Ciência

A epidemia que criou a UTI e deu início ao uso dos ventiladores para respiração

por: Vitor Paiva

Corria o ano de 1952 quando Copenhague, capital da Dinamarca, se viu assolada por uma grande epidemia de poliomielite, doença que provoca inflamação da substância cinzenta da medula espinhal, e que pode provocar apneia e prejudicar gravemente a respiração do paciente. No hospital Blegdam, 50 pessoas eram internadas diariamente, das quais cerca de 12 pessoas desenvolviam falência respiratória. Nas primeiras semanas da epidemia, 87% das pessoas que desenvolveram problemas respiratórios por conta da pólio vieram a morrer, em sua maioria crianças – a situação, portanto, era desesperadora, mas dela sairia duas verdadeiras revoluções médicas, tão uteis no atual momento: os ventiladores respiratórios e o conceito de UTI.

A situação da epidemia em Copenhague, em 1952 © Medical History Museum in Copenhagen

O tratamento costumava ser feito através de um pulmão de aço, um equipamento antigo e pouco eficaz para respiração artificial – e pior: a cidade inteira só possuía um pulmão de aço. Era no hospital Blegdam que trabalhava o anestesiologista Bjørn Ibsen que, diante da situação fora de controle, decidiu tentar uma tentar o desenvolvimento de uma nova técnica, que revolucionaria a medicina: o uso de um ventilador diretamente no pulmão, através de uma traqueostomia.

O anestesiologista Bjørn Ibsen © Medical History Museum in Copenhagen

Sua primeira paciente foi uma jovem de 12 anos, que foi salva pelo ventilador de Ibsen – com ele próprio bombeando ar em seus pulmões por dias a fio. O problema era que em 1952 os ventiladores modernos, capazes de funcionar por anos ininterruptamente, ainda não existiam – e como cuidar das centenas de casos ainda internados?

Estudante utilizando o ventilador para respiração na epidemia © Medical History Museum in Copenhagen

Assim, foram convocados centenas de médicos e estudantes para incansavelmente seguirem apertando manualmente os ventiladores, presos às gargantas dos pacientes pela traqueostomia, e salvar a vida da vasta maioria. Dessa forma, Ibsen criou uma unidade médica continuamente monitorada dentro do hospital, para ventilação ininterrupta dos pacientes. Em questão de meses, o índice de mortalidade havia caído para 31% – estima-se que mais de 120 pessoas foram salvas pela força tarefa. Assim, ficava provado que era possível manter pacientes vivos por muito tempo através de instrumentos – reunindo-os em um só local especialistas em tal tratamento. Nascia assim as Unidades de Tratamento Intensivo, as famosas UTIs.

Médicos e estudantes cuidando dos pacientes pelos ventiladores © Medical History Museum in Copenhagen

As semelhanças, portanto, com a pandemia do novo coronavírus são totais: são as UTIs e principalmente os ventiladores – hoje em versões mais modernas e automáticas – que fazem a diferença entre vida e morte onde a doença se disseminou. Mas não somente: a terceira lição da epidemia em Copenhague é a comprovação de que quando a comunidade médica, as autoridades e a população local se reúnem em uma mesma causa – respeitando e incentivando as soluções científicas e reais – é possível conter uma epidemia. No mesmo ano de 1952 os estudos para desenvolvimento da vacina contra a poliomielite começaram – e no ano seguinte a cura foi anunciada.

© Medical History Museum in Copenhagen

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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