Reportagem Hypeness

Coronavírus: periferia não pode esperar a vontade do Estado. Negros serão mais impactados

por: Kauê Vieira

Pouco mais de um mês após a primeira morte por coronavírus registrada no Estado de São Paulo, o mantra ecoa pelas ruas de uma das maiores metrópoles do mundo: lave as mãos e se possível fique em casa. As medidas de isolamento social empregadas pela gestão João Doria (PSDB) surtiram algum efeito e mais de 50% dos paulistas estão se mantendo em quarentena. 

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A realidade, no entanto, é muito mais complexa do que se imagina. De antemão, é preciso deixar claro que não estamos no mesmo barco. Se o novo coronavírus deve provocar retração de 5% no PIB segundo estimativas do Banco Mundial e a maior recessão do Brasil em 120 anos, ele serviu também para apresentar sem massagem os abismos sociais que separam uma das sociedades mais desiguais do mundo. 

O dilema é real em um país que marcha com o peso da convicção de quem não se cansa de precarizar empregos. A vida. Como se proteger da Covid-19 e garantir o sustento da família? Para compreender melhor o cenário desafiador e que parece esquecido em uma disputa política que já ultrapassou a irresponsabilidade faz tempo, o Hypeness ouviu Paulo Talarico e Lucas Veloso, membros da Agência Mural, meio de comunicação pensado para dar voz e protagonismo aos moradores das periferias de São Paulo.  

O coronavírus já chegou na periferia de São Paulo

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“A gente sentia certa resistência ou dificuldade de saber o que era para fazer desde o início das medidas. Até por conta do quanto essas medidas estavam distantes das pessoas que vivem nas periferias e o quanto não é possível aplicar algumas destas determinações”, explica ao Hypeness Paulo Talarico. 

O equilíbrio da vida sempre fez parte da rotina de que mora nas periferias. A vulnerabilidade atua como uma aranha, que com suas oito patas, faz de tudo para capturar os sonhos e o direito à vida destas pessoas. O Mapa da Desigualdade feito pela Rede Nossa São Paulo em 2018 mostrava que um morador de Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital, vivia 23 anos menos que um habitante do bairro de classe alta do Jardins. 

A abreviação da vida pode se dar de forma direta, como pela violência policial ou com a dificuldade em acessar o transporte público e garantir o emprego. Em tempos normais já é assim, imagine só quando uma pandemia vira tudo de cabeça para baixo.  

“A questão de evitar aglomerações se você tinha que continuar indo para o trabalho num transporte público muito cheio. A questão do isolamento se você vive numa casa com pouco espaço e muitas pessoas, a mesma coisa a questão do saneamento. Já tem uma série de problemas nas periferias de São Paulo que não encaixavam nas formas como os cuidados vinham sendo colocados”, reflete Paulo.  

O jornalista da Agência Mural explica que com o tempo as pessoas assimilaram a necessidade de adotar o mínimo de medidas para a preservação da saúde. 

Agora, as pessoas estão começando a entender mais sobre o que precisa fazer, mas ao mesmo tempo, tem aumentado a preocupação de como isso vai ser feito, se proteger. Como conseguir lidar mais com a higiene em regiões onde falta água de noite, como Paraisópolis. Não tem álcool gel em lugar nenhum ou quando tem, tá muito caro. E quem não tem dinheiro para comprar? Então, creio que houve uma conscientização maior, mas o dilema ainda não está superado.

As pessoas estão cientes do risco, mas precisam ganhar o sustento

A opção do isolamento social para evitar a disseminação do vírus entrou em vigor em São Paulo há pouco mais de 15 dias. Desde então, a cidade de 12 milhões de habitantes viu comércios fecharem suas portas e, consequentemente, a oferta de postos de trabalho desabar.

“Acho que essa carga psicológica se converte em um impotência. É o sentimento. Pelo menos é o sentimento das pessoas que eu conversei. Elas estão impotentes diante da situação, porque precisam fazer isolamento, tomar cuidado, seguir todas as recomendações de saúde indicadas pelos médicos, mas elas não têm condições pela própria estrutura social”, joga a real o jornalista Lucas Veloso, também da Agência Mural. 

Morador de Guaianases, extremo da zona leste de São Paulo, Lucas está em contato com uma realidade que não tem destaque em muitos veículos de comunicação. Vamos falar de habitação? A capital paulista, diz estudo da Fundação Getúlio Vargas, possui um déficit de habitação de 474 mil moradias. Isso quer dizer que seriam necessários 1,8 milhões de casas para suprir a demanda. Com ou sem coronavírus, as pessoas ainda estão sem teto ou convivendo com a ameaça da reintegração de posse.

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Lucas afirma não ter ouvido relatos de falta de energia, ele no entanto, aponta a moradia como um obstáculo a mais para impedir o avanço da pandemia. “O que tá rolando por aqui são que algumas ocupações seriam despejadas e que isso foi adiado ou cancelado por hora. A estrutura do Estado está movimentada para fazer outras coisas”

O jornalista cita o exemplo de Alex, um trabalhador que mora numa casa com outras 11 pessoas. Lucas pede que autoridades competentes deem a atenção devida para estas realidades, mais comuns do que se imagina. 

