Ciência

Coronavírus e pneumonia silenciosa: pacientes sentem-se bem já quase sem oxigênio no sangue

por: Karol Gomes

Em um artigo publicado no jornal The New York Times, o médico Richard Levitan registrou uma descoberta feita quando atendia pacientes com Covid-19 no hospital Bellevue, em Nova York – e que está reforçando a importância da quarentena. Ele relatou que muitos dos infectados, apesar de terem pneumonia e uma oxigenação no sangue abaixo do normal, não tinham problemas para respirar, algo incomum em pacientes nestas condições.

Levitan relata vários casos de pacientes internados por outras razões — como acidentes ou vítimas de esfaqueamento — em que só foi descoberto que tinham coronavírus após tomografias ou raios-X realizados para verificar se houve estrago em órgãos internos.

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“E foi isso que realmente nos surpreendeu: esses pacientes não tinham reportado qualquer problema de respiração, apesar de raios-X do tórax mostrarem pneumonia avançada e que o oxigênio estava abaixo do normal. Como pôde ser possível?”, questionou o médico em seu artigo.

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A partir dessas constatações, Levitan explica que a comunidade médica está começando a reconhecer que a pneumonia da Covid-19 causa inicialmente uma privação de oxigênio chamada ‘hipóxia silenciosa’. “Silenciosa por sua natureza traiçoeira, difícil de ser detectada”, afirma Levitan.

Outra característica em comum entre esses pacientes é a saturação baixa de oxigênio, “praticamente incompatível com vida”, mas ainda assim sentiam-se bem. “Apesar de estarem com a respiração rápida, não aparentavam aflição, apesar dos níveis baixos perigosos de oxigênio e de apresentarem pneumonia avançada nos raios-X”, relatou o americano.

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Não foi só Levitan que notou o problema. Um estudo liderado pelo anestesiologista Luciano Gattinoni, da Universidade de Göttingen, na Alemanha, aponta a hipóxia silenciosa como uma condição comum entre os pacientes com Covid-19 analisados.

Ao menos 50% dos 150 pacientes da pesquisa tinham uma oxigenação baixa, mas pulmões com um nível quase normal de complacência, como é chamada a capacidade do órgão de se expandir. “Essa combinação notável quase nunca é vista em uma síndrome respiratória aguda grave”, diz Gattoni.

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Levitan escreveu ainda que os médicos ainda estão começando a compreender o fenômeno mas uma explicação possível apontada por ele é que o coronavírus ataca células pulmonares que produzem surfactantes, substâncias que ajudam os alvéolos a permanecerem abertos entre as respirações e que são essenciais para o pulmão funcionar normalmente.

Em entrevista ao Hypeness, a médica atuante no combate ao coronavírus em São Paulo Jéssica Leão contou que tem visto casos de “hipóxia silenciosa” como esses relatados por Levitan com frequência.

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“Infelizmente é algo que tem acontecido com frequência, vários colegas falaram sobre esses casos. É curioso porque há situações em que é preciso convencer o paciente sobre a sua gravidade, dada a escassez de sintomas”, relata.

Considerando que a “hipóxia silenciosa” esconde sintomas do coronavírus, a profissional explica que o oxímetro de pulso, aparelho portátil que estima a oxigenação no sangue, deveria ser um item tão habitual como é o termômetro nas casas das pessoas.

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Ela explica que os resultados mostrados por esse aparelho são métricas importante de autocuidado para saber se é hora de procurar ajuda profissional. “O oxímetro pode ser usado em casa e é de fácil interpretação. Para os que não têm, mantenho como orientações os sinais de alarme relacionados à falta de ar”, recomenda Jéssica.

Ela explica ainda a “hipóxia silenciosa” pode estar presente em pessoas que têm furado a quarentena por não acreditarem na ameaça do vírus, saindo e voltando para casa sem apresentar sintomas.

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Mas médica alerta: “O distanciamento social não é brincadeira. Evite ir aos serviços de saúde em caso de sintomas leves ou não relacionados a COVID. Procure serviços de telemedicina que estão disponíveis à população. Juntos e com altruísmo conseguiremos vencer essa pandemia”.

Vale lembrar que o serviço de telemedicina está sendo oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) pelo número 136.

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Foto: Getty Images


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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