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As startups que florescem na crise

por: Fabrício Pamplona

Há mudanças que chegam repentinamente e são passageiras, a gente experimenta, chora, se angustia, e depois dá risada do que passou. Outras são mais persistentes, e quando vemos, somos impactados de tal forma que nunca mais voltamos a sermos os mesmos.

Aparentemente o mundo ocidental está se deparando com uma dessas mudanças, nas quais somos absolutamente forçados a sairmos da nossa zona de conforto. E subitamente ela acontece, do nada. Às vezes isso acontece na nossa vida por uma quebra brusca de relacionamento, uma doença, uma perda financeira ou o falecimento de alguém que a gente gosta.

Dorme, acorda, e o mundo mudou overnight. E a gente precisa mudar.

Certas mudanças surgem e atropelam como um tsunami. Quando a gente vê, já foi. Não tem muito espaço para lutar contra e toda energia deve ser colocada na direção de adaptação e identificação das novas oportunidades.

O cenário é obviamente familiar para qualquer um que esteja vivendo no planeta Terra no ano de 2020. Em alguns países essa mudança chegou mais cedo, em outros ela chegou mais tarde. Dizem que o futuro é igual para todos, e já chegou, ele apenas está mal distribuído. Pois o futuro às vezes aguarda boas surpresas, outras vezes não.

No cenário que estamos vivendo no Brasil, há basicamente dois fantasmas:

  • As pessoas tem medo de morrer de Covid-19, a infecção pelo novo coronavirus.
  • As pessoas tem medo da recessão econômica: quebradeira de empresas, desemprego, escassez de suprimentos e hiperinflação.

Quem já viveu o segundo cenário no nosso Brasil da década de 80/90 sabe o qual torturante pode ser viver numa situação como essa. Não é fácil.

Muitas empresas já estão realizando demissões e se ajustando para o que provavelmente será um ano muito ruim para o Brasil, provavelmente com projeção de PIB negativo. Isso tudo em meio a uma verdadeira guerra política, um país polarizado, e um líder sem comando. Vai dar ruim.

Ainda assim, enquanto alguns choram o leite derramando ou sofrem antecipadamente pelas perdas que estão por vir, algumas organizações parecem mais rápidas a se adaptar. Outras inclusive se beneficiam da mudança e da instabilidade (para conhecer o conceito de “anti-frágil”, sugiro essas duas matérias aqui e aqui, e se quiser ler o livro tá aí o link).

Anti-frágil tem muito a ver com o comportamento de buscar o risco no momento certo, e se expor a novas oportunidades. Tem tudo a ver com mentalidade de startup. O conceito é do mesmo autor que escreveu “A lógica do Cisne Negro” e “Arriscando a Própria Pele“, que já são clássicos.

No contexto atual, vemos alguns setores que curiosamente “saíram por cima” e estão se dando bem nessa crise, outros já eram fortes tendências e foram impulsionados. Os ventos sopram de quadrantes diferentes desde que o mundo é mundo, e com eles trazem as mudanças. E é por isso que é preciso estar sempre antenado.

Não importa quão grande seja, sempre tem louco para surfar a onda de oportunidades que surge com a crise.

Achei bastante curiosa uma observação que li recentemente a respeito do desenrolar das “ondas” de compras durante a potencial crise de abastecimento em decorrência da paralisação das atividades na quarentena.

São palavras do CEO do Walmart, a partir do que rolou nos mercados da rede: “no início, todo mundo correu para estocar material de limpeza, papel higiênico e comida, tudo que é mais básico e necessário para a sobrevivência e manter a dignidade. Logo depois, todos relaxaram um pouco e vimos aumentar as vendas de jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, baralhos e formas “imortais” de diversão em família. Agora a busca maior é por produtos de beleza, sinal de que as pessoas estão se preocupando com necessidades bem menos “essenciais” para a sobrevivência. Cosméticos, barbeadores e tinturas de cabelo são os mais procurados”.

Em ordem cronológica, foi assim:

  • Semana 1: Álcool em gel, sanitizantes, desinfetantes, máscaras e produtos de limpeza em geral.
  • Semana 2: Papel higiênico, papel toalha, lenços de papel.
  • Semana 3: Charcutaria (embutidos) e insumos para padaria/confeitaria.
  • Semana 4: Jogos de tabuleiro e entretenimentos.
  • Semana 5: Produtos de beleza e cosméticos.

É a própria pirâmide de Maslow em ação, a psicologia explica esse comportamento do ser humano. Não é incrível? Só mesmo a corrida por papel higiênico, que parece ser um fenômeno que desafia a razão…

(…)no início, todo mundo correu para estocar comida, o bem mais básico e necessário para a sobrevivência. Tivemos a “correria por papel higiênico” , logo depois, todos relaxaram um pouco e vimos aumentar as vendas de jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, baralhos e formas “imortais” de diversão em família. Agora a busca maior é por produtos de beleza, sinal de que as pessoas estão se preocupando com necessidades bem menos “essenciais” para a sobrevivência.Cosméticos, barbeadores e tinturas de cabelo são os mais procurados” — relata o CEO do Walmart. O ser humano não é incrível?

 

Se o mar tá mexido, é ali mesmo que tem peixe

 

Os desafios para alguns podem se tornar as oportunidades para outros. E é exatamente isso que tem acontecido nessa crise atual. Aparentemente estamos acelerando a chegada do futuro e seus desdobramentos.

