Viagem

Como está a vida na Índia durante a pandemia de coronavírus

por: Worldpackers

Em novembro de 2019 me despedi da Índia após 7 meses de viagem sozinha por lá. Fiz trabalhos voluntários com a Worldpackers, estudei e pratiquei Yoga, além de explorar o lugar que reconheci como lar.

Hoje o coração bate aflito por saber que o coronavírus também está pelo país. Por isso, acionei os meus amigos, que chamo de família, para me contar um pouco sobre o que está acontecendo por lá.

Vem comigo que eu compartilho tudo com você!

Taj Mahal quando ainda estava aberto. Para tirar fotos sem multidões ao fundo era necessário esperar o monumento abrir as portas. 

Taj Mahal quando ainda estava aberto. Para tirar fotos sem multidões ao fundo era necessário esperar o monumento abrir as portas.

A rápida ação do governo indiano diante do coronavírus

O primeiro caso de coronavírus na Índia foi registrado em 30 de janeiro de 2020, hoje, 30 de março, 1117 casos e 32 mortes foram confirmados.

Comparando com o Brasil, a situação é surpreendentemente menor: no Brasil, o primeiro caso foi confirmado no dia 26 de fevereiro, e hoje já temos 4371 confirmados e 141 mortes.

Com a população de 1,3 bilhão, é incrível como a Índia tem conseguido controlar o contágio.

O governo agiu rápido. No dia 13 de março, com 83 casos confirmados, o país decidiu fechar as fronteiras para estrangeiros. Todos os vistos de turismo foram cancelados até 14 de abril e apenas casos específicos podem entrar no país.

Além disso, as atrações turísticas como Taj Mahal estão fechadas por tempo indeterminado.

No dia 22 de março, a Índia entrou no toque de recolher Janata. Das sete da manhã às nove da noite, totalizando quatorze horas de reclusão, o Primeiro Ministro Narendra Modi declarou que todos ficassem em suas casas, já que nos últimos dias os casos aumentaram consideravelmente.

Apenas poderiam sair os trabalhadores essenciais, tais como médicos, bombeiros, policiais, entre outros. A princípio, o toque de recolher foi apenas no dia 22 e o que acontecerá nos próximos dias ainda é incerto.

Há quem possa achar as medidas adotadas pelo governo como exageradas ou precoces, mas diante de um dos países mais populosos do mundo e com situações precárias de saúde, foi essencial o isolamento diante dos resultados catastróficos por todo o mundo.

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Surpreendentemente vazia: Mumbai, a cidade mais populosa da Índia, de portas fechadas durante o toque de recolher

A região metropolitana de Mumbai, no Estado de Maharashtra, conta com cerca de 23 milhões de pessoas.

Eu visitei a cidade duas vezes durante minha viagem à Índia sozinha, e nunca vi um lugar tão caótico na Índia. Com um trânsito absurdo, envolvendo rickshaws, carros, motos e vacas, embalados aos sons de buzinas e corvos, a cidade litorânea tem um estilo único.

Além de ser um polo financeiro, gastronômico e referência da indústria cinematográfica de Bollywood, Mumbai é uma cidade que nunca para. São diversas informações ao mesmo tempo: cores, cheiros, sons e paisagens. Desde a brisa do mar com um cheiro forte, até os aromas deliciosos das comidas de rua misturados com o sândalo dos incensos nas calçadas.

Meu choque foi grande ao ver as ruas vazias durante o toque de recolher.

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Nahar Railway Station em Mumbai, que normalmente é superlotada.

Vidhi Shetty, nutricionista e moradora da região norte de Mumbai é uma grande amiga que fiz durante uma viagem ao Egito em 2013. Ela me contou tudo sobre esse momento delicado.

Relatou que desde a última quinta feira a cidade já estava mais vazia, com lojas fechadas e grande parte das escolas e institutos educacionais fechados, além de policiais patrulhando a área para garantir o isolamento social.

Vidhi comentou que na região sul da cidade algumas estradas foram bloqueadas e, nos supermercados, alguns ítens já estavam em falta, mas nada tão alarmante.