O isolamento social…que opção a gente dá para quem não consegue fazer porque tem a casa muito pequena e como o Alex [citado no podcast Café da Manhã, da Folha de São Paulo], que mora com 11 pessoas? É claro que quando o vírus chega ali, essa contaminação, essa disseminação vai ser catastrófica, atingindo muito mais essas pessoas. Isso é realmente uma política que deveria ter sido pensada. E espero que esteja sendo pensada pelas autoridades públicas. Porque, de fato, são elas que devem resolver isso. 

Ele teme que a falta de condições para se proteger provoque uma tragédia nas periferias. 

Acredito que pode ter uma coisa grande nas periferias, porque é isso. Nas favelas e periferias brasileiras – e a gente está falando aqui de SP – tem muita gente em espaços pequenos, minúsculos. O problema é que recomendações médicas dizem que o vírus se prolifera em espaços em que as pessoas têm contato fácil, circulam uma do lado da outra e estão muito juntas. E por conta da desigualdade social, a estrutura desigual que a gente tem e que coloca pessoas pobres num outro patamar de sobrevivência, isso faz com que outras pessoas não tenham outra opção que não ficar nesses espaços. Por exemplo, quando o vírus chega, a disseminação vai ser muito rápida. E o pior, vai ser entre pessoas pobres, que muitas vezes não têm condições de se prevenir

O coronavírus já está na periferia de São Paulo

E o dinheiro? 

A Agência Mural afirma que ao menos 6 mil resultados de testes para a Covid-19 são aguardados. A demora para a realização dos exames é uma das razões para a demora. São Paulo tem por volta de 21 mil casos suspeitos da doença esperando resultado. 

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A ineficácia blinda os números e não dá a noção exata do problema. Isso incide também no total desconhecimento da quantidade de pessoas que já morreram e pode afetar a continuidade ou não da quarentena. O isolamento social é uma necessidade amarga, mas que se coloca como única saída para frear o vírus. 

O fechamento do comércio de grandes e pequenas cidades é um golpe fatal para a economia, como já debatemos aqui. Na periferia o impacto é ainda maior. Paulo Talarico, da Agência Mural, destaca que a precarização das lei trabalhistas recentes está atingindo um novo grupo de pessoas. 

Com a necessidade do home office e outras medidas, muita coisa pode complicar ainda mais para os moradores.  Evidente que tem uma questão econômica complicada agora. Como as empresas vão continuar bancando os salários e algumas medidas provisórias relacionadas ao trabalho em casa? Mas vale sempre destacar que a informalidade já é ampla em várias periferias de São Paulo. Se você já tinha uma informalidade grande, tem muita gente que não tá nesse mercado formal de trabalho, as mudanças têm impacto, mas já é algo secundário nessa questão. São muito mais as pessoas que nunca estiveram nem um pouco nessa teia de benefícios sociais e formas de manter qualidade de vida que são afetadas. Vendedores, pessoas que têm pequenos comércios, que trabalham como motoristas de app, entregadores. Estas são as mais afetadas e vai ser complicado buscar soluções com a queda total na circulação das pessoas. 

Demorado, o auxílio financeiro do governo ainda não chegou

Você percebe que estamos falando bastante sobre a responsabilidade do Estado em momentos de grave crise como o atual? Embora o distanciamento social seja importante, o protagonismo dos governos é urgente para amenizar os estragos que virão. Impressionante ou não, a coisa no Brasil descambou para um jogo político inacreditável e que está longe de sumir com a Covid-19. Enquanto o presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) defende o fim do isolamento social, segundo ele para salvar a economia, do outro lado seu governo demora na efetivação dos benefícios sociais. 

O auxílio emergencial de R$ 600 oferecido pela gestão Bolsonaro há mais de uma semana ainda não caiu na conta da maioria das pessoas que necessitam dele para ontem. A fome não espera. O jornal Agora publicou reportagem mostrando que os 600 reais depositados na conta de algumas pessoas foi retirado na sequência, como se estivesse quitando algum débito. A afirmação vai contra promessa da própria pasta econômica de que não iria executar dívidas dos que necessitam do valor. O Ministério da Cidadania, que não detalhou a situação, disse ao Agora que os créditos “pontualmente estornados” serão analisados. 

“O poder público, junto com autoridades e líderes comunitários que entendem a realidade de cada região, deveriam se juntar. Deveria existir uma articulação do poder público com  líderes para pensar quais seriam as melhores alternativas para que as medidas de segurança e prevenção contra o novo coronavírus sejam tomadas. Muitas vezes as pessoas ‘não tomam essas medidas por que elas não têm opção'”, diz Lucas, que chegou a encontrar ácool gel vendido a R$ 25.  

