Matéria Especial Hypeness

Alt Niss: cria da periferia, artista lançada pela produtora dos Racionais pede cachê justo

por: Kauê Vieira

A criatividade segue rompendo os muros das periferias brasileiras e atingindo os ouvidos do grande público. Enquanto muita gente repete como papagaio o chavão de que não há nada de novo na cena musical do Brasil, o trabalho de artistas como Alt Niss prova que eles estão bem enganados. 

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Alt Niss é cria do R&B

Alt Niss

Eunice Santiago Albertini, a Alt Niss, surgiu na zona sul de São Paulo, celeiro de um dos maiores expoentes da cultura brasileira: o Racionais MC’s. Autora de sucessos como ‘Sorte’ e ‘Não Vou Me Preocupar’, a artista é agenciada pela Boogie Naipe, gravadora responsável pelo trabalho dos rappers. Ela conversou com o Hypeness sobre sua trajetória na música e antecipou o lançamento de uma nova canção, ‘Imensidão’

“As linguagens musicais precisam se atualizar, e atualmente estamos presenciando o avanço de muita coisa se tratando de música no Brasil, vários artistas falando de igual com o que tá acontecendo no mundo. Isso faz a engrenagem cultural num todo trabalhar”, diz ela. 

Alt Niss se afasta de todos  os estereótipos possíveis e afirma que sim, o jovem da periferia tem o domínio das expressões artísticas e culturais. “Quando o jovem periférico entende suas possibilidades dentro da arte, e quando ele sente espaço para expor suas ideias, ele cria perspectiva”

A relação de Alt Niss com a música começou como a caminhada de muita gente que vem das quebradas. Ainda jovem, ela recebeu influências dos tradicionais bailes black, além do R&B, sucesso no início dos anos 2000. Quem nunca? 

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“É uma coisa que eu tenho observado nas quebradas que eu circulo como eu nunca vi quando eu era adolescente. A perspectiva, as novas ideias, a liberdade de criação etc. Isso tira o jovem do limbo que a gente já sabe qual é. Eu passo a me enxergar dentro de tudo isso quando eu percebo a identificação de muitos com a minha música, com a minha narrativa, com a minha imagem, porque no fim das contas eu também faço parte desse círculo”

Por falar no rythm blues, Alt Niss destaca a participação de artistas negras na sua formação musical. Ela, que foi impactada pelo disco de estreia de Lauryn Hill ainda no final da década de 1990, salienta que atualmente o que falta é dinheiro

Alt Niss, lançada pela mesma produtora dos Racionais

Alt Niss

Eu lembro do dia em que, com uns 14 anos mais ou menos, juntei dinheiro e fui numa loja de shopping perto de casa e comprei o ‘The Miseducation of Lauryn Hill’, eu ouvia todos os dias até absorver cada linha, cada divisão de voz, cada respiração da Lauryn Hill. Eu desenhei a capa no meu caderno na época. Isso era muito grande pra mim. Eu via tudo isso como uma semente. E várias outras grandes cantoras da mesma forma. Tenho muitos destes CD’s até hoje. Arranhados de tanto ouvir. A cena do R&B hoje tá bem diversa, muitos artistas visionários, dedicados, muita música boa, muita diversidade, muita opção massa para se ouvir. Eu sabia lá atrás que isso aconteceria. Era uma questão de tempo. Agora só falta a gente ser pago por tanta entrega. Falta ganhar dinheiro (risos). 

A escrita desabafo 

A fala de Alt Niss sobre dinheiro pode ser usada para refletir a disparidade nos cachês recebidos por homens e mulheres no universo da música. Na sociedade como um todo, mulheres ganham, em média, 30% menos do que homens. O Relatório de Desigualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial afirma que a humanidade precisa de 170 anos para que as diferenças entre os dois sexos sejam sanadas. 

Alt Niss pede igualdade de cachês

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O abismo é fruto do machismo que ainda se coloca como obstáculo para mulheres que tentam se aventurar no meio. Alt Niss ressalta que tais experiências, como um relacionamento abusivo, serviram para que seu trabalho fosse capaz de expressar a realidade do lugar de onde veio. 

Eu já nasci num ambiente nocivo. Cresci numa família sem estrutura de quase tudo. A gente precisa botar pra fora de alguma forma e foi nesse momento que a música entrou. Eu gostava de escrever na mesma medida que eu gostava de cantar. Quando eu cantava,  aprendia e tinha prazer naquilo. Quando escrevia, desabafava. E a música me acompanhou em todos os momentos. Quando eu cresci fui mãe, passei por relacionamento abusivo, saí, encontrei minha liberdade, a música esteve comigo me trazendo força, perspectiva e razão para continuar em todos os momentos. E em várias músicas minhas isso é perceptível. Nem sempre eu vou querer falar da minha história e isso também é sobre mim, sobre ideias, sobre criar. Mas a minha história aparece em muitos momentos. 

Daí a admiração de Alt Niss pelo trabalho desempenhado por Eliane Dias, que controla os negócios do Racionais MC’s na Boogie Naipe. “Eliane é uma mulher preta que batalhou muito na vida e hoje tem a voz que representa muita gente e eu a respeito muito, principalmente pela capacidade de lidar com tantas coisas dentro do universo de trabalho e militância que ela construiu. Com certeza é uma inspiração pra mim e pra muita gente”. 

Falamos tanto em música nova, que você não tem que perder tempo. Vai logo ouvir e assistir em primeira mão o clipe de ‘Imensidão’, que Alt Niss acaba de lançar. Ah, a faixa está disponível nas principais plataformas de streaming.

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Fotos: Jon Leão/Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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