Durante o toque de recolher, os moradores fizeram uma espécie de ‘’bate panela’’ em homenagem aos funcionários da área da saúde e serviços essenciais da cidade.

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Cidade de Mumbai vazia

Além da Vidhi, Pooja Kuber, profissional da área financeira e amiga que fiz durante um retiro de Yoga, compartilhou sua experiência comigo. Ela também ficou em casa durante o toque de recolher, e a empresa para a qual trabalha proporciona as atividades em home office.

Pooja contou emocionada sobre o momento em que os moradores de seu bairro se uniram à homenagem aos trabalhadores da área da saúde, bem como bombeiros, policiais, e tantos outros profissionais que são essenciais para a manutenção do país.

Ela contou que, durante cinco minutos, os sinos sagrados foram utilizados para emanar energias positivas para o país.

Na entrada dos templos hinduístas sempre há um sino, o qual o devoto aciona para ‘’avisar’’ os Deuses que ele está lá, ou simplesmente trazer a energia divina para mais perto, no caso, as vibrações positivas dos Deuses para o país.

Ela se mostrou orgulhosa em relação ao bom comportamento de seus vizinhos e concorda com as medidas do governo, já que a situação do coronavírus na Índia seria muito pior diante do número de habitantes do país.

Um país unido contra o coronavírus

Vikash Gupta, ciclista profissional e funcionário em uma grande empresa de esportes, é um dos meus melhores amigos indianos. Ele mora em Bangalore, estado de Karnataka, é natural de Begusarai, no estado do Bihar, tem família em Nova Delhi e amigos por todo o país devido a natureza de seu trabalho e seu gosto por viagens.

Por isso, ele conseguiu me dar uma visão geral do que está acontecendo em outras partes do país.

Vikash relatou que, já no dia 20 de março, escolas, parques, cinemas, teatros e shoppings estavam fechados em Bangalore, Pune, Gurgaon e Mumbai. Nessa data, a empresa onde trabalha já havia fechado quase todas as filiais e o trabalho remoto estava sendo incentivado.

Agora, com o toque de recolher, as ruas estão ainda mais vazias. Vikash sente urgência em evitar a propagação do vírus porque, por mais que os casos confirmados sejam poucos, em relação a outras partes do mundo, é preocupante o número de casos que ainda não foram identificados.

Ele ficou com suas irmãs em Nova Delhi e seus pais estão na cidade de Begusarai, que fica a menos de 200 quilômetros da fronteira com o Nepal. Todos estão bem de saúde e tomando todas as medidas de isolamento recomendadas.

Ao norte do país, na cidade de Jalandhar, a 115 quilômetros da fronteira com o Paquistão, mora a minha amiga Ambika Takhour. Eu, ela e o Vikash exploramos juntos as grutas de Ellora & Ajanta na cidade de Aurangabad.

Ambika é artista, dançarina e professora universitária e relata que está com medo porque acredita que a Índia não teria estrutura física para lidar com o surto da doença.

Antes do toque de recolher, ela relatou que algumas pessoas ainda circulavam pelas ruas, como o pai dela, de 57 anos, que continuava indo à fábrica onde trabalha.

Mesmo com o toque de recolher, que a maioria respeitou, foi possível observar pessoas mais velhas indo ao quintal de seus vizinhos para conversar.

Sobre a questão econômica, Ambika leciona aulas em um instituto de artes, e as aulas foram canceladas, gerando um grande prejuízo financeiro para o local, porém, ela ressalta que o mais importante nesse momento é manter a saúde de todos protegida.

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Acesso à informação e ajuda para todos

Uma coisa que me encantou na Índia foi a solidariedade, o espírito de família. Viajando sozinha, precisei de ajuda diversas vezes, e sempre tive com quem contar, mesmo que fosse alguém que eu tinha acabado de conhecer. Os indianos gostam de ajudar, de explicar, contar histórias e também de escutar.

Não me surpreende saber que o governo já se mobilizou para disponibilizar informações atualizadas sobre os casos, compilando informações relevantes sobre o coronavírus no país. Também não fiquei surpresa ao saber da criação de linhas de emergência organizadas por Estados.

