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The Liverbirds: diretamente de Liverpool, uma das primeiras bandas femininas de rock da história

Vitor Paiva - 01/03/2020 | Atualizada em - 07/02/2021

Até o início dos anos 1960, Liverpool era uma cidade portuária e majoritariamente pobre ao norte da Inglaterra, que ainda se reconstruía da destruição quase absoluta que atravessou durante a Segunda Guerra Mundial – de onde jamais se poderia imaginar que a maior revolução da música pop em todos os tempos sairia. Essa história, porém, todos já sabem: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr se juntariam para formarem os Beatles e conduzirem a trajetória da maior banda de todos os tempos.

Ainda em 1962, porém, antes dos Beatles conquistarem o mundo, eles primeiro conquistaram Liverpool, principalmente através da casa de shows The Cavern Club, onde se apresentaram quase 300 vezes. E na plateia de um desses shows estava a jovem Mary McGlory, nascida e criada na cidade como cada um dos quatro rapazes no palco. Ao vê-los pela primeira vez, Mary afirmou para a irmã a seu lado: “Nós vamos ser como eles. Vamos ser a primeira banda de garotas a fazer sucesso no rock”. 

The Liverbirds

Assim nasceu The Liverbirds, uma das primeiras bandas femininas de rock em todos os tempos: contemporânea e vizinha aos Beatles, formada também em Liverpool originalmente por Mary, sua irmã Sheila e Irene Green. Mary tinha planos de se tornar freira, mas antes queria ficar muito rica com a música. O nome foi escolhido em homenagem ao pássaro-símbolo da cidade, e os instrumentos foram comprados em uma loja local.

Os Beatles no Cavern em 1962

Tudo estava pronto, e os comentários a respeito da banda feminina que se formava para rivalizar com os Beatles – que então já eram imensamente populares na região – já se espalhavam pela cidade. Havia, porém, um discreto obstáculo entre a banda e o estrelato: ninguém sabia tocar.

O sinal luminoso da entrada do Cavern Club © foto: Vitor Paiva

Quando Sheila e Irene desistiram da carreira musical, logo a campainha tocou: eram as jovens Sylvia Saunders e Valerie Gell, que haviam ouvido falar da banda. Valerie sabia tocar, estava decidida a entrar na banda e ensinar às garotas seus instrumentos. Em seguida uma jovem com uma bela voz grave e grande talento também ficou sabendo da novidade e correu para ganhar seu lugar: Pamela Birch se tornaria principal vocalista e uma espécie de líder das Liverbirds. Com Pam na guitarra e nos vocais, Valerie na outra guitarra, Mary no baixo e nos vocais e Sylvia na bateria, o grupo estava formado, e assim os ensaios começaram a acontecer incessantemente.

O plano era provar que mulheres podiam sim ter uma banda de rock e fazer sucesso – até John Lennon teria comentado, ao saber da banda, que “garotas não conseguiam tocar guitarra”. Pois elas conseguiam, e em pouco tempo conquistaram seu lugar não só no mesmo Cavern Club que tanto os Beatles haviam tocado, como seguiram em frente. “São adolescentes que se juntaram para tentar quebrar o monopólio masculino do mundo do rock”, dizia uma matéria da época sobre a banda. “Os namorados, se quiserem, que as acompanhem, pois as garotas passam a maior parte do tempo tocando”.


Rapidamente estavam em turnê, dividindo palco com ninguém menos que os Kinks e os Rolling Stones, então bandas iniciantes como elas. Mas eram os Beatles o grande farol a se seguir – para onde eles iam, todos desejavam ir. Quando John, Paul, George e Pete Best (baterista dos Beatles antes da entrada de Ringo) foram tocar na Alemanha, elas decidiram que tinham que também ir; quando os Beatles assinaram contrato com o empresário Brian Epstein, elas não tiveram dúvidas a quem procurar.

Pois Epstein conhecia a banda – que já começava a conquistar sucesso com “Peanut Butter”, uma boa canção de rock com uma letra inocente sobre manteiga de amendoim, mas uma levada animada e deliciosa para se balançar – e quis contratar as garotas. Havia, porém, somente uma ressalva: ele não achava que elas deveriam ir para Hamburgo, na Alemanha, onde os Beatles tocavam, por se tratar de uma cidade famosa por seus bordéis, bares perigosos, muito álcool e drogas e violência boemia. Elas então tiveram a coragem de dizer não para o empresário dos Beatles, e foram para a Alemanha por conta própria.

