Ciência

Atila Iamarino diz que imunidade de mais pobres será explorada com flexibilização de quarentena

por: Yuri Ferreira

O biólogo Atila Iamarino, uma das principais vozes na divulgação científica durante a pandemia de coronavírus, publicou um artigo em sua coluna na Folha de São Paulo sobre o ‘laboratório’ que será feito nas periferias do nosso país. Ele remonta aos ‘passaportes de imunidade’ utilizados durante a escravidão para explicar com as populações mais vulneráveis serão as principais vítimas da epidemia de covid-19 em caso de flexibilização do isolamento social.

Átila aponta que o passaporte imunidade proposto por alguns governantes reforça desigualdades históricas e pode prolongá-las

Na terça-feira (28), o biólogo fez uma de suas tradicionais lives durante a quarentena com o historiador e professor de Harvard Sidney Chalhoub. O autor do livro “Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial” explicou como as elites brasileiros escapavam para a cidade de Petrópolis durante as epidemias de febre amarela e dengue, deixando a população pobre e majoritariamente negra às custas da doença.

A preocupação de Atila com as favelas é evidente. “Se não adotarmos o distanciamento e a postura que a crise exige, o colapso do sistema de saúde será universal no país. Ricos e pobres não encontrarão leitos hospitalares para qualquer problema de saúde. Mas nossas desigualdades apresentarão essa realidade muito mais cedo para alguns”, afirmou o PhD em microbiologia em artigo para a Folha.

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Nos EUA, os dados já apontam que a população negra e latina são as maiores vítimas da doença. Com acesso à saúde reduzido, a desigualdade socioeconômica já mostrou as suas garras na maior economia do mundo. No estado de São Paulo, os efeitos são evidentes. A mortalidade da covid-19 no bairro da Brasilândia, na periferia da capital paulista, é de 30%. Segundo dados divulgados pela prefeitura paulistana, o risco de morrer por Covid-19 em SP é até 10 vezes maior em bairros com pior condição social.

O artigo de Átila critica o ‘passaporte de imunidade’, que libera pessoas que já foram contaminadas pela doença para voltar ao trabalho. Segundo o pesquisador e divulgador científico, esse experimento pode colocar em risco milhares de brasileiros, afinal, não se sabe ainda se é possível ser infectado duas vezes pelo vírus e nem a capacidade de transmissão dessas pessoas.

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Ele ainda remonta para os impactos disso nas populações negras do Brasil e dos EUA até hoje: a imunidade de rebanho feita nos tempos da escravidão fez com que a população negra tivesse alta prevalência de anemia falciforme, doença perigosa mas que dá mais resistência à febre amarela e à malária.

“Se esse for o caso [passaporte de imunidade] com a Covid-19, os descendentes de explorados pela imunidade no passado serão os primeiros que precisarão trabalhar. E são os parentes e as comunidades que vivem na encarnação moderna dos cortiços cariocas que descobrirão se estão realmente imunes ou se não trazer o vírus para casa. Mais uma vez”, afirmou o biólogo.

Confira a live de Átila com o professor de Harvard Sidney Chalhoub no Youtube:

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Fotos: Reprodução/Youtube


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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