Tanto a iniciativa privada e pública se mostram preocupadas com o bem-estar dos habitantes, e eu sinto que isso está fazendo a diferença para diminuir a propagação do vírus. É um exemplo de humanidade a ser seguido. Além dos habitantes do país, os turistas também estão por lá. E sobre eles eu vou falar a seguir. Vem comigo!

A situação dos turistas na Índia diante da pandemia

Independente da duração do visto de turismo, um estrangeiro só pode ficar noventa dias consecutivos no território indiano. Após esse prazo, deve sair do país e retornar.

Por exemplo, eu tinha o visto de turista de um ano, então cheguei à Índia, fiquei noventa dias, saí para o Nepal, fiquei lá por trinta dias e retornei à Índia, onde fiquei por mais noventa dias e depois fui embora. Portanto, seja de um visto de um ou cinco anos, o turista terá que fazer esse processo. Nem que fique apenas um dia fora do país.

Para falar sobre a situação dos turistas, conversei com a Ayla Carlyn, australiana, artista e nômade digital que está em Rishikesh, no estado de Uttarakhand, conhecida como a capital mundial do Yoga e uma das cidades mais turísticas da Índia.

Eu e Ayla fizemos trabalho voluntário juntas em um hostel em Rishikesh pela Worldpackers, e enquanto eu segui viagem, ela continuou por lá.

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Rio Ganges em Rishikesh. Foto clicada pela Ayla em um lugar onde turistas ainda não conheciam, por isso, vazio.

A viajante relata que o medo dos turistas, além de contrair o vírus, é a questão do visto, já que é incerto o que vai acontecer. Por causa do coronavírus, se algum turista sair do país, não poderá retornar. Todos os vistos de turismo de quem está fora da Índia foram anulados até 15 de abril.

Ela também contou que é assustador o fato de já ver os impactos do coronavírus no comércio local: cafés, restaurantes, e todos os espaços de Yoga e terapias já estão fechados.

Durante a minha viagem à Índia, eu visitei mais de 25 cidades, e Rishikesh foi a que mais encontrei turistas e negócios relacionados ao Yoga e terapias holísticas. Diversas lojinhas de souvenirs, livrarias, restaurantes veganos, consultórios de medicina Ayurvédica e massagem e, claro, muitos estúdios e escolas de Yoga.

A cidade que fica aos pés das montanhas dos Himalaias, é movida pelo comércio da espiritualidade. Uma curiosidade é o fato da cidade ser uma das poucas onde o Rio Ganges é limpo, com sua nascente ali perto, por isso, o turismo de esportes aquáticos como o rafting também acontece durante essa época do ano e também está sendo afetado.

Até o momento, nenhum caso de coronavírus foi registrado em Rishikesh, talvez pela eficiência do governo em isolar o país rapidamente dos turistas, já que a cidade fica apenas há 250 quilômetros de Nova Delhi e é bem fácil de chegar até lá. Tanto para turistas quanto para moradores, a angústia de não saber o que vai acontecer é grande.

A incerteza diante do coronavírus

Mesmo com a rápida ação do governo ao fechar as fronteiras, incentivar o home office e criar um dia de toque de recolher, os casos estão aumentando na Índia e é preocupante como o país pode ficar em questão de alguns dias, então nesse momento é contar com a colaboração da população e confiar no governo que tem, até então, agido para proteger todos em seu território.

É inevitável eu não comparar com o Brasil, ao ver o descaso do presidente diante de uma situação tão grave e que pode custar milhares de vidas.

Portanto hoje, eu desejo do fundo do meu coração que tanto a Índia, país que me ensinou tanto, quanto o Brasil, país que me deu a vida, e todos os outros que estão sofrendo com essa pandemia consigam encontrar forças para superar.

Aprender com os países que já passaram pelo pior, proteger os que ainda têm chance, e trabalhar em conjunto para conquistar uma solução para que todos consigam ter as suas vidas e sonhos de volta.

Enquanto não podemos nos abraçar, finalizo essas linhas com um dos momentos mais especiais de minha viagem: quando me despedi do Vikash e da Ambika, depois de ter certeza que nossa amizade superaria qualquer barreira física.

Sinta-se abraçado também!

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