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‘BBB’: Thelma e Babu não precisam de um ‘white savior’ e nós explicamos

por: Karol Gomes

Em um dos paredões mais polêmicos não só dessa edição do Big Brother Brasil’, mas também da história do programa, o público se dividiu entre a eliminação de Manu Gavassi ou de Felipe Prior. Houveram muitas camadas nessa história, envolvendo até mesmo torcidas de famosos e memes no Twitter, mas uma das principais questões, e esta era a favor da permanência de Prior, era: como Babu Santana vai sobreviver ao jogo sozinho? 

Isso porque, ao longo do confinamento, muitos participantes criaram uma imagem de agressividade para o ator carioca, por muitas vezes o taxando como monstro. Depois que um grupo principal se afastou, Prior era o único aliado que lhe restava. 

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Thelma e Babu, na casa do ‘BBB 20’

Sendo um dos favoritos do público ao prêmio, é normal que a preocupação com Babu aconteça. De fato, dias após a saída do amigo, ele ficou sozinho em boa parte da festa e atividades do reality, precisando se readaptar com as residentes restantes, todas mulheres. Babu também está desprotegido e exposto. Mal voltou de um paredão e já estava no próximo – literalmente, na mesma noite. 

Mas a verdade é que Babu pode não ter sortes ou aliados no jogo, mas tem mostrado que não só vai bem sozinho, obrigado, como também sabe se defender de uma das maiores ameaças que enfrenta na casa: o racismo. 

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Na fase final, o preconceito ainda é a principal muleta das participantes Giselly, Marcela e principalmente de Ivy para sustentar o voto constante em Babu e julgar comportamento e convivência com ele na casa, como mostraram suas falas no jogo da discórdia da noite de ontem (6), coordenado pelo apresentador do BBB, Tiago Leifert

Dessa vez Leifert pediu que os participantes se lembrassem de um momento que não gostaram no reality. Babu disse que não gostou de uma atitude de Marcela, contando que por vezes ela o ignorou e ia tratar assuntos do jogo com Prior – mesmo os que envolviam Babu. 

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Babu também já se queixou mais de uma vez do fato de Ivy o ter chamado de “monstro”. No jogo da discórdia, o ator observou que a participante já votou nele sete vezes – em dez paredões. Também lembrou que já foi a seis paredões. “Nunca fiz nada para a criatura”, disse, referindo-se a sister.

Marcela e o racismo

Não é a primeira vez que Babu reclama da postura de Marcela com ele. Numa conversa com Thelma, em fevereiro, ele disse: “A Marcela me olha do mesmo jeito que a minha patroa me olhava. Tenho um trauma desse olhar. Aí eu evito também. Não dei bom dia duas vezes”.

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Isso tem muito a ver com o preconceito e discriminação que ele já sofreu fora da casa, tanto nas suas relações pessoais quanto profissionais. Babu já falou abertamente sobre isso em algumas ocasiões, como numa entrevista a Lázaro Ramos, mas tem evitado uma abordagem mais direta dentro do “BBB 20”.

No reality da Globo, Babu tem se limitado a falar sobre racismo e raça de maneira histórica e estrutural, mas nunca de maneira pessoal ou sobre o que acontece lá dentro – talvez por medo de ser visto como vítima pelo público ou como um inimigo ainda maior para as adversárias, já que acusações de racismo sempre deixam as pessoas na defensiva. Mas a verdade é que, quando fala, Babu aponta questões muito pertinentes. 

Marcela e Ivy acumulam falas racistas

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Ele chegou a ser aplaudido pelas sisters após explicar o contexto da escravidão e o sentido negativo da palavra ‘negro‘. E, mesmo sem saber, acaba sendo um grande símbolo de protesto: há alguns dias, o ator está usando espetado no cabelo um pente que representa a cultura “black power”. Este mesmo pente garfo foi objeto de piadas e risadas de Ivy, Pyong e Gizelly há três semanas.

Assim, Babu tem se desvinculado, sozinho, da imagem de que precisa de proteção Prior ou qualquer outra pessoa branca no jogo. Essa ideia que o público criou de que ele precisava de um ‘white savior ou ‘salvador branco’

Para entender o termo, podemos olhar para uma situação do próprio BBB, mas com única outra participante negra do jogo: Thelma Assis.

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A médica teve a sua vitória na última prova do líder, de resistência, minimizada pela vice-competidora, a participante Mari Gonzalez, que saiu espalhando pela casa que havia deixado a sister ganhar após 26 horas de prova. Mari estava sido vista como uma heroína, uma pessoa de grande coração que havia feito um ato lindo por uma pessoa que, aparentemente, precisava de sua ajuda. 

Esta é a definição da pessoa branca que leva créditos pela conquista de pessoas ou do movimento negro depois de ter feito o mínimo ou mais do que a obrigação. Se precisar de um exemplo histórico, podemos notar a maneira com que a história do nosso próprio país é contada. 

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A Princesa Isabel não assinou a Abolição da Escravatura por ser boazinha e ter pena dos escravos negros, mas sim por uma manobra política. A ideia era agradar os negros, que faziam pressão ao seu governo, e ao mesmo tempo os brancos, que estavam perdendo seus escravos para as liberações dos movimentos quilombolas. Junto com o documento, nenhuma política pública foi instaurada para apoiar escravos que não tinham renda ou educação e muitos precisaram, por anos, continuar trabalhando nas mesmas condições, para os mesmos patrões. Mas nós não ouvimos toda a história, não é? 

Quando a glória de sua vitória na prova do líder lhe foi tirada, Thelma fez questão de recuperá-la. Ela conversou com Mariana e o resto da casa para explicar que sua liderança era merecimento próprio. Mais uma vez, o racismo estava presente na conversa, já que a médica foi vista como agressiva e raivosa mesmo estando com razão e sem nem mesmo ter usado outra postura além da firmeza em sua fala. 

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Apesar de se declararem inimigas de Babu, Marcela e Ivy, se dizem amigas de Thelma, muito embora tenham a abandonado em momentos importantes do jogo, como quando a médica afirmou que daria o anjo (imunidade) para Babu ou quando ela enfrentou o castigo do monstro (dado por Ivy). 

Ivy, inclusive, já disse que votaria na Thelma se não tivesse o Babu como opção. Mais uma vez, a amizade se coloca em prova, já que Ivy tem somente pessoas brancas como prioridade no jogo. 

E o público já percebeu isso. A hashtag #IvyRacista, é uma das mais usadas no Twitter depois do jogo da discórdia, quando Ivy soltou diversos clichês racistas para se defender, mesmo que a palavra ainda não tem sido usada nos debates do jogo. 

Mas enquanto o racismo segue sendo um assunto não falando explicitamente dentro da casa, nas redes sociais, o público não tem medo de apontar o racismo dos participantes. E Marcela, que começou o jogo sendo considerada uma “fada sensata” por proteger as mulheres de machismo, não está sendo poupada das críticas. Feministas podem sim ser racistas e prejudicar a imagem de uma pessoa negra: 


E, assim como não precisou ajuda de brancos para fazer aliados antes, Babu não está precisando agora. Há muito tempo ele defendia Thelma, mesmo não sendo próximo da sister, por motivos “maiores do que o jogo”, como ele já falou muitas vezes para Prior. Depois descobriu que Thelma também o protegia. Quem precisa de pessoas brancas quando se tem um ao outro, né? 

Agora Baby também defende Rafa Kaliman pois viu verdade na moça, que também quer protegê-lo e, aparentemente, também está caindo nas graças de Manu, uma forte competidora. 

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Foto: Reprodução / Rede Globo


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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