a mesma infraestrutura que esses diretores. Estou aqui e vou continuar lutando. Quero fazer isso disputando de igual para igual”, disse ao jornal O Globo. 

2. Jeferson De 

Jeferson De é outro cineasta importante do Brasil

Paulista de Taubaté, Jeferson De venceu o ‘Festival de Cinema de Gramado’  logo na estreia de seu primeiro longa-metragem. ‘Bróder’ foi sucesso absoluto e destaque no conceituado ‘Sundance Screenwriters Lab’, na Alemanha.

Jeferson é formado pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente trabalha no filme ‘M8 – Quando a Morte Socorre a Vida’, que apresenta Lázaro Ramos, Ailton Graça e Zezé Motta no elenco. 

3. Viviane Ferreira 

Viviane Ferreira aponta temas importantes e visibiliza artistas negras

A história da baiana Viviane Ferreira faria Marielle Franco sorrir ao mesmo tempo em que mostra o peso da exclusão provocada pelo racismo estrutural. Nascida na periferia de Salvador, ela é apenas a segunda mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil depois de Adélia Sampaio, que estreou em 1983 com ‘Amor Maldito’. 

Viviane é diretora de ‘O Dia de Jerusa’, protagonizado pela brilhante Léa Garcia, outra célebre atriz que sofre com os apagamentos da discriminação racial. A cineasta com raiz fincada no Candomblé também luta pela afirmação dos profissionais negros no audiovisual. 

“É um fato incontestável que a sociedade brasileira vive uma história de profunda desigualdade racial. De mesmo modo, é incontestável a necessidade de esforços do Estado brasileiro para propor políticas reparatórias que visem reduzir esse fosso de desigualdades”, falou à Carta Capital. 

4. Camila de Moraes

Camila de Moraes disputou vaga no ‘Oscar’

O feito desta gaúcha radicada em Salvador é histórico e também diz muito sobre o racismo. Com o ‘Caso do Homem Errado’, Camila de Moraes se tornou a primeira mulher negra em cartaz no cinema comercial após 34 anos. 

– ‘O Caso do Homem Errado’: Demorou 34 anos para mulheres negras voltarem aos cinemas no Brasil

“A gente não comemora este dado que nos colocou na história do cinema brasileiro, pois esse dado nos revela o quão racista é o país no qual vivemos, que leva mais de três décadas para que outra mulher negra consiga colocar um longa-metragem em circuito comercial”, explica ao Hypeness.

O ‘Caso do Homem Errado’ disputou até o fim uma vaga no ‘Oscar’ de 2019. A produção concorreu com filmes brasileiros patrocinados por gigantes como a Globo Filmes para representar o Brasil na maior festa do cinema mundial. Não deu. Quer dizer, será que não?

“Quantas mulheres o Brasil já indicou para representar o país nesta disputa? Quantos mulheres negras já chegaram até este patamar? Quantas mulheres negras já conseguiram chegar em circuito comercial para poder disputar essa vaga? Qual é o Brasil que queremos mostrar lá fora e aqui dentro? Para quais produções damos financiamentos?” 

5. Renato Cândido de Lima 

Outra mente brilhante é a de Renato. Formado pela ECA/USP e mestre em Ciências da Comunicação pela mesma instituição, o paulistano carrega em seus trabalhos histórias da negritude e da periferia. 

É dele ‘Menina Mulher da Pele Preta – Jennifer’, curta sobre uma adolescente negra da periferia de São Paulo que desenvolve um programa de computador para clarear a pele e alisar os cabelos em uma reflexão importante sobre o racismo. 

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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