Há alguns ramos que se beneficiaram diretamente:

Entregas/Logística: tudo que a gente precisa hoje em dia para continuar consumindo sem sair de casa. Nesse período já apareceram aqui em casa presentes de amigos, medicamentos, supermercado, verdureira, pizza, celular novo pra substituir um que pifou e até médico.

Alimentos: quem tem um restaurante com estrutura física e equipe de atendimento grande, está com um pepino nas mãos. Quem conseguiu se adaptar ou já tinha delivery, está sobrevivendo. Aliás, o próprio iFood se tornou praticamente um aplicado que garante a sobrevivência nos dias de hoje. Poderia entrar na “cesta básica”.

Farmácias e outros suprimentos de higiene de primeira necessidade: o mundo pode estar acabando, mas você ainda vai tomar banho, escovar os dentes, limpar a casa… inclusive por isso, parece-me que os ítens de higiene pessoal se beneficiaram bastante. Álcool em gel e outros sanitizantes que o digam.

Fabricantes de EPIs: os equipamentos de proteção individual, como jalecos, máscaras e luvas. “Nunca antes na história desse país” houve tanta procura por esse tipo de coisa. Vai durar? Não sei, mas na Ásia é muito comum a gente ver pessoas com máscara, mesmo fora de qualquer pandemia. Tornou-se inclusive um item fashion.

Fabricantes de equipamento médicos: não preciso nem dizer né, o óbvio, o uso de respiradores artificiais é medida essencial para a estabilização dos pacientes graves com Covid-19. Os fabricantes estão com estoque limitado (ou zerado) e não conseguem suprir a demanda global por esse tipo de equipamento. Muitos hospitais estão tendo que substituir equipamentos, comprar novos, e ainda há os hospitais de campanha sendo construídos. Governos fazendo compras imensas em vários países.

Vídeo Chat, Streaming e Ferramentas de produtividade em geral ganharam muita atenção e importância dada a necessidade imediata das empresas aprenderem a trabalhar remotamente, ou serem forçadas a simplesmente fechar as portas por um tempo. Quem pode se adapta, quem não pode, bem… ou se arrisca, ou seleção natural.

Jogos e entretenimento online: joguinhos de celular estão bombando, jogos de videogame estão bombando e mesmo artistas consagrados tem usado plataformas streaming para fazer shows.

Ensino à distância: outro segmento que está ganhando um destaque enorme é o de ensino à distância. Vários eventos que conheço e que iria participar estão cogitando fazerem uma versão online esse ano. Com as escolas fisicamente paradas se intensificam também os esforços dos professores para criar formas alternativas de conteúdo e interagirem de maneira digital com os alunos.

Qualquer serviço ou produto relacionado à prevenção de problemas de saúde também está em alta. Bom para encontrar maneiras criativas e inovadoras de abordar consulta médica (telemedicina?), coleta de testes diagnósticos (drive-through), design de serviços de plano de saúde, e até, porque não, seguro de vida.

Além de ser um profissional de saúde e trabalhar com desenvolvimento de produtos à base de canabinoides, motivo pelo qual sou mais conhecido profissionalmente, eu também sou fundador de uma start-up de tecnologia educacional, a Mind the Graph. É uma empresa ainda de pequeno porte, mas de amplitude internacional, com 2 produtos online que juntos ultrapassam a soma de 300 mil usuários. Pra nossa surpresa, apesar do “baque inicial”, a empresa teve em março o seu recorde histórico de faturamento, fechando o que foi nosso melhor trimestre. Temos um produto com o maior grupo educacional do planeta, com quem fizemos uma implantação inicial no Brasil e agora estamos negociando a expansão internacional para México e Índia.

É uma crise mundial, portanto as oportunidades também são. Por um lado é desastroso, mas por outro, não é incrível? Nunca imaginei que estaria vivendo um momento como esse com a startup. Nós miramos em outra coisa quando a empresa foi fundada, já testamos várias coisas, e hoje esse produto na linha educacional é algo muito relevante para a gente, e uma ótima oportunidade.

Tem uma ideia “incubando”, tá se coçando por fazer algo, meter a cara e empreender? Veja abaixo quais são as áreas que estão aquecidas, e de alguma maneira se beneficiaram com a crise causada pela pandemia do coronavirus.

 

 

Essa imagem traz uma visão bastante completa dos setores afetados pela pandemia, e onde há espaço para inovação. Os de cima são os mais óbvios, onde as pessoas já estão se empenhando em buscar substitutos para os comportamentos naturais. Os de baixo é onde haverá maior ruptura, e portanto, maior espaço para inovação radical. Se você tem algum plano secreto para lançar o teletransporte, a hora é agora.

 

Se eu fosse você, mirava por aí. Sem querer estamos no caminho certo e na hora certa com a Mind the Graph já que o mercado de ensino à distância e saúde estão fortalecidos, que são parte do tripé de design, tecnologia e saúde que concebemos para a empresa.

Boa sorte na sua iniciativa, e se quiser compartilhar, tenho certeza que tem mais um monte de gente que foi “cutucada” e está afim de sair do lugar comum. Como aprendi com meu amigo Tiago Mattos: “o bom do empreendedorismo é que te tiram o chão, mas também te tiram o teto”. Não sei se você percebeu, mas o chão já saiu, agora a saída é levantar o queixo e olhar pra cima.

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Fabrício Pamplona
Cientista e empreendedor brasileiro, com uma carreira dedica à inovação em saúde. Já palestrou no TEDx - Exosphere - SxSw e é curador do Festival Path.

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