Reportagem Hypeness

Coronavírus e o impacto nos negócios de mulheres empreendedoras

por: Gabrielle Estevans

O Brasil já soma 24 milhões de mulheres empreendendo em seu território. Boa parte delas abrem seus próprios negócios, vale dizer, por necessidade — para superar o desemprego ou aumentar a renda —, segundo dados do Sebrae. São mulheres que buscam independência financeira e, em muitos casos, uma forma de sustentar a família inteira — entre 2017 e 2019, o número de mulheres chefiando lares brasileiros subiu de 38% para 45%. Além da dificuldade de acesso à crédito para seus negócios (mesmo com nível de inadimplência menor do que os homens), empreendedoras enfrentam, ainda, outras barreiras sociais e econômicas. Soma-se ao cenário, atualmente, mais um obstáculo: a pandemia. De acordo com dados levantados pela startup de gestão empresarial Chsys, 78% das pequenas empresas terão seu faturamento reduzido em 30% e apenas 15% delas estavam preparadas para um momento como esse.

 

Verônica Oliveira conhece bem a complexidade do empreendedorismo feminino. Para a fundadora do Faxina Boa, a estreia no mundo do negócio próprio foi uma oportunidade de . Em 2016, aos 35 anos, trabalhando como atendente de laboratório e ganhando menos de R$ 1.000, Oliveira foi diagnosticada com depressão e transtorno de ansiedade. Foi internada em uma clínica psiquiátrica. Quando recebeu alta, o saldo de sua conta bancária era de R$ 1,70. Foi morar na casa de uma amiga enquanto seus dois filhos ficavam aos cuidados dos avós. Foi da necessidade que nasceu sua empresa de limpeza. Em vez de recorrer aos anúncios tradicionais de faxineiras, surfou na onda de filmes e séries de sucesso em 2016 para criar chamarizes mais criativos. 

A tática deu certo. Hoje, três anos após o debut, os serviços domésticos foram delegados, mas Oliveira segue cuidado da marca e alavancando seu crescimento. Trabalhando diretamente com o setor de publicidade e eventos, diz que foi completamente impactada pela disseminação do novo coronavírus. “No momento em que surgiu o pedido para que as pessoas ficassem em casa, eu tinha seis ou sete eventos confirmados entre a segunda quinzena de março e o começo de abril. Absolutamente tudo foi cancelado. Tive a sorte de ter aparecido uma campanha para ensinar pessoas a desinfetarem produtos vindos do supermercado e a como limparem suas casas adequadamente em tempos de pandemia. Mesmo assim, ainda não é o suficiente para continuar me mantendo. O que perdi impactou diretamente as contas do mês de abril”, relata.

E os funcionários, como ficam?

Para empreendedoras com quadro de funcionários ou cadeia produtiva, a situação é ainda mais crítica. A marca de roupas Natu nasceu de um desejo de Natalia Fernandes de produzir de forma ética, com matéria-prima orgânica brasileira. Desde a concepção ao produto final: tudo é pensado para causar o menor impacto possível no planeta e para garantir relações justas de trabalho. Por isso, quando os primeiros casos de COVID-19 começaram a ser confirmados no Brasil, Fernandes passou a se preparar e projetar cenários possíveis para garantir que sua cadeia, embora pequena, fosse minimamente impactada: “Essa é uma situação nova para todos nós, então não temos uma cartilha a seguir nesse momento. Nossa decisão foi a de agir pensando sempre no bem das pessoas envolvidas, para que ninguém saísse prejudicado — em termos de saúde ou bem-estar mental e financeiro”. Os ajustes agora e nos próximos meses serão inevitáveis. A coleção de outono, que sairia em abril, foi suspensa. A cidade em que as peças são produzidas está fechada. A campanha fotográfica da coleção também teve de ser adiada sem data definida. “Conversamos com a Ana, nossa costureira, desde o começo e achamos prudente que ela seguisse seu próprio ritmo e vontade, conforme achasse mais seguro e confortável. De qualquer forma, não temos como pegar a produção, então não pedimos nenhuma quantidade fixa para ela, mas, mesmo assim, a remuneramos conforme ela produzir. Isto acaba adiantando a produção no futuro e a remuneração dela no presente. Temos uma conversa muito aberta e transparente, então estamos buscando o melhor para ambas as partes. Para termos uma produção ética, é necessário que as pessoas envolvidas na produção tenham boa remuneração. A Ana está em casa, segura, e fazendo as coisas no seu ritmo. Nós não temos pressa, queremos apenas que tudo fique bem para todos”, explica. Por enquanto, a marca trabalha com os estoques, até que acabem. Imaginando a impossibilidade de repor os produtos, Fernandes diz que ela e o sócio, Leonardo Contezini, estão revendo modelo de vendas.

Processo natural de tingimento da marca @somosnatu

Solidariedade

Para que troquem experiências sobre os tempos voláteis que estamos vivenciando com a pandemia, a TEAR, rede de iniciativas femininas, criou um círculo de conversas entre mulheres empreendedoras. A ideia é que o espaço (online) funcione como um grupo de apoio. “O impacto é diverso. Pra cada situação, temos questões diferentes. Mas, para a maioria, há quedas em vendas ou perda total de renda. Muitas das empreendedoras ligadas à tecnologia não sentiram o baque ou, inclusive, estão prosperando de certa maneira. Mas todas em comum estão pensando em como será esse restart? Que mudanças nos aguardam? E é com esse propósito que estamos começando o nosso grupo de apoio. No primeiro encontro abrimos um espaço de acolhimento para elas, agora vamos caminhar pra aliviar questões práticas e pensar no futuro”, explica Liana Rangel, head de comunicação da TEAR.

Produção da @teu_chocolates

Pelas redes sociais, também se alastrou uma onda de campanhas em apoio aos pequenos produtores. A hashtag #Compredopequeno foi uma das mais mencionadas e correntes se espalharam para que os menores negócios fossem apoiados — inclusive os geridos por mulheres. Maria Isabel Luz, proprietária da Teu Chocolates, diz que está sendo muito bonito ver empreendedores se unindo nesta fase. “Claro que tem todas as dificuldades e preocupações que a gente vê rolando, mas não dá pra negar que uma mudança grande está acontecendo entre nós. É sobre a gente se perceber juntos, sem rivalidade, concorrência, apoiando e segurando na mão um do outro. Estou usando muito esse momento pra transformar os chocolates, que fornecem esses pontos de contato com pessoas que normalmente eu não teria, em um jeito de passar carinho, segurança e prazer em meio a esse clima de incertezas que todo o mundo está sendo convidado a sentir. E, claro, isso acaba me salvando também”, finaliza.

 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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