Ele segue: 

“A mesma coisa dos informais ou das empregadas domésticas, que não têm opção. A Agência Mural ouviu uma doméstica que quer proteger o filho e precisa trabalhar para sustentá-lo. O que ela faz? Aí é que o poder público deve entrar para pensar qual alternativa a gente dá para essa diarista, por exemplo. Qual a opção a gente dá para a Valdirene do MTST, com o Alex que tem 9 crianças dentro de casa. É uma articulação que deveria ser feita entre o poder público e os líderes comunitários, que muitas vezes já deram o pontapé para ajudar no que podem nas suas comunidades. Em Carapicuíba, a Cleide é um exemplo disso”. 

Comunidade, na prática 

Enquanto o Estado não faz sua parte e saúde pública beira o caos inevitável com o aumento de internações de uma doença que, segundo a Organização Mundial da Saúde mata 10 vezes mais que a H1N1, as periferias brasileiras se vale da cooperação de gente como Paulo e Lucas, que usam o jornalismo como ferramenta de desenvolvimento social e disseminação de informação responsável. O resultado dá frutos. 

A hashtag #CoronaNasPeriferias reúne comunicadores e faz um mapeamento sobre as necessidades em cada região e em cada estado da nação. 

Os moradores que são comunicadores nas periferias de SP e do Brasil têm conversado bastante e se articulado para levar informações. Tem um grupo usando a tag #CoronaNasPeriferias e vem desde questões do Rio de Janeiro, passando pelas periferias de São Paulo. Algumas do Nordeste. Tem tido uma grande conversa para tentar levar mais informação, tentar ajudar para não criar pânico, orientar e ajudar as pessoas a entender como estão funcionando os serviços públicos, quais são as alternativas e soluções e como as pessoas estão se adaptando nesse momento de dificuldade. A Agência Mural participa disso e tem comunicadores em várias regiões buscando novos meios de levar as informações, com um podcast que a gente lançou que se chama ‘Em Quarentena’, que fala sobre como estão os moradores e tentar chegar de uma forma mais fácil para que eles recebam esse conteúdo e contribuir um pouco com serviços sobre como lidar com esse momento. 

Portanto, as pessoas estão sim conscientes dos riscos que enfrentam caso não fiquem em casa. Mas não dá para esperar um milagre acontecer, não é? 

“As pessoas ainda estão circulando para trabalhar e isso é o que dá um movimento para o bairro. Fora disso, sempre tem uma parcela da população que ainda não entendeu e se reúne em bares, em alguns outros locais, mas são coisas pontuais que você vê. Acho que de maneira geral, os bairros e essas regiões periféricas entenderam essa preocupação e tão seguindo na medida do possível do que podem. Quando acham álcool gel, por exemplo. Eu fui na feira de Guaianases e estava lotada, mas as pessoas estavam seguindo as recomendações. Tinha muita gente de máscara nas barracas dos feirantes e muitas tinham álcool gel. As pessoas nas ruas mesmo, quando elas se veem: ‘olha, não é pra ficar na rua’, um tom de brincadeira, mas no fundo as pessoas entendem que está restrito andar, fazer movimentos grandes”

Pessoas negras devem ser mais afetadas por pandemia

O isolamento social tem que ser unanimidade, mas o jogo político deve ser deixado de lado e ações efetivas postas em prática para salvar o maior número de vidas possível. Afinal, todo mundo sabe a cor dos que vão ser mais atingidos durante e depois que o novo coronavírus ficar velho: negros e pobres

“Eu acho que todas essas outras questões levantadas pelos movimentos sociais, como o movimento de mulheres e o movimento negro, agora a gente consegue ver com mais clareza o que eles dizem. Há diferenças entre as pessoas. Todo mundo deve ficar em isolamento, mas quem é que vai sofrer mais? Quem já sofre com as desigualdades sociais, quem já sofre com essas questões estruturais: o racismo, o machismo, elas se perpetuam na sociedade de diversas maneiras”, destaca Lucas, da Agência Mural. 

A Criola, organização de mulheres negras do Rio de Janeiro, publicou nota em que pede ao poder público que preste conta sobre as medidas de proteção social às populações mais vulneráveis. 

“O desastre da dengue e da chikungunya, atingindo majoritariamente as populações pobres e negras. O Zika Vírus no Brasil, ainda em curso, que impactou desproporcionalmente as mulheres e as meninas negras, principalmente, na região Nordeste e expôs antigos e graves problemas de direitos humanos”, diz trecho do texto. 

“Quando a gente tem que fazer isolamento e outras medidas de cuidado, elas [desigualdades] também vão se mostrar aí. Como as mulheres vão ser mais impactadas do que os homens. Como os negros serão mais impactados que os brancos, por exemplo. Há uma parcela maior de negros nas favelas do que de brancos. Todas as as questões estruturais a gente consegue ver nesse cenário que temos agora de uma pandemia que todo mundo vai ser prejudicado em alguma medida, mas que é que vai ser mais prejudicado?”, reflete Lucas Veloso. 

Até o fechamento desta matéria, o Brasil acumula oficialmente 1.328 mortes e 23.430 casos confirmados do novo coronavírus.  

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Fotos: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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