A banda em frente ao Star Club, em Hamburgo

Apesar da má-fama da cidade, a banda se estabeleceu em Hamburgo, onde começou a fazer sucesso. A segunda canção a cair no gosto do povo, “Why Do You Hang Around Me”, formou com “Peanut Butter” o primeiro compacto gravado, lançado pelo selo do Star-Club, ligado à casa de shows alemã onde se tornaram banda residente. Da Alemanha passaram a viajar por toda a Europa: Suíça, Noruega, Dinamarca, Reino Unido,  Austria, Holanda, Suécia,  Alemanha, e mais. As plateias aumentavam, e junto com elas os autógrafos, presentes, o dinheiro, e a promessa de estrelato. Quando os Beatles foram para os EUA para se tornaram a maior banda do mundo, elas pensaram: os Estados Unidos, então, tem de ser o nosso próximo destino.

Se ainda hoje ser mulher no meio musical não é fácil, na primeira metade da década de 1960 era tarefa à beira do impossível. As Liverbirds foram convidadas para cruzar o oceano e se apresentar nos EUA, mais precisamente em Las Vegas, mas com uma única exigência: que fizessem os shows sem a blusa, com os seios de fora em topless. A proposta foi imediatamente negada, e a banda decidiu seguir na construção do sucesso europeu. Subitamente, porém, o sonho de eterna juventude que o rock oferece – e que muito homens conseguem manter por toda a vida – se tornou mais complicado para as garotas: a baterista Sylvia estava grávida. Era uma gravidez complicada, e seu médico afirmou que ela não podia mais tocar se quisesse ter o filho: sem escolha, Sylvia decidiu largar a banda.

Na mesma época, o noivo de Valerie sofreu um acidente de carro, e se viu paralisado do pescoço para baixo. Ela aceitou seu pedido de casamento, e deixou a banda para cuidar do marido – de quem tomaria conta pelos 26 anos seguintes. Mary e Pam ainda tentaram seguir com a banda, convocando duas musicistas alemãs para realizarem com elas a turnê pelo Japão que já estava agendada. O espírito de companheirismo e amizade, sem Sylvia e Val, no entanto, já não era mais o mesmo e assim, em 1968, elas decidiram acabar com as Liverbirds.

Mary se casou na mesma época que Sylvia. Depois que seu marido faleceu, Valery voltou para Hamburgo, onde viviam as outras três companheiras de banda, e casou-se com uma mulher, vivendo feliz os últimos 10 anos de sua vida. Pam, por sua vez, nunca superou de fato a separação do grupo, e saltou de cabeça no álcool e nas drogas,  vindo a falecer de câncer de pulmão com sua amiga Mary ao seu lado.

Sylvia e Mari em Hamburgo atualmente

Hoje seguem vivas e amigas em Hamburgo a baixista e a baterista das Liverbirds, exatamente como seguem vivos o baixista e o baterista dos Beatles. A banda lançou alguns discos, outros compactos, viajou todo o continente, tocou no Japão e viveu uma rara aventura, indo mais longe de que boa parte dos aspirantes a estrelas do rock de então. “Essa coisa que fizemos entre 0s 16 anos e 23 anos. Estava escrito que a gente viveria tudo isso. Era o destino: Nós éramos as Liverbirds!”, diz Sylvia. “Nunca ficamos tão famosas quanto os Beatles, mas começamos como amigas e terminamos como amigas”, reflete Mary, que nunca se tornou freira.

Cena do musical “Girl’s Don’t Play Guitar” com Sylvia e Mary tocando junto à banda do espetáculo

Em 2019 essa incrível trajetória foi transformada no musical “Girls Don’t Play Guitar”, ou, em tradução livre, Garotas não tocam guitarra. Além de se envolverem na produção do espetáculo, Sylvia e Mary, hoje viúvas, também voltaram a tocar juntas – em noites especiais, no encerramento do show, com a banda do musical, que celebra as aventuras e a música de uma das primeiras bandas femininas de rock da história, saída do norte da Inglaterra, formada por quatro jovens garotas que simplesmente queriam tocar – as quatro garotas de Liverpool. 

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutor em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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